Sapos comumente encontrados na Ásia são uma espécie invasora em Madagascar, ameaçando a biodiversidade única da ilha. (Créditos da imagem: Benjamin Marshall).

Em 2014, uma espécie tóxica invasora — um sapo comumente encontrado na Ásia — foi flagrada no maior porto marítimo de Madagascar. Os biólogos rapidamente soaram um alarme urgente, alertando que o invasor poderia devastar a biodiversidade da ilha africana, que inclui lêmures e centenas de outros animais que só são encontrados em Madagascar. Agora, os cientistas confirmaram que a substância viscosa tóxica do sapo provavelmente matará quase tudo em Madagascar que tente comê-lo, de acordo com um estudo que analisou a suscetibilidade de 88 espécies.

As descobertas “reforçam a ideia de que esses sapos são uma grande ameaça”, diz Guinevere Wogan, bióloga evolucionista da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que não participou do estudo. Saber quantas espécies são potencialmente vulneráveis ​​é “fundamental para pensar sobre como abordar essa invasão e salvar a diversidade”, diz ela.

Essa espécie de sapo (Duttaphrynus melanostictus) afasta seus predadores secretando uma toxina mortal, que pode desencadear uma parada cardíaca. Entretanto, algumas cobras, roedores e até mesmo ouriços podem comê-los e saírem ilesos, graças à mutações genéticas que tornaram a toxina inofensiva. Mas ninguém sabia se os predadores de Madagascar, que evoluíram na ilha relativamente remota, desenvolveram mutações semelhantes. “Madagascar está isolada há 80 ou 90 milhões de anos e nunca teve sapos”, diz Wolfgang Wüster, herpetólogo da Universidade de Bangor, no Reino Unido.

Então Wüster e seus colegas decidiram inspecionar o DNA de um subconjunto diversificado de cobras, lagartos, rãs, mamíferos e pássaros de Madagascar e ver se eles carregavam as mutações protetoras. Eles descobriram que apenas uma espécie nativa — um roedor chamado de rato arborícola de cauda branca (Brachytarsomys albicauda) — é geneticamente capaz de comer esses sapos, relatou a equipe na Current Biology. O restante dos predadores não possui o conjunto completo de mutações que conferem resistência à toxina, deixando os lêmures, cobras, lagartos e outras espécies nativas altamente vulneráveis ​​caso comecem a “petiscar” os sapos. “Pequenos anfíbios são presas muito, muito fáceis”, diz Wüster. “Não há muitas coisas que não os comem”.

Os sapos ainda não estão ao alcance da maioria das espécies nativas, pois só foram vistos ao longo de uma faixa de aproximadamente 350 quilômetros da costa nordeste da ilha. Mas “o alcance deles está se expandindo rapidamente”, diz James Reardon, biólogo de conservação do Departamento de Conservação da Nova Zelândia, em Te Anau. Os sapos são reprodutores prolíficos — uma fêmea pode produzir milhares de ovos — e há muitos arrozais, canais e sistemas de drenagem em Madagascar que os ajudam a se expandir, diz ele.

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Para piorar a situação, muitas das espécies nativas de Madagascar já estão lutando para sobreviver em pequenos habitats, já que a maior parte da ilha foi desmatada, diz Wüster. O sapo, acrescenta ele, “é o tipo de coisa que realmente pode destruí-los”.

Adaptado de Katie Langin para a Science.

Referência:

  1. WÜSTER, Wolfgang et al. “Widespread vulnerability of Malagasy predators to the toxins of an introduced toad”; Current Biology, 2018. Acesso em: 04 jun. 2018.
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Giovane Almeida
Sou baiano, tenho 17 anos e sou fascinado pelo Cosmos. Atualmente trabalho com a divulgação científica na internet — principalmente no Ciencianautas, projeto em que eu mesmo fundei aos 15 anos de idade —, com ênfase na astronomia e biologia.

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