(Créditos da imagem: Freepik Premium)

Se um poder divino realmente existe ou não pode até ser uma questão de opinião, mas os efeitos neurofisiológicos da crença religiosa são fatos científicos que podem ser medidos com precisão. Aqui, nós demos uma olhada em alguns desses efeitos, tal como mostram as pesquisas mais recentes. Se você é um ateu convicto, um agnóstico reservado ou um crente devoto, você provavelmente vai achar os efeitos da religião sobre o cérebro humano incríveis.

De Ana Sandoiu para o Medicine News Today.
Fatos checados por Jasmin Collier.

A crença religiosa pode aumentar a nossa longevidade e nos ajudar a lidar com doenças.  Pesquisas no campo da “neuroteologia” — ou a neurociência da crença teológica — tem feito algumas descobertas que poderão mudar a nossa maneira de pensar sobre a espiritualidade. Por exemplo, alguns cientistas sugerem que a experiência religiosa ativa os mesmos circuitos cerebrais que o sexo e as drogas. Outras pesquisas sugerem que danos a certas regiões cerebrais podem fazer você se sentir como se houvesse alguém por perto quando, na verdade, não há ninguém. Esses achados têm implicações intrigantes sobre como a religião afeta a saúde, e vice-versa. 

Além disso, se existe uma neurobiologia subjacente às experiências religiosas, poderíamos recriar essas experiências artificialmente? Se uma experiência divina é biologicamente pré-determinada, ter a informação científica certa nos permite criar a ilusão de deus? 

Abaixo, daremos uma olhada em algumas dessas questões. Enquanto pesquisadores podem não ter todas as respostas ainda, peças do quebra-cabeça estão se unindo para formar uma imagem científica muito diferente daquela que nós encontramos nos livros sagrados. 

Religiões diferentes têm efeitos diferentes 

O Dr. Andrew Newberg, que é professor de neurociência e diretor do Instituto Marcus de Pesquisa de Saúde Integrada no Hospital e Universidade Thomas Jefferson, em Villanova, Pensilvânia, explica que práticas religiosas diferentes têm efeitos diferentes sobre o cérebro. Especificamente, religiões diferentes ativam regiões cerebrais de formas diferentes. 

A parte frontal do cérebro (mostrada aqui em vermelho) é mais ativa durante a meditação. (Créditos da imagem: Andrew Newberg).

O pesquisador, que literalmente “escreveu o livro” em neuroteologia, mostra a partir de seus inúmeros estudos que budistas que meditam e freiras católicas, por exemplo, têm a atividade dos lobos frontais aumentada. Essas áreas estão relacionadas com o aumento da atenção focada, habilidades de planejamento, capacidade de antecipar o futuro e a habilidade de construir argumentos complexos. 

Além disso, tanto a oração quanto a meditação se correlacionam com a diminuição da atividade dos lobos parietais, os quais são responsáveis por processar as orientações espacial e temporal. Freiras, contudo — que oram usando palavras em vez de depender de técnicas de visualização usadas durante a meditação —, têm aumentada a atividade de suas áreas subparietais, as quais se relacionam à linguagem. 

Mas outras práticas religiosas podem ter o efeito oposto nas mesmas áreas cerebrais. Por exemplo, um dos mais recentes estudos em coautoria do Dr. Newberg mostra que, durante uma oração islâmica intensa — “que é, em seu conceito mais fundamental, a entrega de si mesmo a Deus” —, a atividade dos lobos frontais (especialmente de sua região mais anterior e superficial, o córtex pré-frontal) e parietais são reduzidas. O córtex pré-frontal é tradicionalmente entendido como estando envolvido com o comportamento intencional e com a tomada de decisão.

Religião é como “sexo, drogas e rock’n’roll” 

Um estudo recente encontrou que a religião ativa os mesmos circuitos cerebrais relacionados com a recompensa que ativam o sexo, as drogas e outras atividades viciantes. Pesquisadores liderados por Jeff Anderson — doutor pela Universidade de Utah, em Salt Lake City — examinaram o cérebro de 19 mórmons jovens usando um scanner de imageamento por ressonância magnética (IRM). Quando questionados se, e em que medida, os participantes estavam “sentindo o espírito”, aqueles que reportaram as sensações espirituais mais intensas apresentaram atividade aumentada nos núcleos acumbentes, bem como nos córtices pré-frontais atencionais [sic] e ventromediais. 

Essas áreas cerebrais relacionadas com o prazer (ou recompensas) são também ativadas quando nós nos envolvemos em atividades sexuais, ao ouvirmos música, jogarmos e usarmos drogas. Os participantes também relataram sensações de paz e de calor físico.

“Quando nossos participantes foram instruídos a pensar sobre um salvador, sobre estar com seus familiares pela eternidade, sobre suas recompensas celestiais, seus cérebros e corpos responderam fisicamente”, disse o primeiro autor do estudo, Michael Ferguson. 

Esses achados ecoam aqueles velhos estudos que encontraram que o envolvimento em práticas espirituais aumenta os níveis de serotonina, o neurotransmissor da “felicidade”, e de endorfinas, moléculas que induzem euforia e que são conhecidas como a “morfina endógena”. Esses efeitos neurofisiológicos da religião parecem dar um novo significado ao ditado “a religião é o ópio do povo”. 

Experiências fora do corpo estão dentro do seu corpo

Alguns avanços recentes em técnicas de neuroimagem nos permitem entender como os nossos cérebros “criam” uma experiência mística ou espiritual. O que causa a sensação de que mais alguém está presente numa sala? O que causa a sensação de que saímos dos nossos corpos e fomos para outra dimensão?

“Nos últimos anos”, afirmou o Dr. Anderson, “técnicas de imageamento cerebral têm se desenvolvido e nos permitido abordar questões que existem por milênios”. O professor James Giordano, do Centro Médico Universitário Georgetown, em Washington, Distrito de Colúmbia, concordou: “Nós somos capazes de compreender quando uma pessoa fica em ‘modo êxtase’”, disse ele, e também de identificar áreas cerebrais específicas que participam desse processo. “Quando a atividade de redes do córtex parietal superior ou do nosso córtex pré-frontal aumenta ou diminui, nossos limites corporais mudam”, explicou Giordano. 

“Essas partes do cérebro controlam nosso senso de ‘eu’ em relação a outros objetos no mundo, bem como nossa integridade corporal; daí as sensações ou percepções de ‘fora do corpo’ e ‘eu estendido’ que muitas pessoas que tiveram experiências místicas admitem ter”, acrescentou. 

“Se ‘seres’ fizerem parte da experiência mística”, o professor Giordano prosseguiu, “nós podemos dizer que a atividade dos lobos temporais esquerdo e direito (central e inferiormente) mudou”. Os estudos do Dr. Newberg encontraram também baixa atividade nos lobos parietais durante a execução de orações.

Podemos “criar” Deus sob demanda?

Uma vez que as raízes neurológicas das experiências religiosas podem ser traçadas com técnicas neurocientíficas, isso significa que podemos — em princípio — “criar” essas experiências sob demanda? 

A atividade diminuída nos lobos parietais durante a meditação é mostrada aqui em amarelo. (Créditos da imagem: Andrew Newberg).

Essa questão não é só teórica, pois na década de 90, o Dr. Michael Persinger — o diretor do Departamento de Neurociência da Universidade de Ontario, Canadá — criou o que veio a ser chamado de “Capacete de Deus”. Esse é um dispositivo que simula experiências religiosas ao estimular os lobos parietais e temporais das pessoas usando campos magnéticos. Nesses experimentos, cerca de 20 pessoas — ou mais ou menos 1% dos participantes — relataram ter sentido a presença de Deus ou visto Ele na sala enquanto usavam o dispositivo. Contudo, 80% dos participantes sentiram algum tipo de presença, mas relutaram em chamar isso de “Deus”. 

“Se o equipamento e o experimento produziram a presença de Deus, então as características extrapessoais, inalcançáveis e independentes da definição de Deus podem ser desafiadas”, disse o Dr. Michael Persinger.

Nós perguntamos ao Dr. Newberg o que ele pensa sobre essas tentativas de induzir experiências religiosas. “Nós temos que ser cautelosos sobre quão similar essas experiências são”, advertiu ele.

Contudo, ele prosseguiu, os humanos têm historicamente encontrado várias formas de evocar experiências religiosas, de meditação e oração até o uso de substâncias que podem induzir experiências psicodélicas — as quais são “percebidas como sendo tão espirituais e reais quanto ‘experiências naturais’”. Então, se isso é psicodélico ou o Capacete de Deus, “na medida em que nós desenvolvermos uma compreensão mais detalhada dessas técnicas e de seus efeitos, nós poderemos descobrir como melhorar esses efeitos”, disse o Dr. Newberg.

O futuro da neuroteologia e da religião

Enquanto isso, os neurocientistas continuam a trabalhar duro a fim de compreender o que acontece no cérebro religioso. “A despeito de como a neuroteologia tem crescido, nós estamos realmente só arranhando sua superfície”, disse o Dr. Newberg. Ele compartilhou conosco algumas possíveis direções de evolução da área, dizendo que “a Neuroteologia pode explorar como a religião e a espiritualidade afetam as saúdes física e mental em termos de crenças e práticas”. Além do mais, a neuroteologia é capaz de “contribuir para o desenvolvimento de abordagens terapêuticas que ajudariam pessoas com várias condições neurológicas e psiquiátricas”. Finalmente, as neurociências poderão prover respostas às “antigas questões epistemológicas sobre a natureza da realidade”, a consciência e a espiritualidade. 

Até nós conseguirmos essas respostas, contudo, a religião provavelmente não irá a lugar algum. Nossa arquitetura cerebral não nos permite, diz o Dr. Newberg, e a religião preenche várias “necessidades” que o cérebro humano foi moldado para ter. 

“Eu diria que até nossos cérebros serem submetidos a uma mudança fundamental, a religião e a espiritualidade vão estão conosco por um longo tempo”, afirmou o Dr. Andrew Newberg.