(Créditos da imagem: Reprodução).

Continuando a controvérsia sobre a natureza da luz que ocorreu nos séculos XVII-XVIII (para ler a primeira parte, clique aqui) temos Newton, contemporâneo a Huygens, defensor da teoria corpuscular da luz.

Para o físico inglês, a luz não poderia ser uma onda que se propagaria no éter, pois, se fosse, ela seria capaz de contornar os obstáculos, tal como o som é capaz de fazer. “O som de um sino ou de um canhão é ouvido atrás de uma montanha, mas não é possível vê-los. As ondas na água que passam margeando um obstáculo grande se curvam em direção às águas paradas do outro lado do obstáculo, mas as estrelas fixas deixam de ser vistas quando um planeta fica entre elas e a Terra”1.

Isaac Newton. (Créditos da imagem: Reprodução).

Intrigado com essa questão, Newton propôs que a luz se comportasse como se fosse constituída de pequenas partículas que eram emitidas pelas superfícies dos corpos. Esses corpúsculos se moveriam em linha reta até interagir com algum obstáculo. A partir dessa interpretação, Newton conseguia explicar também conseguia explicar os fenômenos ópticos da reflexão e refração.

Esquemas de Newton sobre o movimento de uma partícula em uma região entre dois meios, onde há uma força perpendicular à superfície de separação (MARTINS e SILVA, 2015). (Créditos da imagem: Reprodução).

Uma interpretação corpuscular da luz não surgiria com Newton. Havia interpretações desse tipo na época de Aristóteles. Contudo, Newton apontou um novo ponto de vista “Supôs que havia partículas redondas ou glóbulos de luz que se moviam em meio ao éter – em vez de átomos vazios que se movem no espaço vazio, como no caso dos atomistas” 2. As cores, para Newton, seriam o reflexo da movimentação desses glóbulos de luz com o olho “Quanto mais uniformemente os glóbulos movem os nervos ópticos, mais os corpos parecem ser coloridos vermelho, amarelo, azul, verde etc.; mas quanto mais diversamente eles os movem, mais os corpos aparecem branco, negro ou cinza”2.

Vale ressaltar que Newton considerava em seus escritos públicos “a existência de corpúsculos de luz apenas como uma hipótese provável e não como um fato demonstrado cientificamente”2, mas que no fim das contas Newton nunca propôs uma teoria definitiva sobre os fenômenos ópticos ou a luz, ele utilizou diferentes modelos e hipóteses num fluxo contínuo de ideias.

Mesmo o debate possuindo pontos fortes a favor e contra as teorias apresentadas, Newton, ao ser membro do parlamento britânico, sócio da academia de ciências, possuidor de cargos burocráticos na casa da moeda britânica e presidente da então Royal Society, era extremamente influente. Assim, sua interpretação corpuscular da luz foi a que ficou mais aceita pela comunidade científica da época. Essa passagem ilustra a opinião do filósofo e físico francês, Blaise Pascal, ao dizer que “quando não se conhece a verdade de uma coisa, é útil que haja um erro comum suscetível de fixar o espírito dos homens, […] pois a doença principal do homem é a curiosidade inquieta das coisas que não pode saber; e não é pior para ele permanecer no erro do que nessa curiosidade inútil”3 . Mesmo sabendo das limitações da teoria newtoniana para o caráter da luz, ela ainda foi adotada pela ciência da época.

Ora, então o que concluímos aqui? A Newton era considerado autoridade no assunto da luz muito devido aos seus trabalhos na gravitação e nas mecânica. A visão de mundo por ele sugerida, e que virou consenso científico só mudaria muito tempo após a sua morte, no com os experimentos de Thomas Young e Augustin Fresnel.

Vamos voar no tempo, agora para a parte mais moderna do debate e entender como a noção de fóton mudaria completamente a interpretação sobre a natureza da luz! O terceiro capítulo será divulgado amanhã, 29 de junho.

Referências:

  1. MARTINS, R. A. Tratado sobre a luz, de Christiaan Huygens, Cadernos de História e Filosofia da Ciência (suplemento 4), 1986.
  2. MARTINS, R. A.; SILVA, C. C. As pesquisas de Newton sobre a luz: uma visão histórica. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 37, n. 4, 2015.
  3. PASCAL, B. Pensamentos, 1.18; cit. cf. edição brasileira. São Paulo, coleção Os pensadores, Abril Cultural, 1979.
Daniel Trugillo
De Santos, Mestre em Ensino de Física (PIEC/USP). Além de escrever para o Ciencianautas, escrevo resenhas de livros de física, filosofia, educação, psicologia e afins no instagram (@trugaindica). Também faço parte do grupo de divulgação científica Via Saber. Como hobby gosto de xadrez, paradoxos e memes.