(Créditos da imagem: ISRO/NASA/JPL-Caltech/Brown University/USGS).

Sim, exatamente. Incrivelmente, a Lua está enferrujando, e isso não é uma metáfora. Mesmo sem a existência de oxigênio atmosférico, nem água líquida, está havendo a formação de hematita por lá. A hematita é o óxido de ferro (FE2O3), ou seja, basicamente ferro enferrujado.

A ferrugem nada mais é do que uma reação química. Trata-se da reação entre oxigênio e o ferro. E ela é bastante comum na Terra e em outros locais com água líquida ou alguma existência de oxigênio, como asteroides, ou até mesmo em Marte – é justamente a ferrugem que dá ao planeta marciano essa cor vermelha. Entretanto, a atmosfera lunar é praticamente desprezível. Além disso, há gelo por lá, mas pelo menos na superfície, não há água líquida.

Em um novo estudo, liderado por Shuai Li, da Universidade do Havaí e publicado no último dia 2 no periódico Science Advances, os pesquisadores descrevem a descoberta da hematita na Lua. Para chegar a essa conclusão, a equipe de cientistas analisou dados coletados pela sonda lunar orbital Chandrayaan-1, operada pela Organização de Pesquisa Espacial Indiana. A Chandrayaan-1 foi lançada em 2008 e operou até o ano de 2010. Sua principal missão era coletar dados topográficos, geológicos e químicos, mapeando toda a superfície de nosso satélite natural.

Um dos equipamentos instalados na sonda é o Moon Mineralogy Mapper (M3), projetado pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA. Ele realiza análises espectrais, ou seja, a forma como a luz refletida pelos materiais de comporta – como frequência e comprimento de onda. Como cada material possui sua assinatura, é possível identificar os materiais que refletem essa luz. Em um paralelo, nosso olho também faz uma análise espectral – nós enxergamos as cores. 

“É muito intrigante. A Lua é um ambiente terrível para a formação de hematita”, diz Li em um comunicado da NASA. Ele explica que não estava buscando por ferrugem. Estava simplesmente analisando o gelo nos pólos lunares. Quando percebeu que havia ferrugem por ali, resolveu procurar pode ajuda de outros cientistas para confirmar, já que era algo extraordinário demais. 

“No início, eu não acreditei totalmente. Não deveria existir com base nas condições presentes na Lua. Mas desde que descobrimos água na Lua, as pessoas têm especulado que poderia haver uma variedade maior de minerais do que imaginamos se a água tivesse reagido com as rochas”, diz Abigail Fraeman, do JPL.

“No final, os espectros eram convincentemente portadores de hematita, e precisava haver uma explicação para o motivo de estar na Lua”, diz Vivian Sun, também do JPL, no comunicado.

A localização da hematita na lua. (Créditos da imagem: LI, Shuai et al).

É tudo culpa da Terra!

Essa descoberta apenas mostra como o sistema solar é muito mais integrado do que pensamos, e que um planeta não é um sistema isolado. Há uma constante troca de materiais entre todos os corpos. Os cientistas citam, no estudo, como uma das possíveis causas, o oxigênio da Terra. Em 2007 a sonda japonesa Kaguya encontrou oxigênio terrestre na Lua.

Um estudo publicado em 2017 na revista Nature (TERADA, K et al.) explicou como esse oxigênio foi até lá. Em resumo os cientistas mostraram que os ventos solares (partículas altamente carregadas, vulgo plasma, lançado pelo Sol), poderiam arrancar moléculas de oxigênio e de água do alto da atmosfera da Terra e levar para a Lua. Isso acontece em poucos momentos, apenas quando a Lua está dentro da cauda do campo magnético terrestre.

“A descoberta e o mapeamento de qualquer mineral contendo ferro férrico na superfície lunar revelaria se a oxidação está ocorrendo sob condições altamente redutoras e pode ajudar a esclarecer os processos que formam produtos de oxidação em outros corpos sem ar”, relata o estudo

Além disso, o processo pode levantar algumas moléculas de água da própria Lua, ajudando ainda mais na oxidação do ferro das altas latitudes lunares. “Eu acho que esses resultados indicam que há processos químicos mais complexos acontecendo em nosso sistema solar do que foi reconhecido anteriormente. Podemos entendê-los melhor enviando futuras missões à Lua para testar essas hipóteses”, diz Sun.

Referências:

  1. LI, Shuai et al. “Widespread hematite at high latitudes of the Moon”. Science Advances. Acesso em: 06 set. 2020.
  2. NASA. “The Moon Is Rusting, and Researchers Want to Know Why”. Acesso em: 06 set. 2020.