Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), a base de pesquisas antárticas brasileira. (Créditos da imagem: Marinha do Brasil).

Pode parecer banal, “um continente de gelo” sem receber pessoas por alguns meses. Mas a Antártica representa uma grande importância para a ciência. Se não exercesse importância, nenhum país manteria bases com gastos milionário por lá. Mas mantêm.

Os militares por lá, são só para apoio aos civis, já que ali ocorrem situações extremas. O Tratados da Antártica, de 1959, proíbe quaisquer utilizações militares do continente: “A Antártica será utilizada somente para fins pacíficos. Serão proibidas, inter alia, quaisquer medidas de natureza militar, tais como o estabelecimento de bases e fortificações, a realização de manobras militares, assim como as experiências com quaisquer tipos de armas”.

Recentemente, o Brasil inaugurou a reforma na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), a base de pesquisas Antárticas que o Brasil mantém no continente. A estação funciona desde o ano de 1984. A reinauguração, feita em janeiro de 2020, a transformou completamente, gerando mais conforto para os pesquisadores que passam alguns meses trabalhando naquele frio. 

A nova base antártica brasileira é bastante bonita. (Créditos da imagem: Marinha do Brasil).

A EACF, localizada na Península Keller, no interior da Baía do Almirantado, Ilha Rei George, em 25 de fevereiro de 2012, após 28 anos de funcionamento, sofreu um incêndio que afetou 70% das instalações. Nem isso afetou a pesquisa por lá, entretanto. Com uma rápida reforma, a base voltou a funcionar. No início de 2020, a reforma, que custou 100 milhões de dólares, foi inaugurada.

Antes, ela era feita de contêineres. (Créditos da imagem: Marinha do Brasil).

Agora, mesmo após anos utilizando uma base destruída, e com o conforto a base permanecerá praticamente parada entre 2020 e 2021, por razões necessárias, é claro. Mas coloco dessa forma apenas para mostrar como  até mesmo um continente de gelo, que está, até o momento, livre da covid-19 é afetado pela pandemia. 

Todo ano, entre outubro e março, o verão antártico, todos os países enviam seus pesquisadores. Há pesquisas de todos os tipos: geologia, astronomia, física, biologia, medicina, psicologia. Já relatamos aqui no Ciencianautas, até mesmo um caso de um pesquisador brasileiro que identificou bactérias que produziam substâncias que podem auxiliar no tratamento do câncer.

Há formas de se viajar para lá de forma segura, sem levar o vírus, o que exigiria duas quarentenas de 14 dias na ida e duas para a volta, além da hospedagem e alimentação nessas escalas, o que torna tudo temporalmente e financeiramente inviável; o Brasil já não é mesmo conhecido por alocar muita verba para a ciência. A ida de equipamentos também é mais difícil.

O medo de levar o vírus para a Antártica não é em relação aos humanos que lá estão, mas em relação aos animais. Já estamos extinguindo espécies de todos os outros continentes – podemos pelo menos tentar poupar os outros o máximo possível. O vírus foi passado para o humano por outro animal, seja o morcego, seja o pangolim. Levá-lo para a Antártica significaria o risco de transmiti-lo para outras espécies da fauna local.

É claro que também há o cuidado com os cientistas. Não há capacidade para tratar possíveis sintomas graves do vírus por lá. “É muito difícil retirar alguém do interior da Antártida para a América do Sul. E nós não temos, na Antártica, UTIs, e muito menos respiradores”, explica o cientista Jefferson Simões ao G1.

Um dos navios à serviço da missão. (Créditos da imagem: Marinha do Brasil).

Não só o Brasil está atento a esses cuidados, é claro. Recentemente, a BBC relatou as restrições impostas pelas bases de pesquisas inglesas. Lá, eles enviarão algumas equipes, mas apenas as essenciais para o funcionamento da base. O Brasil também, mantém por lá apenas o grupo de apoio da Marinha. Ademais, a base é autossuficiente, e é capaz de se manter até novembro de 2021. 

Além da demora para a continuação, início ou finalização de algumas pesquisas, também serão muito afetadas aquelas que necessitam de uma constante coleta de dados, com um intervalo temporal bastante regrado. Isso vai gerar uma lacuna nestes trabalhos. Entretanto, é algo infelizmente necessário, por questões de responsabilidade e respeito. 

Referências:

  1. BBC. “Coronavirus severely restricts Antarctic science”. Acesso em: 09 ago. 2020.
  2. Folha de São Paulo. “Pandemia impede pesquisas brasileiras na Antártida, único continente sem Covid-19”. Acesso em: 09 ago. 2020.
  3. G1; Jornal Nacional. “Brasil não vai mandar pesquisadores para Antártica este ano por causa da pandemia”. Acesso em: 09 ago. 2020.
  4. Marinha do Brasil. “Estação Antártica Comandante Ferraz”. Acesso em: 09 ago. 2020.
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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pela divulgação científica. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente curso Física na UFScar e escrevo para o Ciencianautas.