(Créditos da imagem: Freepik Premium/Ciencianautas).

Muitos não sabem, mas a Libras (Língua Brasileira de Sinais) — note que é uma língua, e não linguagem, como muitos dizem —, é uma língua oficial do Brasil, ao lado do português. O ensino ciências em libras, portanto, não só é uma necessidade, como uma obrigação do Brasil. Mais de 10 milhões de pessoas no Brasil possuem problemas auditivos, 5% da população do país – quase a população da cidade de São Paulo, uma das maiores cidades do mundo. Isso equivale, também, à população de Portugal, e é um valor três vezes maior do que a população de todo o Uruguai. Em outras palavras: é muita gente. 

Tive uma oportunidade de aprender o básico em libras — mas sei muito pouco. No entanto, mesmo assim estou à frente da maior parte dos brasileiros (e preciso voltar a aprender, risos). Embora seja uma língua oficial do Brasil, pouquíssimos a falam. Então, isso se reflete de uma forma extremamente notável na educação dos surdos. Na verdade não só na educação, mas na interação diária com o mundo. Mas o foco desse texto está nos estudos, especificamente no ensino de ciências – física, química e biologia. 

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No Brasil, 32% dos surdos não possuem nenhum grau de instrução, enquanto apenas 6,9% dos brasileiros sem problemas auditivos deixaram de estudar. Apenas 7% dos surdos no Brasil possuem ensino superior completo, enquanto mais do que o dobro dos não-surdos, 16,5%, completaram o ensino superior, conforme uma matéria da Revista Pesquisa Fapesp.

Logo da Libras. (Créditos da imagem: Reprodução).

Caminho para ensino de ciências em libras

Em libras, boa parte das palavras possuem sinais específicos. Quando não há algum nome, precisamos soletrar, para a pessoa entender o português, nesse caso. No entanto, esse processo torna a conversa mais ineficiente. Professores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) publicaram, recentemente, o primeiro volume do manual intitulado ‘A célula e o corpo humano’. Neste manual, eles propõem sinais para termos da ciência que ainda não existem em libras, como ‘glóbulos brancos’, ‘organelas’, ‘parede celular’ e outros termo úteis para o ensino de ciência nos níveis fundamental, médio e até mesmo no ensino superior. Por ora, o manual se resume ao ensino de biologia – a matéria mais abordada no ensino de ciências de nível básico.

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“Da totalidade dos sinais exibidos no manual, 85% ainda não existiam. Os 15% já existentes não modificamos”, diz à Revista Pesquisa Fapesp Ana Cristina de Assunção Xavier Ferreira, professora de libras na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e uma das responsáveis pelo projeto. A ideia deles é ajudar a padronizar e disseminar esses termos em território nacional. 

Boa aceitação

“A ideia de criar o Manual de libras para ciências surgiu dentro do campus de Parnaíba, que é a segunda maior cidade do estado”, explica Ricardo Alaggio, diretor da Editora da UFPI. “A ideia se potencializou porque temos um curso de licenciatura em libras/língua portuguesa no campus de Teresina, um dos poucos entre as universidades federais.”

Até o momento, o livro ganhou espaço. Inicialmente, eles queriam distribuir a versão impressa do livro nas escolas da rede estadual do Piauí. No entanto, chegou a pandemia, e eles optaram por lançá-lo como e-book. Até o momento, segundo a equipe, já houve 2 mil downloads, e eles recebem contatos de bibliotecas de universidades que querem colocá-lo em seus repositórios e até mesmo utilizá-lo como material oficial. 

O livro pode ser acessado gratuitamente por meio deste link.

Com informações de Revista Pesquisa Fapesp.

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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pela divulgação científica. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente curso Física na UFScar e escrevo para o Ciencianautas.