O crânio de Luzia está em pedaços porque a cola que a mantinha unida derreteu sob o calor, mas o dano foi menor que o esperado. (Créditos da imagem: Carl de Souza/AFP/Getty Images).

Dos escombros do Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, os cientistas recuperaram um dos bens mais valiosos do museu: o crânio de Luzia, que se acredita ser um dos conjuntos mais antigos de restos humanos nas Américas. Os pesquisadores recuperaram na semana passada de dentro da caixa de metal e do armário de metal onde ele [o crânio] foi mantido — quebrado e com cicatrizes, mas em boa forma para ser reconstruído. “Foi como um membro da família voltando para nós”, diz a arqueóloga Claudia Carvalho, que supervisiona os esforços de recuperação no museu.

O famoso meteorito Angra dos Reis, datado em 4,5 bilhões de anos até o início do Sistema Solar, também foi recuperado de um gabinete de metal.

As duas descobertas oferecem aos cientistas um vislumbre de esperança de que mais tesouros possam ser recuperados dos restos mortais do museu, que foi quase totalmente destruído por um incêndio em 2 de setembro. Espera-se que uma operação completa de avaliação e recuperação de danos comece no próximo ano, depois que a integridade estrutural do prédio esteja garantida. Os cientistas só podem entrar para acompanhar as equipes de construção que estão reforçando as paredes e os agentes da Polícia Federal que ainda estão investigando a causa do incêndio.

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“Estamos coletando apenas em lugares onde eles [as equipes de construção] têm que limpar o chão para ancorar as paredes”, disse o diretor do museu, Alexander Kellner. O status da coleção paleontológica, que contém vários espécimes de referência de dinossauros e pterossauros — a especialidade de Kellner — ainda é indeterminado. Algumas coleções que foram mantidas em edifícios adjacentes, como plantas, mamíferos e invertebrados marinhos, não foram afetadas.

Com cerca de 11.500 anos de idade, o crânio de Luzia foi descoberto em 1975 por uma equipe de arqueólogos franco-brasileiros em uma caverna do estado de Minas Gerais, conhecida como a Caverna Vermelha. Foi uma celebridade na coleção de 20 milhões de itens do museu. O crânio está em pedaços agora porque a cola que o uniu derreteu no calor do fogo. Algumas partes foram quebradas, mas o dano foi “menos do que o esperado”, disse Carvalho. Por razões de segurança, o crânio e um pedaço de fêmur de Luzia foram mantidos isolados no piso térreo, separados do resto da coleção de antropologia no terceiro andar, que desmoronou completamente. O status desse material restante é desconhecido.

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Fundado há 200 anos, em junho de 1818, o Museu Nacional realizou vastas coleções de história arqueológica e natural, incluindo zoologia, botânica, paleontologia e mineralogia. Os cientistas vinham alertando há anos que o prédio — um palácio histórico que servia de residência para as famílias reais que governavam o Brasil em tempos imperiais — estava se deteriorando e também estava vulnerável ao fogo. Mas o museu, mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, carecia de recursos para fazer os ajustes necessários. O fogo destruiu completamente o interior do museu, deixando apenas as paredes externas em pé.

“Embora tenhamos perdido uma parte significativa de nossas coleções, não perdemos nossa capacidade de gerar conhecimento”, escreveu Kellner em uma carta divulgada na semana passada, dirigida a Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, os dois candidatos à presidência do Brasil no segundo turno. Keller pediu aos dois para “se comprometerem com a reconstrução do museu” e garantir que os fundos necessários estejam disponíveis em 2019. “Infelizmente, eu não recebi notícias de nenhum deles”, diz ele.

O processo de avaliação e recuperação será essencialmente uma escavação arqueológica, para salvar não apenas os artefatos, mas também as informações e a história associadas a eles. “Não estamos desistindo de nossas coleções”, diz Carvalho. “Queremos que elas renasçam, mesmo que demorem décadas”.

Adaptado de Herton Escobar para a Science.
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Giovane Almeida
Sou baiano, tenho 18 anos e sou fascinado pelo Cosmos. Atualmente trabalho com a divulgação científica na internet — principalmente no Ciencianautas, projeto em que eu mesmo fundei aos 15 anos de idade —, com ênfase na astronomia e biologia.

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