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Não é novidade que a memória é um dos mais importantes recursos cognitivos, responsável não apenas pelas funções corticais (feito a de aprendizado), como também pela nossa “noção” de identidade pessoal. Percebendo ou não, a utilizamos o tempo todo: desde o ato de “lembrar” um fato até os comportamentos automáticos (que de modo geral não são mais que atividades realizadas repetidamente e, portanto, memorizadas a ponto de existir a possibilidade de serem executadas “automaticamente”). Apesar de avanços muito ricos na área da neurociência, ainda existem muitas dúvidas sobre como a memória é armazenada, os fenômenos bioquímicos envolvidos e nossas representações mentais.

A noção de que ao falarmos do passado – que é intrinsecamente memória – estamos invocando cenas “congeladas no tempo” há muito foi contestada. No processo de lembrar, você recria o fato e a sua memória é influenciada por múltiplos fatores. Lembrar não é assistir a um vídeo: é possível recriar e apagar fatos ou mesmo estimular falsas memórias. É especialmente sobre esta possibilidade que esse post se debruça.

Imagine uma história que você conhece. Quando você a manipula, também a refaz. A memória ser manipulável e falha pode parecer um evento assustador, se considerado o quanto somos dependentes dela.

Nos Estados Unidos, a pesquisadora Elizabeth Loftus realizou algumas pesquisas sobre como perguntas simples podem influenciar ou mesmo alterar as lembranças de um fato comum: mostrou para dois grupos um mesmo vídeo com um acidente onde dois carros colidiram. A seguir, questionou qual a velocidade em que os veículos haviam se encontrado no momento da batida – no entanto, utilizou um verbo diferente na hora de descrever a cena para os grupos: enquanto para um ela afirmou que os veículos “colidiram”, para outro alegou que eles “se esmagaram”. Que resultado essa pequena mudança gerou?

Apesar do vídeo apresentado a ambos os grupos ser exatamente o mesmo, os que ouviram a descrição de que os veículos “colidiram” disseram que os carros estavam em média a 50 km/h. O outro grupo, no entanto, arriscou em 65 km/h e, além disso, lembrou de ter visto vidro quebrado na cena — o que não havia. A partir dessa pesquisa, muitas outras vieram comprovar a mesma coisa: agentes externos podem alterar intencionalmente aquilo que lembramos.

E as testemunhas oculares?

Quando falamos em testemunha ocular, falamos em alguém que presenciou determinado fato, que “viu com os próprios olhos”. Da mesma forma descrita por Loftus, perguntas feitas por um juiz ou mesmo por um policial ao coletar um depoimento podem influenciar a memória do fato. Perguntas fechadas (“O suspeito tem olhos verdes?”) podem induzir o indivíduo a questionar aquilo que recorda. A utilidade do testemunho está no depoente descrever o que viu com a maior exatidão possível, com a menor possibilidade de influência externa.

São muitos (e complexos) os casos de pessoas inocentes presas injustamente por falsas memórias. No Brasil, por exemplo, o depoimento das vítimas e as descrições das testemunhas oculares, baseados em um mecanismo manipulável como a memória, são mais considerados que as provas técnicas, geradas no arcabouço da perícia científica. A vítima reconhece um suspeito dentro da delegacia, na viatura ou por fotos no celular, método que infelizmente foge do ideal (atualmente, o método de maior confiabilidade é a entrevista cognitiva, utilizada na Austrália e na Inglaterra. A técnica exige treinamento específico).

Lilian Stein, pesquisadora da PUC/RS, realizou algumas pesquisas sobre como um depoimento pode influenciar as vítimas de um crime ao ponto de gerar a fabricação de memórias falsas. Não apenas pela fragilidade emocional, mas pela condução do processo – e isso não é feito premeditadamente. Pense, portanto, em situações onde já se passou um tempo considerável entre o fato em si e a coleta do depoimento.

A nitidez das memórias vai se perdendo conforme elas se tornam antigas. Detalhes singelos vão desaparecendo e o cérebro busca preencher essas lacunas com aquilo que têm: outras lembranças. Vai encaixando aqui e ali e pronto: a memória já é totalmente diferente do fato original. O indivíduo não é capaz de diferenciar uma memória falsa de uma verdadeira.

Você pensa que pode lembrar todos os elementos de uma cena? Aqui vai um videozinho sobre atenção pra demonstrar como “deixamos passar” muita coisa:

O Innocence Project

O Innocence Project foi criado em 1992 com o intuito de reverter condenações de inocentes geradas por erros na condução das investigações. O grupo, que surgiu nos EUA e hoje se espalha em outros países, atuando também no Brasil, utiliza exames de DNA para fazer a comparação do material genético dos acusados com a amostra de material genético encontrada na cena do crime. Muitos dos norteamericanos inocentados foram retirados do corredor da morte.

A organização afirma que a identificação errônea por testemunhas oculares é o fato mais frequente de todas as condenações revisadas por eles, somando mais de 70% dos casos. A memória é sim um elemento importante, mas a coleta de um depoimento/testemunho deve obedecer a parâmetros muito bem estabelecidos, já que a chance de contaminação é enorme.

Pare pra pensar na possibilidade de alguém ficar mais de 20 anos preso por ter confessado detalhadamente o estupro e o homicídio de uma jovem sem tê-los cometido. Isso aconteceu com o inglês Sean Hogston. O professor islandês Gisli Gudjonsson lembra que a maior parte das falsas confissões envolve quadros de falta de controle e percepção sobre as memórias, que são distorcidas. De forma semelhante, Allison Redlich afirma que 22% dos criminosos com transtornos mentais são capazes de produzir falsos testemunhos com pouca influência externa, muitas vezes com riqueza de detalhes. Cabe lembrar que qualquer pessoa pode ter memórias falsas.

É necessário muito preparo para obter confissões ou testemunhos sem colocar uma pessoa inocente em risco. Na falta de uma técnica padronizada e um método com confiabilidade suficiente, existem cuidados específicos a ser tomados: o primeiro é não haver interrogatórios com coerção ou enganosos, com entrevistas que envolvam ameaças, privação de sono ou mentiras sobre evidências encontradas.

O segundo quesito é a necessária proteção especial para crianças e indivíduos com transtornos mentais mais graves, ou mesmo aqueles que desconhecem seus direitos e os efeitos de suas declarações.

Baseando-se nos resultados desse projeto, a Netflix lançou recentemente a série “DNA da justiça”, mostrando alguns dos casos famosos atendidos pela organização.

Outros elementos de influência

Existem outros elementos que levam nossos cérebros modulares a negar ou distorcer evidências, a exemplo dos vieses cognitivos. Eles existem por uma razão simples: nos poupam da sobrecarga de informações, ajudam na hora de agir com rapidez e de diferenciar o que nossa memória precisa ou não guardar. No entanto, eles podem levar a desvios sistemáticos de lógica e a decisões irracionais. Quer alguns exemplos?

  • A conformidade: você já ouviu falar no experimento de conformidade de Solomon Asch? Esse é o pensamento “de manada”, quando tendemos a acompanhar a decisão de um grupo ainda que seja completamente divergente da nossa.
  • A confirmação: tendência em interpretar, buscar e agrupar informações que confirmem nossas crenças pré-existentes. Procuramos confirmar aquilo que já “acreditamos” estar certo.
  • O ancoramento: tendência a confiar em impressões generalistas, como estereótipos (mais de 60% dos apenados no Brasil são pretos ou pardos). 

Referências:

  1. Clínica Brasil. “Até onde se pode confiar na memória?“.
  2. ROSA, Guilherme. “Como um monte de gente é preso por falsas memórias no Brasil“; Folha.
  3. LOVE, Shayla. “Eis como nossos cérebros podem distorcer a realidade“; Vice.
  4. Grassi-Oliveira, Rodrigo. (2010). Falsas Memórias: fundamentos Científicos e suas Aplicações Clínicas e Jurídicas. Brazilian Journal of Psychiatry, 32(2), 204.
  5. Innocence Project Brasil.
  6. TED Talks. “Scott Fraser: Por que testemunhas oculares erram“.