(Créditos da imagem: Pixabay).

Atualmente, observamos um crescente aumento no número de vegetarianos e veganos em todo o mundo. Em 2012, uma pesquisa do IBOPE indicou que 8% da população brasileira se declarava vegetariana. Em uma pesquisa mais recente, em 2018, o IBOPE mostrou que 14% da população do país se declara adepta, o que representa 30 milhões de pessoas, número próximo de, por exemplo, a população total do Canadá (37 milhões), e maior do que a população a Austrália e Nova Zelândia juntas.

O discurso que mais se difunde em favor ao veganismo e vegetarianismo é em torno do sofrimento animal. É o que, por exemplo, me levou para esse caminho. No entanto, é notável que esse discurso não gera grande comoção porque nos distanciamos dos animais, a ponto de o ser humano nem se considera a si próprio um animal.

Saindo do discurso do sofrimento animal, uma coisa é fato: é de suma importância para o futuro do planeta a diminuição do consumo de carne. E agora, com o grande destaque recebido por Greta Thunberg, uma jovem sueca com grande força para o ativismo ambiental, é um ótimo momento para se falar disso.

Publicidade

Por que precisamos diminuir o consumo de carne?

Pode parecer sem sentido, já que vai contra o senso comum, mas consumir carne é uma forma extremamente ineficaz de se alimentar. Apesar de utilizar 83% das terras agrícolas do mundo, a produção animal é responsável por apenas 37% da proteína e 18% das calorias que consumimos, o que demonstra que não é, nem de longe um fato, a ideia de que apenas a carne e produtos de origem animal são as únicas boas fontes de proteína.

A produção de animais para abate é gigantesca. No Brasil, em 2018, foram abatidos 31,9 milhões de bovinos, 44,2 milhões de suínos e 5,7 bilhões de frangos. É como se cada brasileiro matasse 27 frangos em um ano.

Publicidade

Hoje, se parássemos de consumir alimentos de origem animal, haveria uma redução de 75% no uso de terras para a produção de alimentos, não só pela diminuição da área ocupada por animais, mas também por plantas utilizadas para alimentá-los, já que a conversão é extremamente ineficaz: para 1 kg de carne bovina utiliza-se 15 mil litros de água e 25 kg de grãos. Para efeitos de comparação, para se produzir 1 kg de soja, que fornece quantidades percentuais de proteína equivalente à carne, utiliza-se 1800 litros de água, cerca de 8 vezes menos do que a carne. 

A área utilizada para a criação de animais também é demasiadamente grande: 30% da terra firme do planeta é utilizado como pastagem, o equivalente ao dobro do território da Rússia. Isso fora o um terço das terras aráveis que são utilizadas para a produção de alimento para esses animais. Sem isso, poderíamos alimentar toda a população do planeta e mais 3,5 bilhões de pessoas.

Com a questão territorial, nota-se a ineficiência na produção de alimento em relação às calorias consumidas pelos animais. Considerando o gasto energético na produção, com por exemplo combustíveis fósseis, apenas 18% das calorias utilizadas por uma galinha tornam-se alimento; essa taxa é ainda menor para a produção bovina: apenas 6%. No caso das plantas, há um “ganho” energético, 250% das calorias utilizadas no cultivo do milho tornam-se alimento, e para a soja é de cerca de 415%, ou seja, as plantas produzem mais energia do que a energia que gastamos com combustíveis fósseis no processo produtivo e irrigação, enquanto com animais há uma grande perda energética.

Podemos destacar também a questão do efeito estufa. Em média, 1 kg de vegetais produz 2 kg de CO2, enquanto 1 kg de carne bovina produz cerca de 80 kg de CO2, além da alta quantidade de metano liberada pelo gado. Considerando a carga de CO2 gerada pelo desmatamento de uma área para a produção de gado, 1 kg de carne bovina gera de 440 a 700 kg de CO2.

Diminuir não é parar

De 1990 para cá, o consumo de carne per capita no Brasil quase dobrou. Segundo dados de 2018 da OCDE, o brasileiro consome, em média, 77,2 kg de carne (gado, porcos, aves e ovelha).

Publicidade

Se considerarmos apenas a carne bovina (24,5 kg), isso representa 367,5 mil litros de água — o suficiente para o uso doméstico de seis pessoas por um ano, considerando os padrões de consumo hídrico do brasileiro.

Esses mesmos 24,5 kg de carne bovina representam 1960 kg de CO2, quantidade que um carro popular libera para rodar cerca de 5.300 km, isso sem considerar os efeitos do desmatamento para a produção dessa carne — vide queimadas na amazônia. Considerando os efeitos do desmatamento, a produção da carne bovina consumida por um brasileiro em um ano pode liberar tanto CO2 quanto um carro popular rodando 45 mil km (cálculos feitos utilizando dados da Eccaplan).

O planeta pede por ajuda, e diminuir o consumo de carne é essencial para isso. Um dia a população do planeta será grande de mais para mantermos os mesmos padrões de alimentação. Não estamos propondo que você pare totalmente de consumir carne; já é o suficiente se você consumir carne apenas no almoço, por exemplo. Isso já iria reduzir seu consumo pela metade, e o impacto na saúde do planeta já diminuiria. De quebra já diminui o sofrimento de alguns bichinhos.

Referências:

  1. Confederação Nacional de Municípios. “Brasileiro consome, em média, 154 litros de água por dia, aponta ONU”. Acesso em: 29 set. 2019.
  2. ESHEL, Gidon; MARTIN, Pamela A. “Diet, Energy, and Global Warming”. Acesso em: 29 set. 2019.
  3. IBGE. “Em 2018, abate de bovinos e suínos continua em alta”. Acesso em: 29 set. 2019.
  4. IBOPE. “14% da população se declara vegetariana”. Acesso em: 29 set. 2019.
  5. IBOPE. “Dia Mundial do Vegetarianismo: 8% da população brasileira afirma ser adepta do estilo”. Acesso em: 29 set. 2019.
  6. MEKONNEN, M. M.; HOEKSTRA, A. Y. “The green, blue and grey water footprint of farm animals and animal products: vol. 1”; UNESCO. Acesso em: 29 set. 2019.
  7. OECD. “Meat consumption”. Acesso em: 29 set 2019.
  8. POORE, J.; NEMECEK, T. “Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers”; Science. Acesso em: 29 set. 2019.
  9. SCHUCK, Cynthia; RIBEIRO, Raquel. “Comendo o Planeta:Impactos Ambientais da Criação e Consumo de Animais”; SVB. Acesso em: 29 set. 2019.
Compartilhe:
Avatar
Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

Deixe seu comentário!

Por favor, digite o seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui.