Parada do Orgulho LGBT de 2019 em Brighton, no Reino Unido. As variantes genéticas associadas ao comportamento sexual do mesmo sexo não podem ser usadas para prever a orientação sexual de alguém. (Créditos da imagem: Sam Mellish/In Pictures/Getty).

O maior estudo¹ até o momento sobre a base genética da sexualidade revelou cinco marcadores no genoma humano que estão ligadas ao comportamento sexual do mesmo sexo — mas nenhum dos marcadores é confiável o suficiente para prever a sexualidade de alguém.

As descobertas, publicadas na Science e baseadas nos genomas de quase 500 mil pessoas, reforçam os resultados de estudos anteriores e confirmam as suspeitas de muitos cientistas: enquanto as preferências sexuais têm um componente genético, nenhum gene isolado tem um grande efeito sobre comportamentos sexuais.

“Não existe um gene gay”, disse Andrea Ganna, principal autora do estudo e geneticista do Broad Institute of MIT e Harvard em Cambridge, no Massachusetts.

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Ganna e seus colegas também usaram a análise para estimar que até 25% do comportamento sexual pode ser explicado pela genética, sendo o restante influenciado por fatores ambientais e culturais — um número semelhante aos achados em estudos menores.

“Este é um estudo sólido”, afirmou Melinda Mills, socióloga da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que estuda a base genética dos comportamentos reprodutivos.

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Mas ela alerta que os resultados podem não ser representativos da população em geral — uma limitação que os autores do estudo reconhecem. A maior parte dos genomas vem do programa de pesquisa Biobank do Reino Unido e da empresa 23andMe, com sede em Mountain View, na Califórnia. As pessoas que contribuem com suas informações genéticas e de saúde para esses bancos de dados são predominantemente de idosos de ascendência europeia. Os participantes do Biobank tinham entre 40 e 70 anos quando seus dados foram coletados, e a idade média para as pessoas no banco de dados do 23andMe é de 51 anos.

Os autores do estudo também apontam que eles desprezaram pessoas cujo sexo biológico e sexo auto-identificado não correspondiam. Como resultado, o trabalho não inclui minorias sexuais e de gênero (a comunidade LGBTQ+), como pessoas trans e intersexuais.

Necessidade de mais dados

Os cientistas há muito pensam que os genes de alguém influenciam parcialmente sua orientação sexual. Pesquisas da década de 1990² mostraram que gêmeos idênticos têm mais probabilidade de compartilhar uma orientação sexual do que gêmeos fraternos ou irmãos adotados. Alguns estudos sugeriram que uma parte específica do cromossomo X, chamada de região Xq28, estava associada à orientação sexual de pessoas biologicamente masculinas — embora pesquisas subsequentes ponham em dúvida esses resultados.

Mas todos esses estudos tinham amostras muito pequenas e mais focadas nos homens, disse Mills. Isso dificultou a capacidade dos cientistas de detectar muitas variantes associadas à orientação sexual.

No estudo recente, Ganna e seus colegas usaram um método conhecido como estudo de associação ampla do genoma (GWAS, na sigla em inglês) para analisar os genomas de centenas de milhares de pessoas em busca de alterações no DNA chamadas de SNPs. Se muitas pessoas com uma característica em comum também compartilham determinados SNPs, é provável que os SNPs estejam relacionados de alguma forma a essa característica.

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Os pesquisadores dividiram os participantes do estudo em dois grupos — aqueles que relataram ter feito sexo com alguém do mesmo sexo e aqueles que não fizeram. Em seguida, os pesquisadores realizaram duas análises separadas. Em um deles, eles avaliaram mais de um milhão de SNPs e analisaram se as pessoas que tinham mais SNPs em comum também relatavam comportamentos sexuais semelhantes. Os cientistas descobriram que a genética poderia explicar de 8 a 25% da variação no comportamento sexual.

Para a segunda análise, Ganna e seus colegas queriam ver quais SNPs específicos estavam associados a comportamentos sexuais do mesmo sexo e descobriram cinco que eram mais comuns entre esses indivíduos. No entanto, esses cinco SNPs explicaram coletivamente menos de 1% da variação no comportamento sexual.

Isso sugere que existem muitos genes que influenciam o comportamento sexual, muitos dos quais os pesquisadores ainda não encontraram, de acordo com Ganna. Um tamanho de amostra ainda maior pode ajudar a identificar essas variantes ausentes, disse ela.

Mas Ganna adverte que esses SNPs não podem ser usados ​​para prever com segurança preferências sexuais em qualquer indivíduo, porque nenhum gene isolado tem um grande efeito sobre os comportamentos sexuais.

É complicado

Embora os pesquisadores tenham identificado alguns dos SNPs envolvidos no comportamento sexual do mesmo sexo, eles não têm certeza do que as variantes genéticas fazem. Um deles está próximo de um gene relacionado ao olfato, que Ganna diz ter um papel na atração sexual. Outro SNP está associado à calvície masculina — uma característica influenciada pelos níveis de hormônios sexuais, o que sugere que esses hormônios também estão ligados ao comportamento sexual do mesmo sexo.

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Os resultados demonstram a complexidade da sexualidade humana, disse Ganna. Os dados também apresentaram um desafio aos pesquisadores do estudo, que sabiam que seria complicado explicar as descobertas matizadas sobre um assunto tão sensível ao público em geral.

Para garantir que seus resultados não sejam mal interpretados, os pesquisadores do estudo trabalharam com grupos de defesa LGBTQ+ e especialistas em comunicação científica na melhor maneira de transmitir suas descobertas no trabalho de pesquisa e ao público. Seus esforços incluíram o design de um site que apresentasse os resultados — e suas limitações — ao público, usando linguagem sensível e sem jargões.

Ewan Birney, geneticista e diretor do Instituto Europeu de Bioinformática da EMBL, perto de Cambridge, no Reino Unido, aplaude esse esforço. “É um campo minado de comunicação”, afirmou ele.

Embora alguns pesquisadores e defensores do LGBTQ+ possam questionar a sabedoria de conduzir esse tipo de pesquisa, Birney disse que é importante. Existem muitas pesquisas sociológicas sobre comportamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo, de acordo com ele, mas esse é um tópico incrivelmente complicado. É hora de trazer uma perspectiva forte e baseada em biologia para a discussão, disse Birney. [Nature].

Referências:

  1. GANNA, Andrea et al. “Large-scale GWAS reveals insights into the genetic architecture of same-sex sexual behavior”; Science, 2019. Acesso em: 15 out. 2019.
  2. PILLARD, RC; BAILEY, JM. “Human sexual orientation has a heritable component”; NCBI, 1998. Acesso em: 15 out. 2019.
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Giovane Almeida
Sou baiano, tenho 18 anos e sou fascinado pelo Cosmos. Atualmente trabalho com a divulgação científica na internet — principalmente no Ciencianautas, projeto em que eu mesmo fundei aos 15 anos de idade —, com ênfase na astronomia e biologia.

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