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A maior parte das pessoas do mundo acredita em Deus (Zuckerman, 2007), e muitas delas também creem em outros tipos de ser espiritual, tais como espíritos, anjos e demônios. Essa crença (quase) onipresente sempre chamou a atenção dos intelectuais. Por exemplo, filósofos e teólogos se debruçam há séculos sobre os argumentos contrários e favoráveis à existência de Deus, e, nas últimas décadas, cada vez mais cientistas têm investigado as (supostas) consequências da religiosidade sobre a saúde (e.g., Braam & Koenig, 2019). Contudo, parece haver um pouco menos de “investimento” numa questão que, pra mim, é igualmente relevante: Afinal, por que tanta gente acredita em Deus e em outros seres espirituais?

Mas eu estaria mentindo se dissesse que não existem bons estudos empíricos já publicados sobre isso. Há alguns anos, Ara Norenzayan e Will Gervais (2013) estavam interessados em entender por que algumas pessoas são – ou se tornam – ateias. Após reunirem e analisarem os achados de dezenas de pesquisas que investigaram isso, eles acabaram elaborando um modelo teórico capaz de explicar não só a descrença, mas também a crença em seres espirituais. Quer mais? Eles sacaram que existe não uma, mas quatro causas psicológicas por trás disso. Como eu analisei alguns dos meus camaradas descrentes recentemente, o meu trabalho hoje se resumirá em botar apenas os crentes “no divã”.

Uma das causas da crença em seres espirituais foi chamada por Norenzayan e Gervais de “aprendizagem cultural”. Basicamente, há evidências de que aprendemos a ser religiosos com as pessoas com quem mais convivemos (Hayes & Pittelkow, 1993; Patacchini & Zenou, 2016); evidências de que crianças só passam a crer em vida após a morte depois de serem ensinadas sobre isso (Astuti & Harris, 2008); e evidências de que, quanto mais os nossos pais eram religiosos, mais fortemente nós cremos em seres espirituais quando nos tornamos adultos (Lanman & Buhrmester, 2016; Turpin, Andersen & Lanman, 2018). Embora os detalhes psicológicos subjacentes a essa “herança cultural” ainda dividam os especialistas (e.g., Dennett, 2006; Sampaio, 2016), qualquer um que reparar bem os seus vizinhos vai concluir que filhos de católicos tendem a se tornar católicos, filhos de protestantes tendem a se tornar protestantes e filhos de espíritas tendem a se tornar espíritas. Ainda que haja exceções aqui e ali, podemos metaforicamente dizer que fomos psicológica e socialmente “predestinados” a participar de nossa religião e, pelas mesmas razões, a torcer pelo nosso time do coração. Curioso, né?

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Além disso, não é de hoje que há gente batendo na tecla de que o medo é um dos motores da fé. De acordo com Norenzayan e Gervais, a crença em seres espirituais pode ser uma fonte de esperança, de sentido ou de consolo diante de nossas inseguranças existenciais. Por exemplo, há evidências científicas de que tendemos a aumentar nossa credulidade quando sobrevivemos a um terremoto (Sibley & Bulbulia, 2012); quando refletimos sobre a nossa morte (Vail, Arndt & Abdollahi, 2012); quando passamos por experiências de falta de controle (Kay, Moscovitch & Laurin, 2010; Rutjens, Pligt & Harreveld, 2010); ou quando nos tornamos mais solitários (Epley, Akalis, Waytz & Cacioppo, 2008). Essas condições adversas podem atingir também uma nação inteira, uma vez que, em países com menor “bem-estar social” (p. ex., aqueles com maior desigualdade econômica e com taxas mais altas de homicídio), as pessoas tendem a orar mais (Rees, 2009). Basicamente, isso é o que caracteriza o “mecanismo motivacional”.

Por fim, Norenzayan e Gervais sugerem que a crença em seres espirituais depende de um mecanismo cognitivo normalmente chamado de “intuição”, o qual possuiria um papel causal duplo em seu modelo teórico. Pra conhecer os detalhes desse mecanismo, não deixe de assistir ao vídeo que eu produzi sobre isso (logo abaixo) — e, pra acompanhar os meus trabalhos sobre Psicologia, ceticismo e religião, inscreva-se lá no meu canal do YouTube (clicando aqui).

Este texto foi originalmente publicado por Universo Racionalista. Leia o original aqui.

Referências:

  1. Astuti, R., & Harris, P. L. (2008). Understanding mortality and the life of the ancestors in rural Madagascar. Cognitive Science, 32(4), 713–740.
  2. Braam, A. W., & Koenig, H. G. (2019). Religion, spirituality and depression in prospective studies: A systematic review. Journal of Affective Disorders, 257, 428–438.
  3. Dennett, D. C. (2006). Quebrando o encanto: A religião como fenômeno natural. São Paulo: Globo.
  4. Epley, N., Converse, B. A., Delbosc, A., Monteleone, G. A., & Cacioppo, J. T. (2009). Believers’ estimates of God’s beliefs are more egocentric than estimates of other people’s beliefs. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106(51), 21533–21538.
  5. Hayes, B. C., & Pittelkow, Y. (1993). Religious belief, transmission, and the family: An australian study. Journal of Marriage and Family, 55(3), 755–766.
  6. Kay, A. C., Moscovitch, D. A., & Laurin, K. (2010). Randomness, attributions of arousal, and belief in God. Psychological Science, 21(2), 216–218.
  7. Lanman, J. A., & Buhrmester, M. D. (2016). Religious actions speak louder than words: Exposure to credibility-enhancing displays predicts theism. Religion, Brain & Behavior, 7(1) 3–16.
  8. Norenzayan, A., & Gervais, W. M. (2013). The origins of religious disbelief. Trends in Cognitive Sciences, 17(1), 20–25.
  9. Patacchini, E., & Zenou, Y. (2016). Social networks and parental behavior in the intergenerational transmission of religion. Quantitative Economics, 7(3), 969–995.
  10. Rees, T. J. (2009). Is personal insecurity a cause of cross-national differences in the intensity of religious belief? Journal of Religion & Society, 11, 1–24.
  11. Rutjens, B. T., Pligt, J. V. D., & Harreveld, F. V. (2010). Deus or Darwin: Randomness and belief in theories about the origin of life. Journal of Experimental Social Psychology, 46(6), 1078–1080.
  12. Sampaio, P. H. F. (2016). O comportamento religioso: Análise da religião e da religiosidade sob uma perspectiva behaviorista radical (Dissertação de mestrado).
  13. Sibley, C. G., & Bulbulia, J. (2012). Faith after an earthquake: A longitudinal study of religion and perceived health before and after the 2011 Christchurch New Zealand earthquake. PLoS ONE, 7(12), 1–10.
  14. Turpin, H., Andersen, M., & Lanman, J. A. (2018). CREDs, CRUDs, and Catholic scandals: Experimentally examining the effects of religious paragon behavior on co-religionist belief. Religion, Brain & Behavior, 9(2), 143–155.
  15. Vail, K. E., Arndt, J., & Abdollahi, A. (2012). Exploring the existential function of religion and supernatural agent beliefs among Christians, Muslims, Atheists, and Agnostics. Personality and Social Psychology Bulletin, 38(10), 1288–1300.
  16. Zuckerman, P. (2007). Atheism: Contemporary numbers and patterns. In Martin, M. (Ed.), The Cambridge companion to atheism. New York, NY: Cambridge University Press.