(Créditos da imagem: Reprodução).

Se você está lendo isso, é devido à energia elétrica na sua casa que alimenta seu computador ou a bateria de seu celular e os provedores de Internet. Independente da produção da forma de produção da energia elétrica, ela precisará ser distribuída para os consumidores finais, o que ocorre por linhas de transmissão.

As linhas de transmissão ficam expostas às mais diversas influências externas do meio ambiente, como vento, chuva, neve, raios, vegetação, entre outras. Particularmente destacamos as interferências que ocorrem devido às atividades do Sol, também conhecidas por ventos solares, que são fluxos de partículas ionizadas, predominantemente núcleos de hélio ionizados e elétrons¹.

Como sabemos, a Terra apresenta um campo magnético, e a interação do vento solar com o campo magnético terrestre pode acarretar diversos fenômenos eletromagnéticos indesejados. Sabemos pelas leis do eletromagnetismo que associado à variação do campo magnético terrestre, teremos a presença de um campo elétrico e pelos resultados de Faraday, surgirá uma corrente elétrica induzida na superfície terrestre e nas linhas de transmissão. E aí que está o perigo.

Esse fenômeno (a interação de partículas ionizadas com o campo magnético terrestre acaba induzindo correntes elétricas) é conhecido por indução geomagnética terrestre2,3 e foi responsável pela saturação de alguns transformadores nas subestações e pelos maiores “apagões” da história e outros fenômenos eletromagnéticos curiosos.

Em março de 1989, uma grande ejeção de massa solar perturbou diversos sistemas de comunicação ao redor do mundo, com relatos da Austrália e Suécia. A província de Quebec, Canadá, ficou pelo menos 9 horas sem energia elétrica4,5. E não havia nada que as companhias de energia elétrica poderiam fazer, apenas esperar a Terra voltar ao normal.

Contudo, o efeito mais impressionante de correntes induzidas devido a uma erupção solar aconteceu em setembro de 1859 que produziu anomalias – como o surgimento de aurora boreal em regiões afastadas do polo como Havaí – nos Estados Unidos e em todo continente europeu6,7.

O relato mais impressionante — sendo diversas vezes citado na literatura — foi feito por Prescott8 e descreve que as linhas telegráficas funcionavam apenas devido a eletricidade produzida a partir das auroras boreais! Segundo o historiador, as estações americanas usaram da corrente induzida pelas auroras para transmitir e receber mensagens telegráficas. Entre Boston e Portland, nos Estados Unidos, foi sugerido que as baterias fossem desligadas, e que os cabos de transmissão simplesmente fossem conectados com a Terra. Assim, durante algumas horas nesse evento de setembro de 1859, as linhas telegráficas na região de Boston funcionaram sem baterias, apenas com as correntes elétricas induzidas provenientes da ionosfera!

Referências:

  1. COSTA JR., E. et al. O vento solar e a atividade geomagnética. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 33, n. 4, p.4301, 2011.
  2. KAPPENMAN, J. G.; ALBERTSON, V. D.; MOHAN, N. Current transformer and relay performance in the presence of geomagnetically-induced currents. IEEE Transactions on Power Apparatus and Systems, n. 3, p. 1078-1088, 1981.
  3. PIRJOLA, R. On currents induced in power transmission systems during geomagnetic variations. IEEE Transactions on Power Apparatus and Systems, n. 10, p. 2825-2831, 1985.
  4. KURTH, W. S. The great solar storms of 1989. Nature, v. 353, n. 6346, p. 705-706, 1991.
  5. ALLEN, J. et al. Effects of the March 1989 solar activity. Eos, Transactions American Geophysical Union, v. 70, n. 46, p. 1479-1488, 1989.
  6. BOTELER, D. H. The super storms of August/September 1859 and their effects on the telegraph system. Advances in Space Research, v. 38, n. 2, p. 159-172, 2006.
  7. MELONI, A.; LANZEROTTI, L. J.; GREGORI, G. P. Induction of currents in long submarine cables by natural phenomena. Reviews of Geophysics, v. 21, n. 4, p. 795-803, 1983.
  8. PRESCOTT, G. B. History, theory, and practice of the electric telegraph. 4ª Ed. Boston: Ticknor and Fields, 1866, p.319-324.
Daniel Trugillo
De Santos, Mestre em Ensino de Física (PIEC/USP). Além de escrever para o Ciencianautas, escrevo resenhas de livros de física, filosofia, educação, psicologia e afins no instagram (@trugaindica). Também faço parte do grupo de divulgação científica Via Saber. Como hobby gosto de xadrez, paradoxos e memes.