(Créditos da imagem: Reprodução).

Desde os primórdios da história humana, nós buscamos um sentido para a existência. Em um dos melhores (senão o melhor) desenho produzido até hoje, essa questão é presente em todos os episódios. Não se preocupe, não darei spoilers sobre o seu enredo principal, porém revelarei partes interessantes para compor este artigo.

Vazio reconfortante

Em uma das cenas mais icônicas desta série, uma personagem descobre que foi uma gravidez indesejada. Em paralelo, o seriado expõe que existem inúmeras outras realidades, nas quais outros acontecimentos terminaram por fazer, com que seus pais fossem mais sucedidos, ou nem estivessem juntos. A descoberta então implica a uma auto-pergunta da personagem, “qual o sentido para estar viva?.

Para reconforta-la da pergunta, seu irmão lhe conta sobre ter se encontrado morto, em uma outra realidade paralela. Dando a si uma visão diferente de como podemos sentir a vida. E eis que então surge uma das melhores frases já proferidas:

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Ninguém existe sobre algum propósito, ninguém pertence a algum lugar, todos vamos morrer.”

“Ninguém existe sobre algum propósito, ninguém pertence a algum lugar, todos vamos morrer, vem assistir TV”. (Créditos da imagem: Reprodução).

De alguma maneira a frase tende a ser sombria e reconfortante. Mas para algumas pessoas, a ideia de existir sem algum propósito é assustadora.

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Porém a vida de Rick e Morty é assim o seriado todo, não há um propósito arraigado nas suas atitudes. Não há procura por um sentido profundo e revelador, não há porque ficar depressivo com crises existenciais. A vida está cheia de pequenas coisas a serem aproveitadas, como simplesmente assistir TV com quem se gosta.

Como já disse, uma vida sem sentido é a central discussão dentro do desenho. Não há apenas a grande imensidão do Universo no qual eles estão, como também este Universo possui infinitas dimensões, e todas as dimensões possuem infinitas realidades. Mostrando o quão pequeno, efêmero, frágil e comum é a nossa existência.

Novas perspectivas

A maior intenção da mensagem por trás da futilidade que a vida compõe, não é para nos sentirmos menores e perdidos em relação a existência. Quando encaramos de frente a aleatoriedade do Universo, a única opção segura a escolher, é dar importância completa as coisas que estão bem na sua frente, acontecendo agora. Particularmente o seriado fala sobre que, amigos, família e fazer aquilo que gostamos de fazer são muito mais importantes do que questões impossíveis sobre o sentido da vida.

Uma mensagem profunda que foi sintetizada e esclarecida de melhor maneira pelo filósofo Albert Camus.

Albert Camus. (Créditos da imagem: Reprodução).

O Absurdo

Em um dos trabalhos deste filósofo, “The Absurd” (O Absurdo), Albert nota uma contradição na espécie humana. O desejo que nós possuímos em encontrar um sentido para a vida versus a indiferença de um Universo infinito e desprovido de propósito.

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Para Camus, nós somos como Sísifo, um personagem da mitologia grega. Sísifo está condenado a sempre empurrar uma pedra ladeira acima, apenas para falhar, e vê-la rolar ladeira abaixo toda vez, por toda sua vida. Mas devemos imaginar que ele está feliz.

Isto porque ele descreve da seguinte maneira: “A partir do momento que o absurdo é reconhecido, uma paixão começa, a mais angustiante de todas. Indivíduos deveriam abraçar a condição absurda da existência humana enquanto desafiadoramente continuam a explorar e procurar por propósito”.

Camus explora a mais complicada questão sobre a vida de forma simples. Ele se refere a entendermos o quão nossas vidas são aleatórias e sem um propósito profundo que tenha sido criado a partir de nosso nascimento. E que assim, possamos criar sentido nas coisas que realizamos a curto prazo, atitudes pequenas e que nos dão prazer.

Rick C-137

(Créditos da imagem: Reprodução).

Durante todo o seriado iremos acompanhar as aventuras do Rick C-137 (C-137 é a dimensão e o multiverso em que ele está, maneira pela qual podemos reconhecer qual Rick ele é, pois existem incontáveis Ricks em incontáveis realidades) passarei a descrevê-lo a partir de agora apenas como Rick.

Rick é o cientista mais inteligente de todo o multiverso, e fica evidente que mesmo ele possuindo todo seu conhecimento, não pôde achar um sentido para a vida. Se ele não consegue encontrar um propósito, então o que nós podemos fazer?

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De toda maneira Rick completa seu cotidiano através da ciência, suas invenções o permitem embarcar em aventuras, descobrir novos mundos e aproveitar daquilo que o Universo tem a oferecer. Na verdade a ciência não o ajudou a encontrar um sentido para a vida. A ciência não provê sentidos absolutos sobre o que somos, sobre o que existe e sobre qualquer propósito para o Universo. E Rick é totalmente consciente sobre isso.

Rick tende a ser frio, indiferente e até niilista sobre a vida que leva. Passamos a ter uma imagem de alguém que pouco se importa com quem está a sua volta. Suas relações são problemáticas, sua família está infeliz, ele é alcoólatra. Porém o que de mais especial o seriado traz, é a pequena percepção de que quando Rick consegue um momento bom ao lado de quem ele gosta, são os únicos momentos onde ele demonstra pura felicidade.

Muitos exemplos são dados ao longo da série, um deles é quando Rick está infeliz e congela o tempo, por 6 meses, onde somente ele e seus netos ficam ativos, e ao final o resultado é um Rick extremamente feliz.

São momentos como esse que nos mostram a verdadeira essência de Rick. Não obtendo sentido em quase nada das coisas que sua vida possui, é no momento em que ele partilha suas experiências, mesmo as mais mundanas, que se encontra um sentido para estar vivo.

Uma profunda revelação

Mr. Meeseeks, personagem do desenho, após atender a um pequeno desejo, explode por ter “cumprido seu propósito”. (Créditos da imagem: Reprodução).

Muitos de nós ainda vivem envoltos por uma busca de significado profundo para a vida. De alguma maneira essas pessoas passam a interpretar sua vida como parte de algo maior, como um plano a ser executado sem nenhum desvio.

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É extremamente difícil aceitar que tudo aquilo já feito por nós um dia, é totalmente indiferente para o Universo. Que nossas atitudes tomadas nesta pequena rocha flutuante, serão esquecidas pelo tempo e que não haverá nenhum sentido profundo quando nós morrermos.

Essa busca incessante por algum sentido em nossa existência, tende a nos cegar para as coisas que estão à nossa frente, aquelas que realmente gostamos, e nos impede de estarmos ao lado daqueles que realmente nos importam.

É através da indiferença de Rick que o seriado nos diz para abraçarmos a vida de forma mais informal, não levando-a a sério. Em nosso tempo, muito das promessas para a solução de tal pergunta, vem através de religião, ideologia, arte, ciência e de valores comuns. Mas nem sempre conseguem prover um significado, e na maioria das vezes, nos colocam sozinhos nessa caminhada.

Rick e Morty, em nenhum momento sugere que nossa busca por sentido irá se extinguir. Simplesmente se pergunta se esta questão é mesmo importante de ser respondida, quando uma vida significativa pode acontecer através de coisas pequenas e próximas.

Para o seriado existe uma coisa mais terrível do que existir sem propósito:

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É existir, e não ter com quem compartilhar.

Observações:

  1. Ainda vou escrever muito sobre esta série, há tantas questões menores abordadas em um ou outro episódio, que é impossível mencioná-las de uma só vez. Se você nunca assistiu, está perdendo tempo, a série está na Netflix. E se você procurar no YouTube, há temporadas inteiras dubladas, de graça.
  2. Acho que não precisaria dizer, mas antes de escrever qualquer artigo, leio, vejo e ouço muita coisa relativa ao tema. Não acredite na pura originalidade, aliás até o seriado é um remix. De Volta Para o Futuro é a maior prova de que Rick e Morty é uma adaptação. Então não se esqueça, podem haver coisas parecidas por aí.
Fonte:Will Schoder
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Inquisidor de dogmas, vive em uma realidade paralela onde não acredita em problemas insolúveis. Publicitário e astrônomo, também flertou com cursos de ética, fotografia, filosofia, biologia e sociologia. Acredita que currículos não descrevem ninguém, seu guia para a vida passa pelo O Andar do Bêbado, A Origem das Espécies e O Universo em uma Casca de Noz. Sua religião é a ciência e não se incomoda de ser um pregador. Sente-se atraído pelas novas formas de interagir, divulgar e viver no mundo on-line, descobriu que ali é seu lugar e pretende entender cada vez mais sobre esta forma de vida peculiar e tão atraente.

4 comentários

  1. Perdemos muito tempo procurando o sentido da vida ao invés de procurar uma forma de existirmos melhor. Vou assistir tô curiosa, espero q não seja muito pós-moderno alijado da historicidade.

  2. A série é ótima e seu texto é muito bom 🙂 Acredito que estamos continuamente construindo sentidos para nossas vidas a medida que a experienciamos, no presente e tão somente no presente. Não há um sentido a priori para nossas vidas e projetar um sentido ao futuro é sacrificar o tempo presente que poderia ser gasto experienciando a vida. Olhar para o passado não vai nos trazer as respostas que queremos, olhar para o futuro é inútil, sendo que nossa única certeza futura é a morte, só nos resta viver no aqui e agora e aproveitar aquilo que nos é significativo.

  3. Luan … Sendo muito sincero, me emocionei ao ler seu texto. Vi um episódio com meus filhos, a tempos e me apaixonei pelo desenho, mas por somente vê-los a cada quinze dias, evito ficar vendo muita tv, mas destruímos uma série catalã maravilhosa sobre filosofia, Merlí! Digna de passar em todas as escolas do mundo. Voltando ao seu texto, chorei ao ler: ” verdadeira essência de Rick. Não obtendo sentido em quase nada das coisas que sua vida possui, é no momento em que ele partilha suas experiências, mesmo as mais mundanas, que se encontra um sentido para estar vivo.” Esse sou eu, exatamente! E ainda me chamam de Rick! Camus é incrível, todos adolescentes deveriam ler, O Estrangeiro. Obrigado pelo seu texto simples e incrivelmente sensível. Grande abraço.

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