(Créditos da imagem: PAP/Dominik Gajda).

Uma equipe de pesquisadores da Polônia e dos Estados Unidos encontrou uma possível evidência de tuberculose em um réptil marinho de 245 milhões de anos. No artigo, publicado no periódico científico Royal Society Open Science, o grupo descreve seu estudo sobre os restos fossilizados de um espécime de “Proneusticosaurus”¹ e por que eles acreditam que a criatura tinha uma doença semelhante à tuberculose.

Os pesquisadores estavam estudando um fóssil descoberto na pedreira de Gogolin, uma escavação na fronteira entre a Polônia e a República Tcheca, há mais de um século. Esse sítio paleontológico é famoso por conter fósseis de vários répteis.

Pesquisas anteriores haviam mostrado que o fóssil do estudo era de um membro da família sauropteriana — eles eram répteis aquáticos que viviam durante o Mesozóico, no Triássico Médio. O espécime em estudo tinha um pescoço longo, crânio plano e dentes longos e arredondados. Mas foram os ossos das costelas da criatura que chamaram a atenção dos pesquisadores: eles tinham bolhas muito semelhantes àquelas vistas em criaturas modernas infectadas com tuberculose.

A tuberculose é uma doença causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis. Infecta principalmente os pulmões, mas pode ocasionalmente infectar outras partes do corpo, como a espinha dorsal, o cérebro ou os rins. A bactéria também é conhecida por causar anomalias nas ossos das costelas de pessoas com pulmões infectados. Tais anomalias geralmente tomam a forma de bolhas, ou pequenas protuberâncias elevadas nos ossos.

Ao analisarem um fragmento fóssil, os pesquisadores encontraram várias bolhas ou protuberâncias usando a microtomografia de raios-X, que permitiu à equipe examinar mais de perto a amostra. Foi aí que eles viram a presença das anomalias, mais especificamente em várias costelas fossilizadas do animal.

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Intrigados com a descoberta, os pesquisadores imediatamente começaram a procurar por todas as possíveis causas das protuberâncias encontradas nos registros fósseis dos ossos da criatura, como fraturas, escorbuto, infecções fúngicas ou até mesmo câncer. Mas de um por um, cada uma foi sendo descartada, deixando a tuberculose como causa provável.

Além disso, o padrão de crescimento ósseo anormal em torno das elevações também informou aos pesquisadores que a afecção que as causara era crônica, durando meses, se não anos.

Os pesquisadores não têm como verificar qual bactéria causou a doença que levou às bolhas neste réptil marinho infeliz, afinal, 245 milhões de anos é um muito tempo considerável para que se esperar que o DNA preservado pudesse revelar exatamente qual era o patógeno.

No artigo, os pesquisadores também sugerem que os pontos salientes podem ter sido causados por pneumonia², que, segundo eles, pode ser causada pela tuberculose.

De fato a tuberculose pode causar pneumonia (e, quando isso acontece, é uma pneumonia particularmente desagradável), mas esse não é o único perigo. Uma infecção ativa da tuberculose rouba das vítimas disposição e pode invadir os ossos, deixando danos em seu rastro. Uma das razões pelas quais a tuberculose lança uma sombra tão obscura através da história humana é que é uma doença contagiosa (embora não seja extremamente contagiosa).

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Mas há outra coisa intrigante sobre essa descoberta. Eles observam também que a ordem dos antigos répteis marinhos chamada de Nothosauroidea ou Nothosauria tem sido amplamente referida como as focas dos tempos antigos, e coincidentemente ou não, as focas atuais são os mamíferos marinhos que são mais suscetíveis de serem acometidos por tuberculose.

A descoberta faz recuar a data da primeira evidência de tuberculose por um longo período — antes desta descoberta, o recordista era um marsupial de 3 milhões de anos atrás. Os pesquisadores reconhecem que não têm como verificar suas descobertas, mas sugerem que as saliências das costelas oferecem evidências razoavelmente fortes de tuberculose.

Observações:

  1. Quer saber sobre as aspas em torno da denominação científica da espécie em questão? É porque a identificação real da amostra não está resolvida. Alguns pesquisadores, incluindo os autores do estudo aqui referido, interpretaram o material fragmentário como pertencente a outro réptil marinho, o Cymatosaurus, mas atualmente não é possível saber com certeza, dada a natureza fragmentária dos fósseis que representam os dois animais, conforme observa a reportagem consultada na revista Discover.
  2. A propósito, sim, pneumonia e tuberculose são duas coisas diferentes, então não nos mandem e-mails irritados nos repreendendo por usar os termos como sinônimos. Nós não estamos. Estamos baseando essa publicação no estudo em si, que usa os dois termos assim, como se fossem sinônimo, ao descrever a evidência fóssil de uma infecção respiratória crônica nesse animal em particular.

Referência:

  1. Dawid Surmik et al. “Tuberculosis-like respiratory infection in 245-million-year-old marine reptile suggested by bone pathologies”; Royal Society Open Science, 2018. Acesso em: 15 jun. 2018.
Fontes: Discover  e Phys.org.
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Mestrando em Estudos Ambientais pela UCES, Buenos Aires. Graduado em Engenharia Civil e pós-graduado em Gestão Pública e Controladoria Governamental. Com interesse por ciência, tecnologia, filosofia, desenvolvimento sustentável e diversas outras áreas do conhecimento humano.

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