(Créditos da imagem: Wikimedia Commons).

Você já deve ter ouvido falar no grande Richard Feynman: o arrombador de cofres, aquele que fazia seus trabalhos em boates de striptease, o carnavalesco tocador de bongô – sua fama o precede. Ah, e esqueci de contar que ele também ganhou um Nobel; pois é, ele não era muito fã disso. Segundo ele próprio, a única vez que ele se divertiu com o prêmio Nobel foi quando foi convidado pelo governo brasileiro para vir assistir ao carnaval do Rio, pouco tempo depois de ter sido laureado.

Desde a infância ele se destacava. Durante sua pré-adolescência, ocorreu o crash da bolsa de valores de Nova York, então não foi muito afortunado. Ele conta em seu livro “Só Pode Ser Brincadeira, Sr. Feynman!” que adorava consertar rádios, mas o fazia com peças de outros, já que não possuía muito dinheiro para comprar as peças, e fabricava suas próprias ferramentas para realizar essa manutenção. Feynman fabricou o seu próprio multímetro, por exemplo.

Feynman também reinventou parte da física e da matemática durante sua infância e adolescência. Ele era muito curioso, então ficava estudando aquilo que gostava. Diversas vezes ele encontrava algum padrão ou teorema matemático, que foi descobrir anos mais tarde que eram coisas que já existia. Para muitos desses problemas, inclusive, suas soluções eram mais simples e sofisticadas do que as oficiais. Ele criou seus próprios símbolos e nomes, e mais tarde, quando foi estudar formalmente, precisou se adaptar aos símbolos comuns, para poder ser entendido pelas outras pessoas.

Após grandes indecisões sobre qual área seguir, Feynman escolheu a física. Ele não sabia se queria matemática, física ou engenharia. Ele acabou descobrindo que a matemática era teórica de mais, pois ele gostava também de colocar a mão na massa. A engenharia, Feynman achou prática de mais. A física acabou sendo o meio do caminho. Apesar de ser bastante diferente da matemática e da engenharia, a física possui um pouco da prática e um pouco da teoria.

Pois bem, após formado, Feynman fez suas pós graduações e foi um grande nome na física quântica, sendo um dos pioneiros na computação quântica, além de ser um dos primeiros nomes a pensar no conceito da nanotecnologia. Em 1965, Feynman ganhou um Nobel da física “por seu trabalho fundamental em eletrodinâmica quântica, com profundas consequências para a física de partículas elementares”, como é descrito o prêmio pelo site do Nobel.

Durante a Segunda Guerra mundial, Feynman foi um dos físicos recrutados para o projeto Manhattan, que desenvolveu a bomba atômica. Detalhe: ele foi recrutado em 1941, apenas dois anos de receber seu diploma de bacharel em Física, aos 23 anos de idade. Ele nem mesmo havia realizado pós graduações. Feynman foi, inclusive, líder de seu grupo em Los Alamos. Seu doutorado viria em 1942. Ah, e Feynman não gostava da ideia de se utilizar armas nucleares. Assim como todos os outros físicos que trabalharam por lá, houve um arrependimento na criação da arma. Estavam todos tomados pelo espírito da guerra e se esqueceram do monstro que aquilo se tornaria.

Este é o crachá de Feynman em Los Alamos. (Créditos da imagem: United States Army).

O que ele tem a nos ensinar

Feynman era, acima de tudo, uma pessoa muito sábia, e marcou especialmente o Brasil. Certa vez, disseram-lhe que a América do Sul, e ele resolveu aprender espanhol, já que todos os países latino americanos, com exceção do Brasil são hispânicos. Feynman era professor na Universidade de Cornell, EUA, e resolveu aprender na própria universidade, que ensinava alguns cursos de língua.

Como ele próprio relata em seu livro ‘Só Pode ser Brincadeira, Sr. Feynman!’, “quando chegou a hora da inscrição para o curso, estávamos do lado de fora, prontos para entrar na sala, quando apareceu uma loura de parar o trânsito”. Ele diz que quando percebeu que ela entrou na sala de português, pensou: “Ora bolas, eu devia aprender português também”.

Mas ele percebeu que não estava sendo sensato. “Não, esse não é um bom motivo para decidir que língua aprender”, pensou. Ele acabou se inscrevendo mesmo no curso de espanhol. Mais tarde, ele recebeu uma chance de vir para o Brasil, trabalhando com o Centro de Pesquisas Físicas, dando aulas por seis meses. Português e espanhol são parecidos em alguns pontos, então não foi difícil ele aprender a falar o português.

Suas descrições sobre o Brasil são repletas de estereótipos. Entretanto devemos lembrar que essa viagem se passou nas décadas de 1950 e 1960, quando o Brasil era de fato um pouco mais submisso às potências estrangeiras, vulgo “paga pau”. Hoje, apesar de alguns elementos parecidos, o Brasil já está um pouco diferente, e a população já é mais culturalmente empoderada.

Por exemplo, quando foi convidado para dar uma palestra na Academia Brasileira de Ciências, preparou a palestra em português, apesar de não ter o domínio completo. Chegando lá, sua chamada foi em inglês, mas ele era o único americano. “Desculpem, eu não tinha entendido que a língua oficial da Academia Brasileira de Ciências fosse o inglês e não preparei minha palestra em inglês. Peço que me desculpem, mas terei de ministrá-la em português.”, disse antes da palestra. Feynman crítica muito esse comportamento brasileiro, de querer sempre agradar americanos ou europeus.

Em sua segunda viagem ao Brasil, Feynman descobriu o carnaval. Ele tocava percussão – o bongô, mais especificamente. Então, acabou tocando frigideira junto a uma escola de samba. E ele deu muito certo como um músico carnavalesco – a hipótese dele é que ele possuía um “sotaque musical”, pois mesmo sendo novato, todos gostaram muito de seu som.

Nessa segunda viagem, Feynman também deu aula, e ao final dos 10 meses, ele deveria dar uma palestra descrevendo sua experiência por aqui. “Descobri uma coisa muito estranha: os alunos respondiam imediatamente as perguntas que eu fazia. Mas, quando fazia de novo a pergunta — a mesma pergunta, sobre o mesmo assunto, até onde me lembro —, eles não sabiam responder!”, descreve suas primeiras impressões por aqui. “Depois de muito investigar, descobri que os alunos tinham memorizado tudo, mas não sabiam o que aquilo significava”.

No dia da palestra, Feynman já iniciou com dureza. “O objetivo principal da minha palestra é demonstrar a vocês que não se está ensinando ciência no Brasil!”. Ele havia ficado pasmo com a mania de se ensinar a decorar que há no Brasil. Hoje, 70 anos depois, o Ensino Superior está bem mais modernizado, embora para o Ensino Médio ainda um pouco de “decoreba”.

“Descobri outra coisa. Folheando o livro ao acaso, e pondo o dedo e lendo as frases de cada página, posso lhes mostrar qual é o problema — que isso não é ciência, mas decoreba, e em todos os casos. Sou corajoso o bastante para folhear o livro aqui, diante dessa plateia, pôr o dedo numa coisa qualquer, lê-la e mostrar a vocês.”, disse ele ao público da palestra.

“Pus o dedo num ponto qualquer e comecei a ler: ‘Triboluminescência. Triboluminescência é a luz emitida por certos cristais quando friccionados…’. Então perguntei: ‘E aqui, temos ciência? Não! Apenas se disse o que uma palavra significa usando outras palavras’”.

“Não se disse nada sobre a natureza — que cristais emitem luz quando friccionados, por que emitem luz. Vocês viram algum aluno ir para casa e tentar fazer isso? Ele não conseguiria. Mas se em vez disso estivesse escrito: ‘No escuro, pegue um torrão de açúcar e esmague-o com um alicate. Um clarão azulado surgirá. Isso também acontece com alguns outros cristais’”.

O chefe do departamento de formação científica da universidades se levantou e disse: “O sr. Feynman nos disse coisas muito difíceis de ouvir, mas, ao que parece, ele ama a ciência e é sincero em sua crítica. Assim, acho que devemos ouvi-lo. Cheguei aqui sabendo que temos algum mal-estar em nosso sistema educacional, mas agora vejo que temos um câncer!”.

E não foi apenas mais uma desculpa. Há, no Brasil, uma certa tentativa de se tornar o ensino superior um pouco menos robótico. A educação superior é bastante diferente do que foi nas décadas de 1950 e 1960. A educação básica ainda peca bastante, entretanto. Prova disso é que os alunos são obrigados a decorar fórmulas e enunciados, e pouco colocados para realizar experimentações. Uma das matérias que mais tirei notas vermelhas ao longo do ensino médio – e não foram poucas notas ruins – foi física. E hoje me meti na graduação de física, pois amo essa área. Seria bom se fosse brincadeira, Sr. Feynman, mas o ensino industrial ainda é predominante no Brasil.

Didática e aprendizado

“The Feynman Lectures on Physics” é praticamente uma bíblia no mundo da física. Esse livro foi feito a partir de palestras de Richard Feynman, ministradas entre 1961 e 1963. O livro aborda, a partir da perspectiva desse grande cientista e professor, inúmeros temas de nível superior da física, desde a física clássica, até temas mais complexos, como física quântica e relatividade. São mais de 1500 páginas de pura didática. Embora seja um pouco caro, pelo tamanho, o livro é hospedado gratuitamente, na versão em Inglês, pela Caltech, e você pode acessá-lo clicando aqui.

(Créditos da imagem: Reprodução).

Feynman dizia que para estudar, você precisa destrinchá-lo nos mínimos detalhes. Para estudar, finja que você explica para uma criança. Faça suas anotações, releia, estude os detalhes que você ainda não abordou. Outra coisa: estude aquilo que você gosta. Claro que às vezes você será obrigado a estudar coisas chatas. Mas tente extrair algo de bom naquilo.

Certa vez, Feynman estava se sentindo mal, improdutivo. Ele recebia propostas de empregos em universidades e institutos melhores do que as que o próprio Einstein recebera. Mas ele não sentia que era capaz de assumir essas coisas. Mas ele se lembrou de quando fazia física porque gostava, de quando não era obrigado a produzir. E voltou a enxergar a física como enxergava quando era jovem – algo divertido.

Nesse meio tempo, ele estava em uma cafeteria, quando viu alguém atirar um prato para o alto. Ele notou as diferenças entre o giro e a precessão do prato e começou a calcular, por pura diversão. Ele continuou, nos próximos dias, equacionando e analisando suas observações, até que teve uma epifania de que aquilo se aplicava à sua área de pesquisa, a Eletrodinâmica Quântica. E sim, um prato voador o levou a ganhar o Nobel da Física de 1965.

Referência:

  1. FEYNMAN, Richard. “Só pode ser brincadeira, sr. Feynman!”. Intrínseca. Edição Kindle.