(Créditos da imagem: Reprodução).

Recentemente, o MEC realizou cortes nas verbas de todas as universidades federais, sob a justificativa de “pausar” obras inúteis. Agora, as universidades sofrem com o repentino corte. Essa justificativa do MEC, um tanto intervencionista, no entanto, não se sustenta.

A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) se mantém, desde 2017, como a melhor universidade da América Latina, pelo ranking Times Higher Education, desde que ultrapassou a USP, que permanece em segundo lugar desde então. O que essas duas gigantes universidades paulistas possuem em comum? Autonomia, garantida às universidades estaduais de São Paulo por um decreto do então governador Orestes Quércia, em 1989, há 30 anos.

Na edição de maio da revista Pesquisa Fapesp, Marcelo Knobel, reitor da Unicamp e recém eleito presidente do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), marcou presença em uma entrevista. Respondendo à pergunta “Qual o saldo dos 30 anos de autonomia?”, Knobel disse que “em todos os setores as estaduais progrediram e isso ocorreu principalmente graças à autonomia”.

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Ele utiliza como exemplo os hospitais mantidos pela universidade: “Na Unicamp, por exemplo, temos um complexo de cinco hospitais que atende mais de 6 milhões de pessoas na Região Metropolitana de Campinas”.

A Unicamp e a USP possuem ótimas relações com o setor produtivo. Em 2017, contratos originados a partir de patentes da universidade (a Unicamp está entre os maiores geradores de patentes do Brasil), geraram R$ 1,34 milhão em Royalties. No mesmo ano, a USP conseguiu quase R$ 2,5 milhões em Royalties.

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Algumas universidades federais se aproximaram muito em número de patentes registradas, nesse mesmo ano. 77 patentes registradas pela Unicamp, 70 pela UFCG, 69 pela UFMG e 66 da UFPB.

A Unicamp também se destaca em suas formas de ingresso. A partir de 2020, o álbum “Sobrevivendo no Inferno”, do grupo Racionais MC’s, está na lista de leitura obrigatória do vestibular da Unicamp. Em 2019 já ingressaram na universidade, estudantes que se destacaram em olimpíadas, como a OBMEP, OBM, OBQ etc.

Knobel considera que as universidades brasileiras correm perigo porque “há ameaças à autonomia, à liberdade de cátedra e ao modelo de universidade pública consolidado no país”. O reitor também acrescenta que “Estamos vivendo um momento de polarização extrema e muitas decisões se baseiam em questões ideológicas”.

Vale lembrar que no Brasil, 95% da produção científica nacional é feita por universidades públicas e institutos públicos de pesquisa, sejam federais, sejam estaduais. Aliado ao congelamento de quase metade da verba destinada ao MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações), o que ocorre é extremamente preocupante. Nos países sérios, os investimentos em ciência são elevados em momentos de crise.

Segundo o PNAD Contínua 2017, do IBGE, cerca de apenas 15,7% da população contava com o ensino superior completo, ou seja, a maior parte da população não sabe exatamente o que ocorre nas universidades. A comunidade acadêmica também assume que há uma falta de comunicação com a sociedade, como diz Knobel para a Pesquisa Fapesp: “As universidades têm um problema de comunicação e não estão sabendo levar à população e aos políticos a importância das ações que desenvolvem utilizando recursos da sociedade”.

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Para que as universidades voem é necessário dar-lhe asas. As três universidades estaduais paulistas (Unicamp, USP e Unesp), correspondem juntas por 35% da produção científica nacional, e elas possuem grande autonomia, além de estabilidade financeira garantida por lei. O estado de São Paulo também possui a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que também possui grande autonomia e uma verba que não pode ser diminuída, por lei.

A comunidade acadêmica já está se movendo, frente ao descaso que a ciência sofre no Brasil. O CRUESP (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas), redigiu uma carta em apoio aos movimentos em defesa à ciência. A USP e a UFMG já organizaram marchas pela ciência. A UFMG também organizou uma frente parlamentar em defesa da ciência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Várias universidades federais temem fechar as portas nesses próximos meses por falta de recursos. A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que também financia pesquisas, após um corte de R$ 819 milhões, já anunciou que vai ter que congelar várias bolsas de pós-graduação e que outros programas serão afetados, como o Idioma Sem Fronteiras, que será encerrado. O discurso do governo para essas inexplicáveis medidas era de priorizar a educação básica, mas ela também está sendo afetada.

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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

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