Lançamento do segundo protótipo do VLS-1. (Créditos da imagem: CLA-IAE).

Talvez você não saiba, mas o Brasil possui um programa espacial. E se você não sabe é só mais uma prova do quão sucateado é o programa.

E não é nem questão de patriotismo. Por um lado, um programa espacial é de fato um setor extremamente estratégico para um país, mas por outro, há a ciência e a tecnologia. Quando mais pessoas pesquisam, maiores e mais rápidas são as inovações. São muito comuns as notícias de descobertas pela NASA ou pela Agência Espacial Europeia com seus avançadíssimos instrumentos, que valem bilhões de dólares e geram muito conhecimento científico. Por que o Brasil não faz esse tipo de pesquisas?

Um sonho de uma noite de verão

Após a Segunda Guerra Mundial, inicia-se uma corrida entre diversos países em diversos setores, principalmente por motivos militares. Entre esses setores, destacam-se o nuclear e espacial. Nesse período, Brasil, China e Índia encontravam-se em pé de igualdade no setor espacial. Os três possuíam tecnologias extremamente restritas, e não possuíam cientistas e engenheiros nazistas, como Rússia e Estados Unidos.

Hoje, Índia e China estão extremamente avançadas nas pesquisas espaciais. A China já enviou astronautas ao espaço e até mesmo uma estação espacial – que acabou caindo na Terra. A Índia é autossuficiente para enviar objetos ao espaço, com os seus foguetes, e planeja, nos próximos anos, já enviar astronautas ao espaço, e já até enviou uma sonda para Marte. O Brasil, por sua vez, não consegue ao menos levar um satélite ao espaço.

Afinal, o que impede o Brasil de levar satélites ao espaço? O que impede o Brasil de levar robôs à Lua e a Marte?

O Brasil tentou se desenvolver

O Programa Espacial Brasileiro não é tão ambicioso. Os focos são principalmente a construção de satélites de monitoramento, para monitorar o desmatamento da Amazônia e Mata Atlântica e o desenvolvimento de pequenos foguetes. O Brasil já construiu alguns satélites. O primeiro satélite cem por cento nacional foi o SCD-1 (Satélite de Coleta de Dados – 1), com o intuito de coletar dados ambientais para nortear as agências do país. Ele foi lançado por um foguete americano.

O primeiro foguete brasileiro bem sucedido foi o VS-30, cujo desenvolvimento se iniciou na década de 1980 e foi lançado pela primeira vez em 1997. É um foguete suborbital, desenvolvido com intuito de aprendizado e capaz de lançar alguns experimentos nesta região “pré-espaço”.

Durante esse tempo, outros projetos são desenvolvidos, como alguns foguetes suborbitais e outros satélites com função de monitoramento, que são lançados por foguetes americanos ou chineses. O projeto mais ambicioso do Programa Espacial Brasileiro era o VLS (Veículo Lançador de Satélites). Era um foguete de cerca de 20 metros de altura capaz de levar até cerca de 380 kg para a órbita baixa.

VLS-1. (Créditos da imagem: FAB).

Os projetos aeroespaciais do Brasil desde a década de 1960 foram ótimos para o exercício, que gerou bastante conhecimento, e o VLS era um projeto bastante promissor. Seu desenvolvimento inicia-se na década de 1980, e não demorou muito para que estivesse pronto para ser testado. Entre 1997 e 1999 ele já estava passando por testes de voos.

O voo inaugural, do VLS-1, em 1997, carregava o satélite brasileiro SCD-2A, também para coleta de dados. Entretanto, houve problemas logo nos primeiros segundos de voo, e foi necessária a autodestruição do foguete. Em 1999 a Agência Espacial Brasileira (AEB) tenta lançar o VLS-1 V2, mas novamente ocorre uma falha e a autodestruição também foi necessária para evitar maiores danos.

Ok, é natural que um protótipo falhe. Entretanto, alguns anos depois, com o VLS-1 V3, ocorreu um desastre que matou dezenas de técnicos que cuidavam do foguete prestes a ser lançado. Em 2003, três dias antes do lançamento, um problema elétrico gerou uma ignição, que matou os 21 técnicos que estavam na plataforma de lançamento e destruindo os dois satélites que seriam lançados. Após isso, seu desenvolvimento deveria progredir, mas acabou sendo descontinuado nos últimos anos por diversos motivos.

Cyclone, o VLS em dobro

Alcântara Cyclone Space foi uma empresa binacional, formada entre Brasil e Ucrânia. O projeto, que previa trocas tecnológicas, lançaria a partir do Brasil, no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, os foguetes ucranianos Cyclone-4. O foguete, com o dobro da altura do VLS, pode levar até 5300 kg para a órbita baixa e 1200 kg para a órbita geoestacionária terrestre. Após o abandono do projeto pelo Brasil, a Ucrânia continuou sozinha.

Cyclone 4. (Créditos da imagem: Alcântara Cyclone Space).

Segundo revelações do WikiLeaks, entretanto, os Estados Unidos desejavam sabotar o projeto. Conforme os documentos secretos vazados em 2011, desde 2009 o país estava descontente com o projeto Cyclone, e não queriam que a Ucrânia, com tecnologia espacial desenvolvida a partir daquela herdada da União Soviética, transferisse-a para o Brasil.

“Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contanto que tal atividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”, dizia um telegrama, conforme noticiado pelo O Globo na época.

Esses receios possuem direta relação com o campo militar, já que o domínio de tecnologia espacial pode ampliar a capacidade bélica de um país – vale lembrar que o Brasil já desenvolveu tecnologia para bombas nucleares e, apesar de ser adepto ao Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares, ainda há, no país este conhecimento e tecnologia, e um foguete pode facilmente ser transformado em um míssil balístico intercontinental. Embora o Brasil respeite as regras, este pode ser um dos receios dos americanos.

E, de fato, infelizmente a exploração espacial não é algo estritamente pacífico e científico, embora grande parte dos cientistas pelo mundo sejam pacifistas, mas como já abordamos aqui no Ciencianautas, política e ciência estão sempre interligadas. Inicialmente, os projetos são militares, e a exploração científica entra em segundo plano, como consequência. 

Vale ressaltar que o Brasil é um país historicamente pacífico. A Constituição Federal, somada ao Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares, não permitem que o Brasil desenvolva tecnologia de destruição em massa desde o final da década de 1980. Atualmente, as pesquisas brasileiras no ramo nucleares são para fins pacíficos e, no âmbito militar, principalmente para propulsão nuclear de submarinos.

Em 2015, o Brasil abandonou o projeto, e ambos os países tiveram prejuízos bilionários. A justificativa oficial da Presidência da República foi de que “verificou-se a ocorrência de desequilíbrio na equação tecnológico-comercial que justificou a constituição da parceria entre a República Federativa do Brasil e a Ucrânia na área do espaço exterior”. Também haviam motivos de inviabilidade comercial.

Centro de Alcântara e iniciativa privada

O Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA), é subutilizado. Por estar muito próximo da linha do equador, os foguetes podem economizar até 30% do combustível, o que tornam os lançamentos mais baratos do que o convencional. É uma base desejada por outros países, e é uma forma de se capitalizar.

Desde meados dos anos 2000, um Acordo de Salvaguardas Tecnológicas entre o Brasil e os Estados Unidos estava travado, isso porque os deputados brasileiros sempre consideraram os acordos enviados pelos americanos como pouco benéficos ao Brasil, e realmente eram, principalmente por questões de segurança e de soberania.

Em 2019, enfim, um acordo foi aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, para lançar foguetes americanos a partir do Brasil, e já entrou em vigor. Acredita-se que com esse acordo, o Brasil possa arrecadar até US$ 3,5 bilhões por ano, podendo chegar aos US$ 10 bilhões anuais até 2040. Esse dinheiro poderia ser alocado para o desenvolvimento de tecnologia espacial, conforme os defensores. 

“Nosso programa ainda é público e atende ao governo. A parte privada é que falta. Mas a tendência é de maior envolvimento. Grandes empresas em breve vão querer ter seus próprios satélites, atendendo a seus interesses. É isso que o programa tem de suprir. Por que a Petrobrás vai depender de imagens de outro satélite se puder ter o seu?”, disse à Revista Galileu José Braga Coelho, presidente da Agência Espacial Brasileira até 2019.

Projetos em andamento

Com o descontinuamento do VLS, o Brasil partiu para projetos menos ambiciosos. Com o VS-30, o Brasil conseguiu alcançar novas etapas e desenvolver o VSB-30, que possui uma carga útil de até 400 kg. Eles são capazes de lançar pequenos experimentos científicos para a atmosfera ou para o “início” do espaço. Com esse conhecimento, o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), iniciou, em conjunto com a Agência Espacial Alemã (DLR), o desenvolvimento do VS-50, a partir de 2014.

O VS-50 está em seus estágios finais de desenvolvimento, no momento da publicação deste artigo. Em novembro de 2019, ocorreu o primeiro teste de queima. A novidade da nova versão é uma carga útil de cerca de 500 kg, 100 a mais do que o VSB-30, além de sistemas mais modernos. Ele é uma espécie de ensaio para o VLM (Veículo Lançador de Microssatélites). Seus sistemas e motores serão aproveitados para este novo foguete.

Atualmente, o VLM-1 (Veículo Lançador de Microssatélites), é o projeto mais ambicioso do Instituto de Aeronáutica e Espaço. Ele é, pode-se dizer, uma versão simplificada do VLS, e poderá lançar satélites de até 200 kg para a órbita baixa da Terra. Vale lembrar que o VS-50, projeto intermediário, possui uma carga útil maior porque ele não chega à órbita da Terra, é um veículo suborbital, diferente do VLM. 

Concepção artística do VLM. (Créditos da imagem: autor desconhecido).

O programa espacial e o desmatamento

Dentre as principais ideias de se desenvolver foguetes no Brasil, está a autonomia no lançamento de satélites. O Brasil possui diversos satélites para monitoramento ambiental, e há tecnologia nacional suficiente para o desenvolvimento. Nesse quesito, o Inpe exerce grande importância.

Recentemente, Ricardo Galvão, então diretor do Inpe foi exonerado após polêmicas quando revelou o aumento no desmatamento da Amazônia. Este papel é exercido pelo Inpe com maestria há décadas, e a Amazônia, além da Mata Atlântica, do Cerrado e outros biomas brasileiros, precisam ser monitorados para evitar um desmatamento em níveis catastróficos. O Inpe, entretanto, sofre novas baixas.

O desenvolvimento de um Programa Espacial Brasileiro é questão de ciência e preservação ambiental, além de questões relacionadas à soberania, no jogo político mundial. Apesar de caminhar lentamente, ele não está parado, e principalmente na cidade de São José dos Campos, situam-se empresas do setor espacial, além de órgãos da Força Aérea e da AEB, como o ITA, IAE e o Inpe. Ademais, diversas universidades tentam conduzir projetos relacionados ao espaço. 

Testes do CBERS-4A, um satélite construído pelo Brasil com ajuda da China. (Créditos da imagem: Inpe).

Seja por motivos técnicos, seja por motivos políticos e monetários, entretanto, não é provável que o Brasil entre na corrida espacial em uma competição direta com EUA, Europa, Rússia, China ou Índia, pelo menos não no curto e médio prazo. Na verdade, explorar Marte ou enviar astronautas ao espaço não são metas do Brasil – como falamos, o foco é o monitoramento ambiental, apesar de que ver um rover brasileiro em Marte realmente seria algo legal.  Esse papel do Inpe no monitoramento ambiental será abordado futuramente em outro artigo.

Referências: 

  1. AEB. “VS-30”. Acesso em: 18 jul. 2020.
  2. AEB. “Senado Federal aprova Acordo de Salvaguardas Tecnológicas Brasil – Estados Unidos”. Acesso em: 18 jul. 2020.
  3. Comando da Aeronáutica. “Relatório da investigação do acidente ocorrido com o VLS-1 V03 em 22 de agosto de 2003, em Alcântara, Maranhão”. Acesso em: 18 jul. 2020.
  4. IAE. “VLM-1”. Acesso em: 18 jul. 2020.
  5. Inpe. “História”. Acesso em: 18 jul. 2020.
  6. Inpe. “Satélite SCD-1”. Acesso em: 18 jul. 2020.
  7. O Globo. “Brasil formaliza rompimento de acordo para lançar foguete ucraniano”. Acesso em: 18 jul. 2020.
  8. O Globo. “EUA tentaram impedir programa brasileiro de foguetes, revela WikiLeaks”. Acesso em: 18 jul. 2020.
  9. Presidência da República. “Decreto Nº 8.494, de 24 de julho de 2015”. Acesso em: 18 jul. 2020.