(Créditos da imagem: Stefan Keller/Pixabay).

Você já parou para pensar se o nosso Universo teve um início? Se ele terá um fim? Ou se existia tempo antes do início do nosso Universo? Essas questões não são nada simples, elas intrigaram e ainda intrigam a mente de diversos pensadores, filósofos, físicos, estudantes, curiosos, enfim, todos.

Um dos primeiros questionamentos de que temos informação acerca do tempo de que é encontrado na Grécia antiga, no pensamento de Heráclito (540 – 470 a.C.) “não se pode tomar banho duas vezes no mesmo rio”. Pitágoras (580 – 500 a.C.) interpretava o tempo como a “alma do Universo”. Platão (427 – 327 a.C.), de certa forma, aprofunda essa concepção, concebendo um universo que tem o tempo como uma característica, “produzido” pelas revoluções dos planetas.

Aristóteles (384 – 322 a.C.), seguidor de Platão, afirmava que os movimentos eram definidos pelo tempo, porém o tempo não poderia ser definido por si mesmo. Para esse pensador, o tempo é a medida do movimento, um número, necessitando que alguém o numere. É pela consciência do “antes” e do “depois” que temos ciência do tempo.

As concepções aristotélicas e platônicas, apesar de distintas e criticadas em alguns pontos, foram extremamente influentes até o século XIV. Uma das críticas mais relevantes, feitas desde o período da Grécia antiga por Plotino (270 – 205 a.C.) e posteriormente reforçadas por Santo Agostinho (354 – 430), vai na direção de considerar o tempo como uma duração, em oposição à concepção do tempo como número de Aristóteles.

Digno de nota é a concepção árabe do tempo, com bastante influência na Europa medieval: bem diferente do tempo contínuo de Platão e Aristóteles, os árabes tinham uma concepção atomística do tempo.

Após o Renascimento vemos um início de afastamento da visão “aristotélica”: Giordano Bruno (1548 – 1600) afirmava que o espaço era infinito e era eterno no tempo. René Descartes (1596 – 1650) por outro lado, considera a “duração” como uma característica dos corpos. Para ele, o tempo é um modo de pensar, a dimensão que usamos para conhecer as durações das coisas.

Galileu Galilei (1564-1642) expressa a ideia de um tempo contínuo, com infinitos instantes, e é notável o fato de ele dar um sentido físico ao tempo, relacionando-o com o mecanismo com que seu relógio funcionava. Com isso, o relógio deixa de ser apenas um padrão de medida para “eventos sociais”, mas inaugura e mede um novo tempo, o “tempo físico”. Essa preocupação com o tempo físico é presente no pensamento de Isaac Newton (1642-1727) desde seu livro Principia.

Ou seja, para Newton, existe o tempo verdadeiro, matemático, que “flui” uniformemente e não sofre nenhuma interferência. As medições de tempo, obtidas através do movimento dos corpos, são usadas no lugar do tempo verdadeiro, e formam o que ele chamava de tempo comum. Para Newton, “todos os movimentos podem ser acelerados ou retardados, mas o fluxo de tempo absoluto não é passível de mudanças“.

A concepção de Newton de tempo não foi isenta de críticas. Em particular, Ernst Mach (1838 – 1916) defende que a própria ideia de tempo é uma abstração, a qual chegamos por percebermos a variação das coisas. Para Mach, o movimento não ocorre no tempo: o que fazemos é comparar diferentes etapas do movimento entre si (ou entre o que pensamos e sentimos) percebendo a evolução, a mudança, atribuindo a essa mudança à noção de tempo.

Como se já não bastasse tamanha interpretação do tempo ao longo da história, ainda adiciono a concepção do filósofo da ciência Gaston Bachelard (1884 – 1962): o que há sentido é o tempo como instante. Para ele, o instante é uma realidade entre dois vazios, “o instante é a única realidade do tempo”.1

Ao final desse texto, passado certo tempo, você ainda se pergunta: o que é o tempo? E, em tempo, comento: há certas coisas que só o tempo irá dizer. Essa, talvez, seja uma delas.

Referências:

  1. MARTINS, A. F. P. Concepções de estudantes acerca do conceito de tempo: uma análise à luz da epistemologia de Gaston Bachelard. Tese (Doutorado em Ensino de Ciências). Instituto de Física, Instituto de Química, Faculdade de Educação, Instituto de Biociências. Universidade de São Paulo, 2004.
  2. MARTINS, A. F. P. Tempo Físico: a construção de um conceito. 1. ed. Natal – RN: Editora da UFRN, 2007.
  3. MARTINS, A. F. P.; ZANETIC, J. Tempo: esse velho estranho conhecido. Ciência e Cultura, v. 54, n. 2, p. 41-44, 2002.
Daniel Trugillo
Santista e pós-graduando em Ensino de Ciências (PIEC/USP). Além de escrever para o Ciencianautas, escrevo resenhas de livros de filosofia, educação, psicologia e afins na rede Skoob. Também faço parte do grupo de divulgação científica Via Saber. Como hobby gosto de xadrez, corrida e memes.