Imagem do Sars-CoV-2, o novo coronavírus, obtida por microscópio eletrônico de varrimento. (Créditos da imagem: NIAID Rocky Mountain Laboratories/U.S. NIH).

Geraldo Fernandes e Sérvio Ribeiro | UFMG — Cientistas investigam a natureza e tudo o que está relacionado a ela — desde a descrição de fenômenos, formas, quantidades e comportamentos até a formulação de predições sobre acontecimentos futuros, baseados no entendimento (passado e presente) dos fenômenos naturais.

Faz 20 anos que os cientistas alertam que haveria mudanças de regimes de chuvas, com cenários mais imprevisíveis e com eventos extremos mais frequentes, caso o aquecimento global provocado pelo homem não fosse revertido. E não foi! 

Em 29 de janeiro, de forma imprevisível, as áreas mais nobres de Belo Horizonte foram devastadas por uma chuva que superou os desastres das tempestades de 2017. Em regiões como as atingidas, essas chuvas extremas deveriam se repetir naturalmente em intervalos de mais ou menos 20 anos, mas agora estão mais frequentes. Na sexta-feira anterior ao dia 29, a chuva devastou ainda mais gravemente regiões carentes da cidade.

Entre tantos campos em que a ciência se aplica, está o da previsibilidade. Quando fazem previsões, os cientistas não querem que elas se concretizem. O que querem é alertar as sociedades de perigos iminentes e provocar mudanças em políticas públicas e em comportamentos sociais, de forma a evitar danos às pessoas, ao meio ambiente e às economias. Fenômenos climáticos extremos e imprevisíveis que atingem os ricos os fazem perceber que não há onde se refugiar, e a necessidade de mudanças políticas contra o aquecimento global começa a ficar mais evidente.

No que se refere às doenças, ocorre algo semelhante: a reação é mais rápida quando o risco de transmissão não pode ser controlado ou mesmo impedido apenas com a aplicação de recursos financeiros. Assim, vírus que se espalham rapidamente com grande risco de contaminação e causam doenças letais, são minimamente responsáveis por rupturas no sistema econômico global, o que faz o mundo se mobilizar por soluções rápidas. Enquanto alguns governos e instituições fundamentam suas decisões no entendimento preditivo da ciência, sempre há outros, assim como alguns setores da sociedade, que responsabilizam arbitrariamente fenômenos que não são a causa da pandemia ou atribuem a culpa às próprias vítimas, em especial aquelas que vivem em estado de pobreza crônica. 

No início dos anos 2000, o mundo enfrentou duas outras pandemias de coronavírus de forma bem-sucedida. Isso ocorreu porque foram seguidos protocolos científicos aceitos globalmente para conter a expansão desses vírus. Resumidamente, cientistas epidemiologistas usam uma constante chamada H0, que é o número de pessoas que podem ser infectadas por um sujeito contaminado. Essa é uma medida classicamente ecológica, que avalia a velocidade de multiplicação em se tratando de vírus. O assustador é que se trata de uma medida exponencial, o que significa que, após certo ponto, é impossível de ser freada.

O problema de certas viroses é que o H0 é muito alto, e as infecções se propagam tão rapidamente que chegam a atingir um número máximo de indivíduos que um ambiente pode sustentar. Dessa forma, a relação entre o hospedeiro e a doença entra em colapso. Como nós somos o “recurso” para o vírus, estamos falando de índices aterrorizantes de mortalidade e ruptura social. Usando a ciência, é fácil entender que, se as pessoas sadias (= recurso) estiverem fora do alcance do vírus, interromperemos esse ciclo mortal antes que ele se espalhe exponencial e descontroladamente. No entanto, em todos esses casos anteriores, as formas emergentes dos vírus não se transmitiam pelo ar, somente por partículas de saliva ou fluídos corporais.

Neste ano, a nova pandemia de coronavírus avança, e os padrões sugerem que a infecção possa se dar de pessoa a pessoa, assim como pelo ar. Outro detalhe preocupa: a maior parte da população está nas mãos de governantes autoritários ou, quando democráticos, negacionistas da ciência.

A tradição de escutar os cientistas tem variado de tempos em tempos.  Nos casos cotidianos de endemias, as consequências de não escutar a ciência (e de não agir coordenadamente via órgãos internacionais regulatórios) são, na verdade, um enorme crime social, com consequências quase sempre devastadoras.

Qualquer governo no mundo que atuar desamparado de critérios científicos no combate ao coronavírus reeditará o chamado “racismo ambiental”, que define situações nas quais os custos de um impacto ambiental atingem mais os pobres que os ricos. Em outras palavras, um cenário epidemiológico desamparado de suporte científico e não pautado por condutas internacionais validadas cientificamente poderia vir a ser definido como “racismo sanitário” – no fundo, algo tão óbvio e antigo em países em desenvolvimento que dispensa explicações ou tipificações.

O medo, portanto, não é só do vírus, mas de que, em regiões importantes do mundo, com largas rotas migratórias e comerciais, a ciência seja ignorada em detrimento de critérios político-financeiros. Olhando de maneira mais ampla, não valorizar as universidades e o ensino equivale a não planejar políticas com base no investimento na ciência e monitoramento de ameaças potenciais ao cidadão.

Um governo responsável trata seu ministério da saúde como um segundo ministério de ciência e tecnologia, capaz de dialogar e criar força de trabalho com as universidades e centros de pesquisa. Essa base institucional de colaboração no controle epidemiológico está presente no Brasil há várias décadas.

Este texto foi originalmente publicado por UFMG. Leia o original aqui.