Aranha do Cerrado (Parawixia bistriata). (Créditos da imagem: EcoRegistros).

A epilepsia é um distúrbio neurológico comum caracterizado por convulsões recorrentes e que muitas vezes é idiopático, ou seja, de causa desconhecida. Atualmente, no mercado, temos disponíveis mais de 20 medicamentos antiepilépticos, porém para mais de um terço dos casos eles não são eficientes. Existem vários tipos diferentes de epilepsia, e o mais comum em adultos é a Epilepsia do Lobo Temporal (ELT), que afeta um terço das pessoas epiléticas. A ELT é também a com maior resistência aos medicamentos, chamando a atenção de pesquisadores do Laboratório de Neurobiologia de Peçonhas, do Departamento de Psicobiologia da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP), do Instituto de Neurociências e Comportamento (INeC) e do Núcleo de Pesquisas em Produtos Naturais e Sintéticos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP).

Lobo Temporal. (Créditos da imagem: Database Center for Life Science [DBCLS]).

A ELT ocorre devido à uma excitação excessiva sincronizada na região do lobo temporal. Isso quer dizer que há um desequilíbrio entre a neurotransmissão excitatória e inibitória. Muitas vezes essa excitação pode estar relacionada com a falta de um neurotransmissor chamado Ácido Gama-Aminobutírico, ou GABA, que possui função inibitória no sistema nervoso central. Drogas que consigam aumentar a concentração de GABA ou evitar sua destruição são o foco de muitos neurocientistas que buscam ajudar pessoas com epilepsia.

As pesquisas realizadas no Departamento de Psicobiologia encontraram neurotoxinas em venenos de artrópodes com efeito antiepiléptico. O grupo do Professor Dr. Wagner Ferreira dos Santos isolou uma molécula específica de uma espécie de aranha chamada Parawixia bistriata (Aranha do Cerrado), chamada de Parawixina 2. Para a realização da pesquisa foram usados modelos animais induzidos ao status epilepticus (crise convulsiva) com pilocarpina. Quando o animal estava em crise convulsiva era injetado, através de uma cânula, a Parawixina 2, mostrando seu efeito antiepiléptico.

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Muito ainda pode ser explorado com o veneno de artrópodes, principalmente de aranhas, quanto seus efeitos antiepiléptico e neuroprotetor. As pesquisas com a Parawixina 2 mostram que ela possui um grande potencial no desenvolvimento de drogas para o tratamento de epilepsia.

Como se já não bastasse todos os benefícios ecológicos das aranhas, é possível que um tratamento eficiente para a epilepsia seja uma nova função dessas joias do nosso Cerrado.

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Referências:

  1. GODOY, Lívea D. et al. “Disease Modifying Effects of the Spider Toxin Parawixin2 in the Experimental Epilepsy Model”. Toxins, 2017.
  2. CHAN, Alvin Y. et al. “Effect of neurostimulation on cognition andmoodin refractory epilepsy”. Epilepsia Open, 2018.
  3. LIN, Yicong; WANG, Yuping. “Neurostimulation as a promising epilepsy therapy.” Epilepsia Open, 2018.
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Renê Seabra Oliezer
Biólogo, mestrando em Ciências pelo Departamento de Psicobiologia da FFCLRP/USP. Apaixonado pelos poderes do sistema nervoso. Membro associado ao INeC e SBNEC.

1 comentário

  1. A ciência sempre disposta a buscar uma qualidade de vida melhor para todos!!
    Parabéns a equipe pela pesquisa e ao Rene por difundir esse artigo tão importante!!

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