(Créditos da imagem: Freepik Premium).

Recentemente, um meme circulou pelas redes sociais que dizia que o Brasil é o país que conseguiu criar o conceito de “supremacista pardo”, ironizando os movimentos racistas no Brasil.

Apesar de estar presente uma exaltação ao brasileiro mestiço no Romantismo e no Ufanismo, na literatura brasileira, o país não é o paraíso racial, como tenta se auto promover.

Por exemplo, ainda no campo da literatura. Você sabia que Machado de Assis era negro? Por muito tempo suas fotos eram processadas para tentar parecer branco. Em um comercial da Caixa Econômica Federal, há alguns anos, eles retratam Machado de Assis como branco, que causou grande polêmica.

O Brasil tem um obscuro passado com teses eugenistas, e o racismo aqui já foi muito pior.

Tese do branqueamento

Sir. Francis Galton foi um biólogo, pai da ideia de eugenia, no final do século XIX. Além da ideia, ele próprio cunhou o termo: “eu”, do grego, significa bom, e “genia”, também do grego, linhagem.

Ele fez uma interpretação totalmente errada da seleção natural e chegou a conclusões perigosas: após comparar diversas classes, ele concluiu que os ricos e nobres deviam prevalecer para se criar a sociedade ideal.

Isso mais tarde acabou se expandindo para todos os brancos, em detrimento de negros, indígenas, asiáticos, judeus, ciganos ou qualquer outro povo que não fosse cristão ou da Europa Ocidental e Estados Unidos.

É essa mesma ideia que alimentou a ideia de pureza racial dos nazistas. A diferença é que eles consideravam apenas os arianos — povos germânicos — como raça superior. Os fascistas brasileiros eram os Integralistas, e também eram extremamente eugenistas.

A academia e os governantes de todo o mundo estava tomada pelo higienismo: a situação dos moradores da cidade, totalmente insalubre, deveria ser melhorada para que o progresso fosse possível.

Os higienistas, no geral, ainda foram atraídos pela eugenia: a sociedade deveria ser branqueada para um higienismo mais amplo. Isso tudo culminou em um consenso científico.

Eugenia no Brasil

O Brasil, uma jovem república que se espelhava nos ideais europeus, não ficaria de fora, é claro. A escravidão havia sido abolida recentemente, e os negros permaneceram em uma situação precária, muitos sem nem mesmo um trabalho.

Em 1911, ocorreu em Londres o Congresso Universal das Raças, onde o Brasil foi representado pelo médico João Batista Lacerda, que levou uma tese chamada “Sur les métis au Brésil” (Sobre os mestiços do Brasil), disponível em PDF neste link. Na tese, ele dizia que em um século, ou três gerações, o Brasil seria um país branco:

“A população mista do Brasil deverá ter pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderiam persistir ainda alguns traços do negro.”

Na contracapa do artigo, Lacerda incluiu a imagem a seguir. A pintura se chama A Redenção de Cam, e foi pintada por Modesto Brocos, de 1895.

A Redenção de Cam, por Modesto Brocos, 1895. (Créditos da imagem: Reprodução).

Note que há a senhora, negra; a mulher, já mulata; o homem branco e o filho deles, já totalmente branco. A pintura ilustra as ideias de Lacerda: a “branquitude” prevalecendo com o passar das gerações.

Muitos intelectuais eugenistas acreditavam que o sangue negro contaminaria o sangue branco, então eram a favor de atitudes mais fortes, como impossibilitar a miscigenação, ou até mesmo a castração.

João Batista Lacerda, no entanto, acreditava que o sangue branco “diluiria” o sangue negro. Dessa forma, incentivar a migração de europeus seria uma forma de limpar o Brasil.

A imigração de europeus já era algo comum por questões de mão de obra qualificada para fábricas e modernização. Houve um grande fluxo, somando quase 5 milhões de imigrantes europeus entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX.

Em 1918 foi criada no Brasil a Sociedade Eugênica de São Paulo, a primeira organização eugenista da América do Sul, idealizada por Renato Ferraz Kehl, um ferrenho defensor da eugenia. Um grande simpatizante desse movimento foi o Monteiro Lobato, e o pensamento se reflete em sua obra.

Dona Benta à esquerda, e Tia Nastácia, à direita, personagens de Monteiro Lobato. No livro “Caçadas de Pedrinho”, Lobato chega a chamar Tia Nastácia de “macaca de carvão”. (Créditos da imagem: Reprodução).

Após a criação dessa sociedade, outras organizações do tipo passaram a ser criadas por todo o país. Em 1929, Kehl também funda e passa dirigir o Boletim de Eugenia, onde ele publica, mensalmente, notícias e artigos relacionados ao tema, até meados de 1932. O boletim pode ser acessado pela Biblioteca Nacional Digital por meio deste link.

“A julgar pelo interesse crescente evidenciado entre os elementos cultos do nosso paiz, desde o inicio da cruzada de propaganda em prol da bella doutrina do aperfeiçoamento physio-psychico da especie humana, é de admittir-se que se tornem cada vez mais numerosos os proselytos do galtonismo no Brasil”, diz um trecho da primeira edição do Boletim de Eugenia. A escrita parece estar diferente porque está no português da época.

Renato Kehl faleceu em 1974 e defendeu a eugenia até a data de sua morte.

Também havia o lado da sensatez

Claro que nem todos intelectuais brasileiros apoiavam esse racismo instaurado no país. Gilberto Freyre, um dos maiores nomes da história do Brasil, criticou esse pensamento em sua primeira grande obra: Casa Grande e Senzala, publicado em 1933. Ele defendia que a situação do país não era pela cor da pele da população, mas sim pela falta de instrução e falta de condições dignas de vida.

Conforme relata no livro, algo que o inspirou grandemente para desenvolver algumas de suas ideias foi seu exílio, que ocorreu após Getúlio Vargas tomar posse da presidência do Brasil, em 1930.

Durante o exílio, em Portugal e nos Estados Unidos, ele conheceu grandes pessoas, entre elas, o antropólogo americano Franz Boas, um dos pais do que mais tarde viria a se chamar Relativismo Cultural.

“Foi o estudo de antropologia sob a orientação do professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor – separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio”, relata Freyre no livro.

Grosso modo, o Relativismo Cultural refuta o Etnocentrismo: temos a tendência de olhar para outras culturas comparando com a nossa. No Relativismo Cultural, não existe essa comparação.

Boas também foi um dos maiores defensores do fim do determinismo: ele sabia que a cor da pele ou a origem não influenciavam em que se tornaria uma pessoa. Ou seja, se a pessoa era negra, ela não possuía maior probabilidade de se tornar criminosa, como se era aceito pelos intelectuais da época.

O que ocorre, na verdade, é a influência do meio na personalidade e na vida da pessoa. Os negros estavam em uma condição tão péssima no Brasil não porque eram inferiores, mas porque por séculos foram escravizados e, ao fim da escravidão, não houve uma integração deles na sociedade.

Ainda somos racistas

Ok, você pode estar pensando: “mas isso foi passado!”. Sim, o passado foi muito pior. Mas hoje a situação ainda não é boa.

Note nas entrelinhas: o Brasil ainda possui um racismo velado. Pouco mais de 50% dos brasileiros são negros, e é entre eles que ocorre o maior nível de pobreza, de analfabetismo e, consequentemente, criminalidade. São os negros que são mais assassinados pela polícia: um negro possui quase três vezes mais chances de ser assassinado do que um branco.

Talvez o racismo não seja tão explícito quando em 1920, mas continua sendo tão prejudicial quanto. A única forma de mudar isso é relembrar do passado para não repetir no futuro, e uma mudança para uma sociedade mais justa é algo lento e gradual, uma construção de décadas feita somente com a educação da população e reforma do país, buscando combater a pobreza e o racismo institucionalizado. 

Referências:

  1. CONT, Valdeir. “Francis Galton: eugenia e hereditariedade”; Scientiae Studia. Acesso em: 9 jun. 2020.
  2. El País. “‘Racismo acontece de uma forma não dita. Aí reside a sordidez’. A dor do preconceito em primeira pessoa”. Acesso em: 9 jun. 2020.
  3. FREYRE, Gilberto. “Casa-grande & senzala”. Recife, PE: ed. 48 Global Editora 2003. Acesso em: 9 jun. 2020.
  4. MISKOLCI, Richard. “A Hora da Eugenia: Raça, Gênero e Nação na América Latina”; Cadernos de Saúde Pública. Acesso em: 9 jun. 2020.
  5. SANTOS, Ricardo Augusto. “’Branqueamento’ do Brasil”. Acesso em: 9 jun. 2020.
  6. SOUZA, Vanderlei Sebastião; SANTOS, Ricardo Ventura. “O Congresso Universal de Raças, Londres, 1911: contextos, temas e debates”. Acesso em: 9 jun. 2020.