Astronauta Chris Cassidy em uma caminhada espaical em 2013. (Créditos da imagem: NASA).

O espaço é um vácuo quase perfeito – mas nosso corpo serve para habitar a Terra, com a atmosfera a essa pressão, temperatura, proteção da radiação etc. Justamento por isso os astronautas utilizam aquele traje gigante, ao invés de utilizar apenas uma máscara de oxigênio, o que seria muito mais barato. No entanto, rola um mito pela internet de que, ao ser exposto ao vácuo, um corpo humano explodiria, ou algo assim. Mas sabemos que isso não é verdade. Então, o que acontece com um corpo humano exposto ao vácuo?

Mesmo dentro da Estação Espacial Internacional (ISS), e trajes espaciais, ao sair da estação, os astronautas sofrem efeitos. Dentre problemas na visão, mudanças físicas no cérebro, problemas na coluna, além de perda de massa óssea e outros diversos problemas de saúde relacionados à microgravidade e à alta exposição à radiação. No entanto, uma pessoa sem proteção alguma está ainda mais exposta – e os problemas são piores ainda.

Ah, e vale lembrar que neste texto ignorarei os efeitos da radiação e da microgravidade. No momento, trataremos apenas sobre à exposição específica ao vácuo.

LEIA TAMBÉM: O espaço pode deixá-lo cego, e os cientistas podem ter encontrado o porquê

Testes e mais testes

No período pós-Segunda Guerra Mundial, diversos países, com destaque para Estados Unidos e União Soviética, voltaram seus olhos para o espaço. Ambos se beneficiaram grandemente com a captura de cientistas alemães, além de documentos e estudos feitos pelos nazistas, com a rendição do país. É a partir de então que inicia-se na nova era.

Em 1961, o cosmonauta soviético Iuri Gagarin tornava-se a primeira pessoa a chegar ao espaço. No entanto, isso era uma tremenda novidade, e é claro que não o enviaram às cegas. Infelizmente, muitos animais foram enviados ao espaço, como forma de experimento, entre as décadas de 1950 e 1960. Entre cães, gatos, macacos e insetos, tanto os Estados Unidos quanto os soviéticos, usaram e abusaram dos animais – experimentos, em sua maioria, extremamente desumanos. 

Com os animais, então, os cientistas testaram os equipamentos de pressurização, analisar os efeitos da exposição à radiação, os efeitos da microgravidade e os efeitos da alta carga de força na reentrada da atmosfera. Isso provou que era, de fato, possível enviar um humano ao espaço. E a partir de então, iniciaram-se os testes com humanos em solo. Mas o mundo do século XX era completamente diferente, e padrões de seguranças mal existiam. Portanto indicava a possibilidade de acidentes – e muito do que sabemos é devido aos acidentes.

Evaporação de saliva e desmaios

Em 1961, o presidente americano John F. Kennedy prometeu que os americanos chegariam à Lua até o final da década. Eles estavam muito atrás dos soviéticos, mas conseguiram chegar antes à Lua, em 1969. No entanto, para isso, a década de 1960 foi uma grande corrida contra o tempo.

Em 1965, Jim LeBlanc participava de testes com um traje espacial de uma câmara de vácuo da NASA. Mas a cobaia não deu muita sorte. Ao decorrer do teste, uma mangueira que fornecia oxigênio de soltou, e  expôs LeBlanc ao vácuo por 30 segundos. Por sorte, a equipe resgatou LeBlanc a tempo,  e ele não sofreu nenhum dano permanente pelo vácuo. 

LeBlanc desmaia. (Créditos da imagem: Reprodução).

Em 15 segundos, a pessoa perde a consciência. Antes disso, as poucas pessoas já expostas ao vácuo relatam que pela falta de pressão, sua saliva passa a borbulhar, já que o ponto de ebulição da água diminui de acordo com a diminuição da pressão no ar. Em cima de uma montanha, por exemplo, a água ferve a menos de cem graus. Numa câmara de vácuo, muito abaixo disso.

LEIA TAMBÉM: Como os voos espaciais de longo prazo podem ser prejudiciais à visão dos astronautas

Após 30 segundos exposto ao vácuo, chega o momento em que a parte interna de seu corpo sofre com o vácuo – insuficiência cardíaca e falta de oxigênio. Foi quase nesse ponto que conseguiram resgatar LeBlanc, já que antes de abrir as portas, é necessário pressurizar a câmara novamente. 

90 segundos exposto ao vácuo, chega o momento da morte.

O corpo humano exposto ao vácuo explode?

Um dos mitos que circulam entre o conhecimento popular é o de que o corpo humano explode no vácuo. Mas na verdade não. Como vimos, o ponto de evaporação dos materiais diminuem com a diminuição da pressão. Dessa forma, a água, o sangue e os gases de dentro do corpo se expandem. Isso causa inchaços, mas não uma explosão. 

Joseph Kittinger salta de um balão na estratosfera. (Créditos da imagem: U.S. Air Force / Volkmar Wentzel).

“Demorou uma hora e meia para chegar à altitude. Estava frio. A 40.000 pés, a luva da minha mão direita não tinha inflado. Eu sabia que se falasse com meu médico, ele abortaria o vôo. Se isso acontecesse, eu sabia que nunca teria outra chance, porque muitas pessoas não queriam que esse teste acontecesse. Corri um risco calculado, de perder o uso da mão direita”, conforme conta em entrevista à Forbes Joseph Kittinger. 

Kittinger foi  o precursor dos saltos a partir da estratosfera, hoje um esporte. Por um erro, sua luva não pressurizou e sua mão inchou, atingindo duas vezes o tamanho normal. Isso ocorreu porque como não havia a pressão da atmosfera, o ar interno exerceu muita pressão dentro do corpo dele. O ar pressurizado se dissolve nos líquidos e cria bolhas. Foi esse o motivo que causou o inchaço na mão de Kittinger. Mas ocorreu tudo bem. Após desafiar a morte por diversas vezes nesses saltos, o piloto exerceu uma extrema importância na compreensão da exposição ao espaço e à microgravidade, permitindo o desenvolvimento de diversas tecnologias para a segurança dos astronautas.

Referências:

  1. CLASH, Jim. “Meet Joe Kittinger, The First Man To Kiss The Sky”; Forbes. Acesso em: 05 nov. 2020.
  2. STARR, Michelle. “What happens to the unprotected human body in space?”; Cnet. Acesso em: 05 nov. 2020.
  3. THOMPSON, Avery. “The Time a NASA Experiment Gone Wrong Almost Killed Someone”; Popular Mechanics. Acesso em: 05 nov. 2020.

Avatar
Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pela divulgação científica. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente curso Física na UFScar e escrevo para o Ciencianautas.