(Créditos da imagem: Reprodução).

Aparentemente, o jeito mais promissor de corrigir crenças defeituosas é apresentar contra elas evidências diretas. Curiosamente, não é o que sempre acontece. Na verdade, raramente acontece. Aliás, não apenas raramente acontece como existe uma grande probabilidade de que um indivíduo se apegue ainda mais fervorosamente a uma crença quando a vê sendo pulverizada por evidências contrárias.

As pessoas não só não mudam de ideia ao terem suas crenças agredidas por fatos, mas se agarram mais firmemente a elas quando isso acontece. O motivo disso é que o contraste com fatos potencialmente refutantes põe em xeque nossas visões de mundo, e até nossa identidade pessoal (Kahan, et al., 2013, Sinatra & Seyranian, 2016; Trevors et al., 2016).

Por trás desse espírito recalcitrante em relação a fatos e evidências, mora um mecanismo psicológico interessante conhecido como efeito backfire (algo como “tiro pela culatra”). Essa modalidade de raciocínio motivado atua como um mecanismo de proteção de crenças que faz com que a intensidade  de uma crença aumente justo quando ela fica exposta a refutações, como uma raiz dentária à mostra que nos faz repelir qualquer estímulo naquela região por causa de seu efeito doloroso.

Em um estudo encabeçado por Jonas T. Kapla, Sarah I. Gimbe e Sam Harris, descobriu-se que desafiar crenças mais fortes, como as religiosas e políticas, faz com que se ativem no cérebro as mesmas áreas ativadas quando vemos uma serpente prestes a dar o bote, ou quando damos de cara com um cão raivoso vindo em nossa direção. Isto é, perdemos flexibilidade cognitiva e ficamos na defensiva.

E não nos esqueçamos do ressurgimento repentino do terraplanismo e, mais recente ainda, do negacionismo sistemático da gravidade da Covid-19. (Créditos da imagem: Reprodução).

Num artigo de sua coluna no Scientific American, o psicólogo Michael Shermer — uma celebridade na comunidade cética — oferece como exemplo de efeito backfire os criacionistas, que tendem a recusar provas favoráveis à evolução (como registros fósseis) tornando patente seu enorme receio de abandonar o credo religioso em virtude de uma visão secular das coisas. De modo geral, ressalta Shermer, teóricos da conspiração, ativistas antivacinação, ufólogos, negacionistas do aquecimento global e assim por diante, têm motivos para temer informações factuais, a ponto de  algumas vezes almejarem destruí-las.

Efeito backfire inerente à formação de grupos

Não é preciso ser muito esperto para concluir que o efeito backfire se faz onipresente no campo da discussão política, desportiva e religiosa, mas é preciso ressaltar o seguinte: os casos paradigmáticos mencionados por Shermer não devem criar em nós a ilusão de que estamos numa situação particularmente privilegiada em matéria de  racionalidade.  Não é necessário estar enquadrado em grandes estruturas de pensamento, como uma religião ou ideologia, para estar sujeito a esse traiçoeiro mecanismo psicológico. Efetivamente, a vulnerabilidade ao efeito backfire não é um luxo de criacionistas e afins, mas uma armadilha do raciocínio  que  não  escolhe  vítima,  afetando  pessoas  afiliadas  às  mais  diversas  crenças, modas  e  estilos  de  vida.  Mesmos  os  gamers  reagem  com  animosidade  quando  se deparam   com   críticas   negativas   aos   jogos,   por   sua   suposta   má   influência   —   e continuariam reagindo assim mesmo se soubessem que a fonte das críticas é imparcial e científica (Nauroth et al., 2014, 2015).

(Créditos da imagem: Reprodução).

E se pensarmos bem, as possibilidades de criação de grupos de identificação são ilimitadas. Pessoas dos mais variados tipos e credos tendem a se conectar via atributos  em comum, dos mais sutis aos mais patentes, formando “comunidades” variadas, como a dos ciclistas, a dos enxadristas, dos taxistas, roqueiros, paneleiros, palhaços de circo, aficionados por Star Wars, sonegadores de impostos, admiradores de Quentin Tarantino ou fãs da Marvel. E o jeito mais fácil de irritar essas pessoas é criticar suas comunidades artificiais (que muitas vezes são efêmeras), sobretudo se a crítica tiver  fundamento. Ironicamente, esse também é o jeito mais fácil de fazer com que essas pessoas se apeguem com mais fervor a esses gostos, atributos, ideias, crenças, ou seja o que for que faça seus olhos brilharem.

Mesmo quem não é adepto de alguma “tribo” pode reagir a refutações se apegando mais ainda ao objeto refutado. Enfim, somos naturalmente refratários a críticas e refutações, e estamos todos sujeitos, em variados graus, à tentação de fraudar provas a fim de  preservar nossas crenças preciosas. Saber disso deveria nos tornar mais vigilantes quanto ao que deixamos entrar para a nossa constelação de crenças sobre o mundo, ainda mais em tempos de proliferação pandêmica de fake news. Precisamos ser céticos com os outros, mas também com nós mesmos.

Referências:

  1. Kahan, D. M., Peters, E., Dawson, E. C., & Slovic, P. (2013). Motivated numeracy and enlightened self- government. Yale Law School, Public Law Working Paper No. 307. 2015.
  2. Kaplan, J.T. Gimbel, S.I. Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports 6, Article number: 39589.
  3. Nyhan, B. & Reifler, J. (2010). When Corrections Fail: The Persistence of Political Misperceptions. Polit Behav,   32:303–330.
  4. Shermer, M. How to Convince Someone When Facts Fail – Why worldview threats undermine evidence. Scientific American, 2017.
  5. Sinatra, G. M.,&Seyranian, V. (2016).Warmchange about hot topics: The role of motivation and emotion in attitude and conceptual change about controversial science topics. In L. Corno&E.Anderman (Eds.), APA handbook of educational psychology (3rd ed., pp. 245–246). New York, NY: Routledge.
  6. Trevors,  G.  J,  Muis,  K.  R,  Pekrun,  R.,  Sinatra,  G. M &  Winne,  PH.  (2016). Identity  and epistemic emotions during knowledge revision: A potential account for the backfire effect. Discourse Processes,53(5-6), D.N. Rapp. 339-370. United States of America: Ablex Pub. Corp.