(Créditos da imagem: Alessandro Bomfim/Flickr).

O tempo frio e seco, considerado atualmente mais propício à disseminação do novo coronavírus e característico do inverno paranaense, é o que gera alerta nos mapas criados por um sistema desenvolvido pelo Laboratório de Climatologia (Laboclima) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O Sistema de Alerta Climático para Enfermidades Respiratórias (Sacer) já produziu 14 mapas que apontam situações de risco médio e alto para o Paraná, especialmente na região Centro-Sul, onde fica Curitiba. A ideia é que os mapas sejam usados para embasar as políticas públicas e o comportamento da população.

Por Camille Bropp.

A previsão para o inverno do Paraná é de alerta climático, com níveis de predisposição a contágio elevados na maior parte da estação, aponta o sistema. Segundo o código de cores do Sacer, essa condição é representada por uma gradação que vai dos tons de amarelo aos de vermelho. Desde o fim de maio os mapas indicam que as áreas com alertas mais elevados abrangem as cidades de Curitiba, Ponta Grossa, Londrina, Cascavel, Francisco Beltrão, Pato Branco e Guarapuava.

A percepção do sistema se baseia em estudos científicos recentes e está em constante evolução, explica o professor Wilson Feltrim Roseghini, do Departamento de Geografia da UFPR, e um dos coordenadores do Laboclima. São selecionados estudos que investiga a atuação do vírus de acordo com aspectos ambientais, como temperatura, umidade, incidência solar e ponto de orvalho — uma variável que combina umidade e temperatura.

“As variáveis são complementares para explicar o processo de disseminação do vírus pelo ambiente”, ressalta o pesquisador. Ele destaca que as pesquisas até agora apontam para um cenário que existe atenção para determinadas regiões do Paraná. “Se o inverno for dentro da normalidade, ou seja, tiver o frio esperado, as cidades conhecidas como mais frias no Paraná tem maior chance de alerta elevado”.

Literatura

Os estudos que embasaram a configuração do Sacer fazem parte da literatura científica internacional, tendo como autores pesquisadores brasileiros e de outros países. Um exemplo é “Spread of Sars-CoV-2 coronavirus likely to be constrained by climate”, publicado em 7 de abril na plataforma medRxiv, que concluiu que certos tipos de clima restringem a transmissão entre humanos do vírus Sars-Covid-2, agindo sobre a condição epidêmica. De acordo com os cientistas, o clima mais favorável ao vírus é o subtropical, com temperaturas amenas — características do inverno em Curitiba.

Outra contribuição está em “Will coronavirus pandemic diminish by summer?”, publicado em 18 de abril na revista SSRN, estudo que ressaltou que o vírus é sensível a fatores ambientais. Também embasou o sistema as considerações de pesquisadores da UFPR e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) em estudo publicado em volume recente da revista Science of Total Environment, da Elsevier, abordando o cenário em cinco capitais brasileiras.

“Muitos estudos internacionais concordam que temperatura baixa e umidade baixa são mais favoráveis. A explicação é de que com umidade alta, existem mais gotículas de água em suspensão, aumentando a chance de elas colidirem, ficarem maiores, mais pesadas e precipitarem, ficando depositadas nas superfícies. Já com ar mais seco e menos gotas microscópicas, o vírus conseguiria ficar mais tempo em suspensão, podendo ser carregado para mais locais”, explica Roseghini.

Pesquisadores do laboratório são os primeiros, porém, a chamar atenção para o fato de que os principais fatores referentes à Covid-19 estão relacionados ao comportamento social. “O clima é um condicionante ambiental para a doença. Os fatores sociais são importantíssimos no processo”, explica Roseghini. Na prática, isso significa que um alerta climático de nível baixo não anula de forma alguma a ameaça que o vírus representa, porque ele continua circulando em certos ambientes. “O clima influencia no comportamento das pessoas, se ficarão mais ao ar livre ou dentro de ambientes fechados”.

Um exemplo de como clima e comportamento estão interligados está nas cidades úmidas brasileiras que vivenciaram contágio em larga escala. “Em cidades quentes e úmidas, como Manaus e Fortaleza, antes do isolamento social, coincidiu a alta taxa de transmissão com o período chuvoso, fazendo com que as pessoas ficassem mais tempo aglomeradas em locais fechados para se proteger da chuva”, analisa o pesquisador.

Adaptação

O Sacer é uma adaptação do Sac Dengue, uma iniciativa do Laboclima criada em 2010 que vem ajudando nas políticas públicas contra a dengue dos municípios paranaenses. Os mapas gerados pelo Sac Dengue e divulgados online permitem entender os riscos de contágio da doença por cidade, uma vez que o clima úmido e quente é favorável à disseminação do mosquito vetor.

De acordo com Roseghini, o Sacer surgiu como uma das frentes do redirecionamento das pesquisas do Laboclima durante a pandemia, necessário para trazer ganhos para o enfrentamento da crise. O Laboclima tem bolsistas da Capes (pós-graduandos), CNPq e UFPR-TN. Uma das iniciativas foi a criação de um projeto de pesquisa voltado a estudos que relacionam o novo coronavírus e o clima, no âmbito do grupo de pesquisa Rede Climas Subtropicais, que envolve pesquisadores da região Sul.

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