(Créditos da imagem: Freepik Premium).

Dez mil anos é muito tempo para os seres humanos. Dez mil anos atrás o grande e poderoso Egito Antigo ainda estava longe de existir. Dez mil anos atrás é um tempo que remete aos primeiros assentamentos na cidade de Jericó, por exemplo. Se sofremos hoje para desvendar escritos de 5 mil anos de diversas grandes civilizações, imagine como deve ser deixar uma mensagem para ser lida daqui a dez mil anos.

Não é uma hipótese muito maluca dizer que em breve os humanos se extinguirão. Isso é, inclusive tema de trabalhos científicos sérios. Se não podemos garantir que haverá, até lá, uma sociedade complexa, ou mesmo que haja uma sociedade complexa, mas que não saiba de nossa existência, e que não saiba algo sobre nossas línguas atuais, com destaque para o inglês, como alertá-los dos perigos que causamos na Terra?

Os seres humanos são curiosos. Diversas civilizações antigas construíam pirâmides e fortalezas para armazenar corpos mumificados de nobres e membros da realeza, e hoje abrimos essas tumbas em busca de conhecer um pouco do passado. Por isso, é razoável pensar que se em 10 mil anos houver por aqui seres inteligentes, irão querer abrir as fortalezas que sobraram. E que fortaleza mais segura para sobreviver até lá do que bunkers para depósito de lixo radioativo?

Se produz muito lixo radioativo pelo mundo. (Créditos da imagem: Freepik Premium).

Você pode argumentar: “Ah, mas não é mais fácil enviar tudo para o espaço?”. Acredite, essa solução já foi debatida por algumas das maiores mentes pelo mundo. Já ferramos com a Terra, e colocar outros corpos no espaço em risco é puro egoísmo. Depósitos extremamente seguros e selados devem ser a melhor solução para o descarte de rejeitos nucleares.

Grande parte dos materiais nucleares levam milhares de ano para emitir toda a sua radiação, e há toneladas dele pelo mundo. O parágrafo a seguir pode parecer uma maldição de um filme do Indiana Jones, mas é um trecho de uma mensagem conhecida como relatório de Sandia, que tentar encontrar formas de se passar essa ideia para habitantes do futuro.

“Este lugar é uma mensagem… e parte de um sistema de mensagens. Preste atenção a isso! Enviar esta mensagem foi importante para nós. Nós nos consideramos uma cultura poderosa. Este lugar não é um lugar de honra. Nenhuma ação muito estimada é comemorada aqui. Nada de valorizado está aqui. O que está aqui era perigoso e repulsivo para nós. Esta mensagem é um aviso sobre o perigo […] O perigo só é desencadeado se você, substancialmente, perturbar fisicamente este lugar. É melhor evitar este lugar e deixá-lo desabitado”.

Simplesmente adicionar aquele famoso símbolo da radiação não adiantaria, nem para os dias de hoje. Como relata a BBC, um estudo recente da Agência Internacional de Energia Atômica, apenas 6% da população mundial atual sabe reconhecer o trifólio, aquele famoso “catavento radioativo”. Por outro lado, pedras no interior do Japão, com mil anos de idade, que indicam locais que sofrem os perigos dos tsunamis, são até hoje reconhecidos pela população local.

Trifólio, o símbolo do perigo radiativo. (Créditos da imagem: Freepik Premium).

O relatório de Sandia faz parte de um projeto dos Estados Unidos. Em 1994, o congresso americano pediu que os Laboratórios Nacionais Sandia, um grupo de laboratórios dos Estados Unidos da área de ciência nuclear e segurança nacional, fizessem uma avaliação das instalações de armazenamento de lixo nuclear nos Estados Unidos.

O projeto é chamado de Waste Isolation Pilot Project (WIPP), ou Projeto Piloto de Isolamento de Resíduos, no português. Trata-se de um complexo de sistemas de túneis e salas a mais de 600 metros abaixo da superfície em uma das áreas mais estáveis encontradas no Novo México. A ideia é que possa conter quaisquer dos materiais radiativos mais perigosos dos militares nos Estados Unidos.

O WIPP é o único local do mundo licenciado para exercer essa função – descarte profundo de materiais radioativos. É necessária muita segurança, afinal os materiais devem permanecer radioativos por pelo menos mais 300 mil anos. 10 mil anos é apenas um tempo estipulado para se entender as mensagens. A estrutura deverá permanecer por muito mais tempo. A Finlândia também pretender inaugurar uma destas instalações em algum momento desta década.

Interior o WIPP. (Créditos da imagem: WIPP /US Department of Energy).

Quando o depósito se encher, será selado. As cavernas serão demolidas e toneladas de sal serão utilizadas para preencher os pequenos vãos entre os entulhos de concreto. Serão diversos os níveis de avisos, o primeiro dizendo apenas ‘NÃO ENTRE’. Claro que os primeiros níveis não são mensagens escritas. São mensagens não-verbais, implicitamente escritas com objetos e uma arquitetura assustadores e ameaçadores. Acredite: já se cogitou até mesmo o absurdo de se criar ali uma colônia de gatos geneticamente modificados para brilhar ou mudar de cor com a radiação. A partir dos próximos níveis, mensagens escritas estariam lá em dezenas de línguas diferentes.

Para escrever as mensagem mais simples, é fácil utilizar de coisas que parecem ameaçadoras. Mas e para as mensagens mais complexas? Bom, protegidas em uma sala subterrâneas, há pedras com uma linguagem universal: a astronomia. Indicações com a posição dos astros podem mostrar aos visitantes do futuro sobre as datas. Para mostrar os elementos que ali estão, há algumas representações de tabelas periódicas. Há também, quem sugira que não precise ser assustados, mas apenas informativo.

Mesmo com essa construção, e o debate entre os cientistas, políticos e engenheiros, não é todo o material radioativo que é tão bem cuidado, nem pelos Estados Unidos, nem pelo resto do mundo. Vazamentos nucleares são um perigo constante, e a única solução de fato seria armazenar tudo da forma mais segura possível e abandonar essa forma de exploração energética. A fusão nuclear, ainda não dominada, é mais vantajosa do que a fissão. Também há outra questão: as grandes potências do mundo não fariam como o Brasil fez na década de 1990: renunciar às bombas nucleares.

Referências:

  1. Business Insider. “Color-changing cats were once part of a US government plan to protect humankind”. Acesso em: 10 ago. 2020.
  2. OKUNO, Emico. “Rejeitos radioativos”; Jornal da USP. Acesso em: 10 ago. 2020.
  3. PIESING, Mark. “How to build a nuclear warning for 10,000 years’ time”; BBC Future. Acesso em: 10 ago. 2020.
  4. VAIANO, Bruno. “A mensagem de perigo projetada para durar 10 mil anos”. Superinteressante. Acesso em: 10 ago. 2020.