(Créditos da imagem: Freepik Premium).

Uma das principais metas da ciência para o século XXI é encontrar outras formas de vida fora da Terra. Entretanto, estamos buscando por vida pensando na forma como existe a vida na Terra. O universo é muito (realmente muito) grande, e há inúmeras possibilidades de formação de agrupamentos de matéria que reagem ao ambiente, vulgo, criaturas análogas à vida.

Um dos exemplos é o vírus, que não se encaixa completamente no conceito de vida. E ele está na Terra, imagine em outros planetas. Recentemente, alguns portais de notícias estrangeiros, como The Guardian e BBC, estão trazendo ao debate público um novo conceito na astrobiologia proposto por Stuart Bartlett, cientista planetário do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e o pesquisador Michael Wong, do Laboratório de Exoplanetas da NASA.

A proposta deles, originalmente, em inglês, utiliza a palavra lyfe (de life). Para o português podemos traduzir como vyda. Segundo a dupla, um conceito conservador, como vida, é o que atrapalha nossa busca por ela no Universo. Nada garante que seres análogos à vida possam se encaixar nesse conceito, e é daí que parte a ideia da vyda. 

Bom, possivelmente, não encontramos a vida extraterrestre até hoje por estarmos procurando de forma errada. Aparentemente, não devemos procurar por vida, mas sim por vyda. O nosso conceito de vida, em resumo, depende de alguns fatores-chave (com perdão às generalizações a seguir): 

  1. organização: um ser vivo é formado por peças especializadas, como por exemplo as organelas;
  2. metabolismo: reações químicas que produzem energia e trabalho;
  3. homeostase: é uma “ambientação” do ser vivo para que as reações que o mantém permaneçam estáveis. São as características do ambiente interno. Por exemplo, nós humanos temos uma temperatura de 36° C, somos úmidos;
  4. crescimento. construções de novas, peças, proteínas e células;
  5. reprodução. capacidade de se multiplicar;
  6. reação. capacidade de interagir e reagir com o ambiente externo;
  7. evolução. tornar-se mais complexo.

A NASA define vida não com elementos, mas com uma frase que, implicitamente, inclui todos esses sete elementos. Para eles, a vida é “um sistema químico autossustentável com capacidade de evolução darwiniana”. Note que isso torna o conceito bastante restritivo.

Já a vyda, proposta por Bartlett e Wong, depende de 4 fatores principais:

  1. dissipação: capacidade de capturar e processar a energia do ambiente
  2. autocatálise: crescimento e expansão
  3. homeostase: como já dito, a capacidade de criar um ambiente interno estável
  4. aprendizado: utilizar de informação armazenada ao longo da vida para a sobrevivência. 

Esta é uma proposta apoiada pelo Programa de Astrobiologia da NASA, além de outros projetos. Bartlett e Wong publicaram o artigo em abril de 2020 no periódico Life, uma revista científica de acesso aberto. Motivados pela necessidade de traçar um quadro mais geral do que a vida é — e poderia ser — com respeito ao resto dos fenômenos do universo, propomos um novo vocabulário para a pesquisa astrobiológica”, dizem os pesquisadores no artigo.

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“Vyda é definida como qualquer sistema que cumpre todos os quatro processos do estado de viver, chamados: dissipação, autocatálise, homeostase e aprendizagem. A vida é definida como a instância de vyda com a qual estamos familiarizados na Terra, aquela que usa uma caixa de ferramentas organometálica molecular específica para registrar informações sobre seu ambiente e atingir a ordem dinâmica dissipando certos desequilíbrios planetários”, explicam.

Eles dão alguns exemplos do que poderia ser classificado, na Terra, como vyda. Um deles é o Fougèrite, também chamado de ferrugem verde. Trata-se de um mineral um pouco diferente e tem chamado a atenção dos cientistas há um tempo. Em 2018, o químico planetário e astrobiólogo Michael J. Russell, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL/NASA) o descreveu em um estudo como uma semente para uma forma fundamental de vida.

Por algumas reações que ele é capaz de fazer, acredita-se que ele pode ter sido uma das origens da vida na Terra. Ademais, conforme Bartlett e Wong, há indícios de que essa ferrugem possa ter um sistema primitivo de armazenamento de informações. “Se a ferrugem verde (ou um mineral semelhante) desempenhasse o papel de uma máquina molecular no surgimento da vida, esse sistema protometabólico poderia ser classificado como vyda”, explicam.

Eles ainda terminam o artigo, em uma mistura de um aparente tom de brincadeira e, ao mesmo tempo em um tom de seriedade, em uma afirmação possivelmente verdadeira, sugerindo que o periódico no qual o estudo foi publicado, troque o nome de Life para Lyfe, segundo eles, “por causa de seu escopo expansivo e mente aberta para publicar ideias como as nossas”.

Referências:

  1. BARTLETT, Stuart; WONG, Michael. “Defining Lyfe in the Universe: From Three Privileged Functions to Four Pillars”; Life 2020, 10(4), 42.  Acesso em: 14 ago. 2020.
  2. Khan Academy. “O que é vida?”. Acesso em: 14 ago. 2020.
  3. Mindat. “Fougèrite”. Acesso em: 14 ago. 2020.
  4. Simon Fraser University. “Alternative Definitions of Life: Perspective Matters”. Acesso em: 14 ago. 2020.