Soldados leem jornal no campo de batalha. (Créditos da imagem: Reprodução).

Esquecidos desde sempre pelo governo por representar o contrário do que era o governo brasileiro: a luta pela democracia, até hoje os pracinhas são lembrados pelos Italianos. Em Montese, na Itália, a história da libertação da cidade é contada no museu local. Suportando a pressão da guerra através da tão conhecida zoeira brasileira após a vitória, os soldados gravaram na BBC, em Londres, diversas músicas feitas no campo de batalha, e hoje, essas canções contam a história dos feitos.

Entretanto, mesmo com a admiração que o povo tinha por eles, foram abandonados, como relata à BBC Claumir, filho de um dos veteranos: “Com a extinção da FEB, em 1945, os pracinhas se sentiram totalmente abandonados pelo governo brasileiro. A maioria dos ex-combatentes foi dispensada. Diante disso, muitos piraram”.

Por bastante tempo, Getulio Vargas fazia seu “jogo de vai e vem”, flertando com Hitler e com os Estados Unidos, até mesmo durante a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, por diversos motivos políticos e econômicos, com destaque para o financiamento pelos americanos para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Vargas acabou por escolher o lado Aliado e cortou relações com o Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. Nesse momento, navios mercantes brasileiros passaram a ser torpedeados, totalizando dezenas de naufrágios, e o Brasil declara guerra ao Eixo em 31 de agosto de 1942.

E aí… Qual a importância do Brasil?

A primeira contribuição do país foi em território brasileiro, logo com a declaração de guerra. Uma base aérea foi cedida para os americanos, a atual base de Parnamirim, no Rio Grande do Norte. A vantagem da base era uma proximidade maior, e os aviões, na época com baixíssima autonomia, poderiam, dessa forma, fazer apenas um pouso de reabastecimento em Dakar e partir para a Europa. Os americanos consideravam essa base um dos quatro pontos mais estratégicos da guerra.

Foi somente após quase dois anos da nossa entrada na guerra, em julho de 1944, que 25.835 militares foram enviados ao campo de batalha, com a missão de ajudar na conquista da Itália. O lema da FEB, “A cobra está fumando” se originou porque, segundo histórias, se dizia que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil mandar soldados para lutar na guerra. Dentre esses soldados não havia apenas artilharia e cavalaria; havia também o destacamento de aviação, com o lema “Senta a Pua”; foi aí que surgiu a aviação de caça do Brasil.

O soldado Francisco de Paula segura uma munição com o lema da FEB, durante a batalha de Monte Castello, em 1945. Imagem colorizada artificialmente. (Créditos da imagem: Reprodução).

Inicialmente, pretendia-se atingir pelo menos 75 mil voluntários para a guerra, um número superior do que o próprio contingente militar brasileiro na época, que era de cerca de 70 mil. Isso significava que o Brasil precisava dobrar o número de militares. A tarefa de recrutamento, entretanto, foi difícil. Se muito os jovens, principalmente de movimentos estudantis, antes clamavam pela declaração de guerra pelo Brasil, agora, poucos se voluntariavam. Por fim, apenas pouco mais de 25 mil estavam aptos para a árdua tarefa de guerrear.

A ideia por princípio, era enviar os soldados brasileiros para o norte da África, mas as vitórias aliadas na região levaram o contingente brasileiro a ser enviado para a Itália, considerada de grande importância estratégica, pois era ocupada por 27 divisões alemãs e defendida pelos planos de Albert Kesselring, uma das campanhas militares mais bem sucedidas da história.

Assim que desembarcaram na Itália os pracinhas se depararam com dificuldades. Apesar de durante mês de julho ser verão na Europa, já notava-se o frio durante a noite, para qual o uniforme brasileiro era inapropriado. Após ação de políticos, os uniformes apropriados e equipamentos foram disponibilizados, tudo fornecido pelos americanos, mas pagos pelo governo brasileiro. Paradoxalmente, os soldados brasileiros eram o efetivo com o maior salário na Itália: cerca de 30 dólares (10 para a família do soldado, 10 para um fundo de previdência, e os outros 10 para o soldado). Os americanos, para efeito de comparação, ganhavam 28 dólares mensais.

Os soldados Aliados eram instruídos a interagir o mínimo possível com os civis locais. No entanto, os pracinhas ficaram no coração dos italianos pela proximidade e empatia frente ao sofrimento dos inocentes. A escritora Isalete Leal, filha de um pracinha, na época cabo, Francisco Conceição Leal, hoje com quase 98 anos, conta, em seu livro “Histórias de um Pracinha da Segunda Guerra Mundial”, sobre relatos de seu pai sobre a desesperada população que ficava à espreita para pegar restos de ração e as vísceras de frango descartadas. Os soldados não os deixavam apenas restos, no entanto. Era distribuída comida sempre que possível, como relata o livro “1942: O Brasil e sua guerra quase desconhecida”, de João Barone. 

Durante as primeiras semanas, os nossos soldados passaram por um breve treinamento e período de adaptação, e logo, em agosto, já partiram para a batalha. Um dos principais desafios enfrentados pelos Aliados na Itália era a baixa posição. Durante toda a história militar, os pontos mais estratégicos no front são os de altitude mais elevadas – os apeninos, no caso do local -, que estavam dominados pelos alemães.

A primeira conquista realizada pelos soldados brasileiros foi a tomada da comuna de Camaiore, em 18 de setembro de 1944. De lá, partiram para Castelnuovo di Garfagnana, um local elevado que daria bastante vantagem aos Aliados, por ser um entroncamento para várias outras cidades. Após a tomada do local, no entanto, um contra-ataque noturno os pegou de surpresa, e foram obrigados a recuar um pouco. Essas conquistas no Vale do Rio Serchio são importantes porque representam uma contribuição para o rompimento da Linha Gótica, uma das principais linhas de defesa alemãs.

A mais importante, mas também a mais difícil conquista dos pracinhas foi a tomada do Monte Castello. Em 24 de novembro de 1944 ocorreu o primeiro ataque, que fracassou com o contra-ataque alemão. O segundo ataque, em 29 de novembro, que resultou no aniquilamento da A 3ª Companhia do 1º Batalhão do Sampaio também falhou.

O terceiro ataque à posição, em 12 de dezembro, acabou com a morte do sargento Medrado, com 13 tiros. O sargento estava sob o comando do pequeno grupo de 13 homens que tentava avançar sob o fogo da Lurdinha (apelido das mortais metralhadoras .50 alemãs). Após abatido, seus homens conseguiram destruir a metralhadora e o resgataram, mas veio a falecer no hospital.

A força do inverno impossibilitou novos ataques até fevereiro. Após um quarto fracasso, o comandante Mascarenhas resolveu voltar à tática do primeiro ataque. Um grupo de elite americano deveria primeiro no dia 20 de fevereiro de 1945, tomar uma posição vizinha, Monte Della Torracia, para que não houvesse um ataque alemão a partir de lá. Ao amanhecer do dia 21, os brasileiros atacaram o Monte Castello sob o fogo da temida Lurdinha e dos morteiros alemães. Mesmo quando a FEB já havia conquistado o Monte Castello, os americanos ainda não haviam tomado o Della Torracia, e as tropas brasileiras remanescentes foram ajudá-los, alcançando a vitória.

Após isso, muitas outras conquistas foram feitas pelos pracinhas. Entre elas, a Batalha de Montese, que durou de 14 até o dia 17 de abril de 1945. O vídeo abaixo, feito pela já citada Isalete, mostra crianças em Montese, na Itália, cantando a Canção do Expedicionário, símbolo da FEB, em 2015, em comemoração aos 70 anos do fim da Segunda Guerra.

http://https://www.youtube.com/watch?v=0z_gB-UUsi0

Pouco tempo depois de Montese, em 28 de abril de 1945, os soldados atacaram Fornovo, mas já no dia seguinte, o general  Otto Fretter-Pico e seus 15 mil homens da 148ª Divisão do exército alemão se renderam à divisão brasileira, algo inédito em todo o campo de batalha italiano.

Apesar de não terem sido fundamentais para a vitória aliada, até pelo número bastante reduzido do contingente brasileiro, frente aos milhões de europeus, russos e americanos, os pracinhas exerceram grandes conquistas na guerra, e lutaram bravamente. O desempenho das tropas brasileiras foi superior à média de outras nações. A divisão brasileira passou 239 dias seguidos na linha de frente, sem trégua. Como ilustra o canal Sala de Guerra, das 44 divisões americanas, apenas 12 permaneceram na linha de frente por um tempo maior.

Camaiore, Monte Prano, Barga, Monte Castelo, La Serra, Castelnuovo, Montese, Zocca, Marano su Panaro, Collechio e Fornovo di Taro: são essas as principais cidades tomadas pelos brasileiros nos 239 dias de luta.

O 1º grupo de caça brasileiro, o Senta a Pua!, teve apenas 5 mortes durante a Guerra. Com um desempenho também muito acima da média, são inspiradoras as histórias acontecidas, como a cinematográfica fuga do Tenente Danilo, que originou a clássica Ópera do Danilo. O dia de maior destaque para o grupo foi em 22 de abril, hoje, o Dia da Aviação de Caça. Foram realizadas 44 missões no mesmo dia, com 22 pilotos. Foi esse um dos únicos 3 grupos não americanos que em toda a guerra recebeu a condecoração americana Presidential Unit Citation.

Ao fim da guerra, as tropas brasileiras foram, inclusive, convidados para uma ocupação da Áustria. O convite, no entanto, foi negado por diversos motivos políticos.

Notas:

  1. Vale lembrar que esse texto trata-se de um resumo superficial. Detalhes foram ignorados ou simplificados com o objetivo de fazer uma condensação da história.
  2. Agradecimentos à Isalete Leal, que nos deu grande atenção no andamento das pesquisas, e ao sr. Francisco, um bravo herói brasileiro.

Referências:

  1. BARONE, João. “1942: O Brasil e sua guerra quase desconhecida”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.
  2. BERNARDO, André. “O soldado que transformou em música uma batalha histórica para o Brasil na 2ª Guerra”; BBC. Acesso em: 20 fev. 2020.
  3. Exército Brasileiro. “Na II Guerra Mundial”. Acesso em: 20 fev. 2020.
  4. LEAL, Maria Isalete B. “Histórias de um Pracinha da Segunda Guerra Mundial”. 1º ed., 2012.
  5. Revista Brasileira de História Militar. Ano II – Nº 05. Agosto 2011.
  6. ROSAS, Frederico. “A aventura dos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial”; El País. Acesso em: 20 fev. 2020.
  7. Sala de Guerra. “Medalha da Vitória: Dois Guerreiros, uma Medalha”. Acesso em: 01 mar. 2020.