Torres de telecomunicações. (Créditos da imagem: Freepik Premium).

Você deve ter visto recentemente as polêmicas do 5G, sucessor do 4G, envolvendo a Huawei, empresa chinesa de smartphones e de redes de telecomunicações — a maior fabricante desses ramos em todo o mundo, mas não tão conhecida aqui, por não ser tão presente no Brasil. Inicialmente, as brigas se iniciaram entre Estados Unidos e Huawei, e agora a Inglaterra também entrou na jogada. 

Embora os brasileiros não estejam muito dentro do assunto, os gringos estão em debates acalorados quanto ao 5G. Os Estados Unidos estão com muito medo de espionagem e dominação chinesa, e aparentemente isso está se estendendo para os outros países ocidentais. Muita teoria da conspiração também está surgindo — pasmem, tem gente que falou que o coronavírus é na verdade o 5G causando a doença. Afinal, é que é o 5G e por que está todo mundo brigando por ele?

Os boicotes dos Estados Unidos à Huawei já se iniciaram há alguns anos, já que o governo do país considerou que a empresa era próxima demais do governo chinês, e poderia utilizar sua gigante infraestrutura na espionagem. Esse medo só se elevou com o 5G. Vamos entender melhor esta história.

Tecnologias de internet móvel

Talvez você se lembre dos primórdios do 3G no Brasil,  época em que os brasileiros ainda utilizavam celulares de botão e nem sabiam navegar pela internet móvel. Quando a era do smartphone chegou, o 3G ainda era a internet móvel da vez, com uma velocidade não tão alta, mas que foi aos poucos melhorando, até se tornar, em um certo nível, minimamente aceitável. Agora, predomina o 4G, que pode até mesmo superar a sua banda larga em velocidade.

Esses números seguidos do G nada mais são do que diferentes tecnologias de telefonia móvel. O primeiro de todos é o 1G, que se popularizou pela década de 80 e era mais utilizado para ligações. O 2G, que se espalhou a partir da década de 1990, entregava uma velocidade ainda muito baixa, mas era o normal da época, e trouxe como novidades os SMS. E assim progridem as tecnologias de telefonia móvel.

Entre si, elas diferem nas frequências operadas e também na infraestrutura. Cada vez que uma tecnologia muda, a infraestrutura precisa ser substituída, ou pelo menos reformada para suportar os novos tráfegos e as novas velocidades. No Brasil, desde os últimos anos, quase todo o território possui cobertura 4G, processo que se iniciou em 2012 no país, e que foi acelerado nas cidades que sediaram a  copa do mundo de 2014.

Revolução no tráfego de dados

Você pode estar se perguntando: se é apenas uma geração da tecnologia se tráfego de dados mais rápida, por que há tanta polêmica? O problema desta nova geração é que ela é revolucionária — o que não é exatamente um problema, já que a internet mais veloz nos beneficiaria enormemente.

Por utilizar uma frequência mais alta dos que as gerações anteriores, o 5G tem uma maior capacidade de tráfego e de velocidade, o que garante muito mais estabilidade, principalmente quando há muito aparelhos conectados. Isso é uma grande vantagem quando se considera a automatização de absolutamente tudo ao nosso redor, como os carros autônomos e a internet das coisas. É possível acessar o Twitter por meio de sua geladeira.

O 4G foi a tecnologia que nos permitiu a utilização de serviços que acabaram se tornando essenciais, como Uber, Ifood e Waze, por exemplo. O 5G pode nos trazer novas novidades que nem conseguimos imaginar no momento. Ele pode ser até 100 vezes mais rápido do que o 4G e enviar dados a uma velocidade de 1,5 GB por segundo — e você acha sua internet de 100 megabits por segundo rápida.

O único problema disso tudo é o tamanho da infraestrutura necessária. Enquanto o rádio não carrega quase nada de informações, mas pode chegar muito longe, o 5G carrega muita informação mas não é capaz de ir tão longe. Quando maior a frequência, mais difícil é de atravessar obstáculos, como paredes, árvores e pessoas. A transição total provavelmente será bastante longa.

Por ser uma empresa tão grande, a Huawei lidera os esforços pelas instalações de novas redes 5G no mundo — além de ter uma enorme rede de outras frequências. A briga já vem de anos, então a ideia principal, é aproveitar o período de transição para expulsar a empresa, e já entraram na briga os Estados Unidos, a Austrália, e a polêmica mais recente ocorreu com o Reino Unido expulsando a empresa — que foi inclusive ameaçado pela China.

O 5G é perigoso? 

Ok, no âmbito político, existe o medo de espionagem, por questões econômicas, militares e governamentais das principais potências do tabuleiro político mundial. Mas há, também, como já destacado, o medo dos efeitos na saúde, medo tal que já chegou a causar destruição e queimas de antenas e infraestrutura do 5G nos Estados Unidos e na Europa, como forma de protesto contra esta nova tecnologia. Afinal, o 5G realmente faz mal?

Vamos, antes, relembrar do artigo do Ciencianautas da série “Explicando o Universo” sobre a física quântica. Nele, citei brevemente o efeito fotoelétrico, que foi explicado por Einstein em 1905. O efeito fotoelétrico é a capacidade de determinadas frequência eletromagnéticas de retirar elétrons da eletrosfera dos átomos — é desse fenômeno que utilizamos nas placas solares fotovoltaicas, por exemplo.

Este tipo de radiação, chamamos de radiação ionizante, pois ela transforma átomos em íons, que são átomos com uma carga elétrica desbalanceada — mais positiva, no caso, já que ele perdeu elétrons. Entretanto, não é toda a radiação eletromagnética que causa isso. As ondas ionizantes são as ondas a partir da luz ultravioleta — a mesma que no faz passar o protetor solar para evitar o câncer de pele.

O câncer, nada mais é, do que uma mutação no DNA. Ele pode ocorrer naturalmente, pelo acaso, ou por alguma substância, como o cigarro (cuja radiação é extremamente prejudicial), ou por meio de radiações externas, como um técnico de raios-X ou alguém se expõe demais ao Sol, já que a luz ultravioleta é ionizante. Nesse caso, a mutação ocorre quando a luz retira elétrons dos nossos átomos.

Entretanto, o efeito fotoelétrico possui uma barreira — por causa dela que só essas ondas mais energéticas podem fazer isso. O elétron só absorve a energia se ela for extremamente alta — maior do que a ultravioleta. Vejamos o gráfico abaixo, que demonstra as diferentes frequências eletromagnéticas e ao que cada uma delas corresponde:

(Créditos da imagem: Wikimedia Commons).

Para todas as ondas de menor frequência, portanto a luz visível, a luz infravermelha e as microondas e as ondas de rádio, não há evidências científicas convincentes de que façam mal, no sentido de ionização. É claro, que um forno microondas poderia te cozer, se você estivesse dentro de um ambiente fechado, com a fonte ao seu lado e que produzisse uma grande quantidade dessas ondas – que não é o caso dos sinais de celular.

Tanto para o 4G, quando para o 5G e o wifi que você utiliza em sua casa, usa-se os sinais de microondas, e é óbvio que eles não te cozinham – o aumento de temperatura é irrelevante -, muito menos causam câncer. As frequências utilizadas por eles, são milhares de vezes menores do que as frequências da luz visível, então você não precisa se preocupar, pois o coronavírus não é causado pelo 5G, muito menos o câncer.

O medo da tecnologia não é algo novo, e sempre que uma nova tecnologia surge, as conspirações ressurgem junto. O ser humano tem muito medo do novo, do desconhecido. Em breve essa polêmica com o 5G chegará ao Brasil, então esteja informado para não cair nesse tipo de falácia. 

Referências:

  1. BBC. “5G judged safe by scientists but faces tougher radiation rules”. Acesso em: 17 jul. 2020.
  2. BBC. “Does 5G pose health risks?”. Acesso em: 17 jul. 2020.
  3. IBM. “The 5G Revolution”. Acesso em: 17 jul. 2020.
  4. Nature. “What 5G means for our health”. Acesso em: 17 jul. 2020.
  5. The Atlantic. “Something in the Air”. Acesso em: 17 jul. 2020.
  6. WHO (OMS). “5G mobile networks and health”. Acesso em: 17 jul. 2020.
  7. WHO. “Ionizing radiation, health effects and protective measures”. Acesso em: 17 jul. 2020.