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Caro(a) leitor(a), neste artigo finalizamos uma reconstrução histórica da natureza da luz. Muitos foram seus protagonistas, e necessariamente tivemos que selecionar alguns (Huygens, Newton, Einstein) e apenas pincelar seus trabalhos.

Foram diversas as teorias referentes ao caráter da luz. O filósofo da ciência Mário Bunge já previa isto visto que em sua visão “nenhuma teoria física surgiu a partir da contemplação das coisas, ou mesmo dos dados empíricos: toda teoria física foi a culminação de um processo criativo indo muito mais longe do que os dados à disposição”1.

De fato, podemos observar isso com Aristóteles e suas primeiras especulações da composição da luz até as interpretações quânticas mais recentes; portanto, temos que essa não foi uma característica que se alterou ao longo desse debate. Ao considerarmos que teorias são erguidas em cada época com ajuda dos conceitos disponíveis, podemos claramente entender as diferenças dos dois debates. Para o primeiro, entre Huygens e Newton, ainda faltavam experimentos e uma “matematização formal” da física que só ocorreria anos depois.

A “onda” da teoria ondulatória de Huygens em nada se assemelha a “onda” da teoria ondulatória quântica de Bohr e seus contemporâneos. No primeiro caso, a onda era longitudinal, se propagava em um meio físico invisível (éter), e careciam de frequência ou comprimento de onda. Na quântica, a “onda” é uma função matemática (podendo ser complexa), onde sua interpretação física é dada apenas pelo seu quadrado, e isto representaria a densidade de probabilidade de encontrar a partícula em algum lugar do espaço tridimensional.

Analogamente, o mesmo acontece para a descrição corpuscular de Newton e dos corpúsculos de Einstein. Mesmo com essas diferenças, ainda existiram os defensores de opiniões contrárias referentes ao caráter da luz. E isso que é o interessante de ser analisado.

Neste sentido, Paul Feyerabend, filósofo da ciência comenta que “em ciência não existem regras absolutamente válidas, e que importantes desenvolvimentos só ocorreram porque alguns pensadores deixaram de obedecer a princípios metodológicos tidos como obviamente corretos e indiscutíveis”2.

Outro ponto que se faz importante destacar é como a presença da filosofia se deu nesse debate. Tanto Newton quanto Huygens tratavam da luz “palpável”, que pudesse ser “vista” e interpretada sem recorrer (muito) a posições filosóficas quando comparada ao terreno do segundo debate. É evidente que para compreender as interpretações quântica do fóton, o físico também assume (mais explicitamente agora) um posicionamento filosófico. Palavras como epistemologia e ontologia se fazem mais presente. O exemplo disto foi quando tomamos o cuidado de não caracterizar o que é possível como sendo uma região ontológica, onde poderia encontrar aquilo que poderia existir. Isto acaba criando ideias de “potência” e “virtual”. Para o debate quântico, isto ficou claro quando entediasse que o fóton existe como fóton, e não como onda/corpúsculo do que ele pode gerar: ele é fóton em ato, e onda/corpúsculo em potência.

O resumo é aquele de sempre que você já sabe: com o passar da história a ciência se constrói, os protagonistas se revezam, os argumentos mudam e os debates continuam.

Referências:

  1. Bunge, M. Filosofia: Farol ou armadilha. In Filosofia da física (pp. 11–20). Lisboa: Edições 70, 1973.
  2. FEYERABEND, P. Against method. London: Verso Editions, 1977.
Daniel Trugillo
De Santos, Mestre em Ensino de Física (PIEC/USP). Além de escrever para o Ciencianautas, escrevo resenhas de livros de física, filosofia, educação, psicologia e afins no instagram (@trugaindica). Também faço parte do grupo de divulgação científica Via Saber. Como hobby gosto de xadrez, paradoxos e memes.