Pintura A Conspiracy, por John Tenniel, 1850. (Créditos da imagem: Reprodução).

A história foi muitas vezes marcada por períodos de epidemias, com fatalidades em massa que por vezes chegaram a níveis mundiais, tornando-se pandemias. No entanto, possuímos métodos para imunizar uma população inteira contra agentes de doenças, como a vacinação. No caso do coronavírus, a vacina não está pronta, mas há uma frenética corrida em busca dela.

As primeiras práticas que remontam a um uso parecido com a da vacina moderna se datam à China do século X, chamada variolação, pois visava imunizar as pessoas da varíola. A primeira vacina propriamente dita foi desenvolvida pelo inglês Edward Jenner, quando descobriu uma forma de se imunizar as pessoas da varíola introduzindo uma versão menos letal e perigosa do vírus. Ao notar que pessoas que ordenhavam vacas não contraíam a varíola, através de investigações, Jenner descobriu que essas pessoas entravam em contato com uma versão diferente – mais fraca – do vírus da varíola. O que as imunizava.

É através disso que Jenner, em 1796 desenvolve uma vacina. Utilizando como cobaia James Phipps, um garoto de oito anos, o médico o inocula com o pus de uma lesão causada por varíola em uma vaca leiteira. Ao expor ao vírus de um paciente em estado grave, o garoto não contraía a doença. Mais tarde, outros cientistas como Pasteur também contribuíram com o desenvolvimento da vacina moderna.

Neste experimento desumano, em 1901, dois garotos foram infectados com a varíola, mas apenas um deles estava vacinado.

Desde então, as vacinas são um dos principais métodos de manutenção de saúde pública, pois são a forma mais eficaz de se previnir doenças. Uma das mais importantes é a tríplice viral (MMR), que combate o Sarampo, a Caxumba e a Rubéola. Infelizmente, séculos depois dessa grande descoberta que mudou o mundo, grupos se posicionam contra o uso de vacinas e dividem uma série de desculpas e motivos para isso, sendo um sério risco para o futuro da humanidade.

Academia e movimentos antivacina

No final da década de 1990, o médico inglês Andrew Wakefield publicou artigos relacionando a tríplice viral com o autismo e problemas intestinais em crianças. No entanto, pouco tempo depois foi provado fraude e o médico foi desmentido. Após encontradas as fraudes, Wakefield teve sua licença cassada em 2010 pelo General Medical Council (GMC), do Reino Unido, e não pode, a partir de então, exercer a profissão de médico.

Apesar dos esforços para minimizar os efeitos dessa mentira, como um estudo realizado com mais de seiscentas e cinquenta mil crianças que não encontrou nenhuma ligação entre a MMR e o autismo, a falácia deu mais força aos movimentos anti-vacinas, que estão causando grande confusão no mundo. No início de 2019, a OMS chegou a declarar o movimento antivacina como um dos 10 maiores desafios para a saúde pública.

Recentemente, a Amazon foi alvo de críticas e polêmicas por hospedar documentários anti-vacinas no Amazon Prime Video. O estopim foi o “Vaxxed”, dirigido por Andrew Wakefield. Rapidamente esses documentários foram removidos da plataforma.

Meio de propagação do movimento

O principal meio que grupos antivacina usam para difundir suas ideias é a Internet. O meio virtual foi o ambiente perfeito para o grande aumento de influência desses grupos, já que ele proporciona que qualquer pessoa, até mesmo sem nenhum conhecimento em determinada área, tenha o mesmo poder de fala e espaço que um renomado profissional, assim aproximando discursos sem embasamento nenhum de fatos científicos já comprovados.

De fato, existem alguns efeitos colaterais das vacinas, como a febre em no máximo 15% das vacinas e a erupção cutânea em 2 a 5%. Efeitos mais graves são raros, como anafilaxia, que pode ocorrer em apenas 3,5 a 10 casos por milhão, ou seja, 0,00035 a 0,001%, ou encefalite, que é de 0,0001%, os quais não são exclusivamente fatais e podem ser tratados. Entretanto, são diversas as teorias da conspiração em torno das vacinas, que foram muito além das supostas ligações com o autismo, e as fake news são o principal meio de propagação do discurso antivacina.

Segundo constatado pelo estudo “As fake news estão nos deixando doentes?”, feito pelo IBOPE sob encomenda da ONG Avaaz e a SBIm, 67% dos entrevistados consideraram verídicas pelo menos uma das informações falsas sobre vacinas apresentadas.

O mesmo estudo verificou que a maior parte das notícias anti vaxx coletadas foram traduzidas de portais dos Estados Unidos, grande parte dos quais, do site Natural News, um dos principais da rede. Nota-se, portanto, que a atividade é bastante centralizada.

Além disso, muitas redes sociais impulsionam conteúdos conspiracionistas. Para elas, é mais lucrativo que o usuário permaneça mais tempo conectado, assim, recomenda-se conteúdos cada vez mais alienantes e absurdos, de forma a atender as opiniões das diferentes bolhas.

O YouTube é um exemplo de como uma rede social pode contribuir para a ascensão de grupos conspiracionistas. O site dispõe de uma aba de recomendados, onde ocasionalmente são apresentados para os usuários canais de conteúdo duvidoso e não confiável, em detrimento de canais sérios que disponibilizam e democratizam o conhecimento científico, a depender do gosto do usuário. As recomendações são feitas por algoritmos e sem nenhum senso, apenas com o objetivo de fazer o usuário continuar na plataforma.

Por exemplo, agora durante a pandemia, diversos grupos pela Europa queimaram antenas de 5G por considerar que era o 5G o responsável pelos efeitos da doença, e não de fato um vírus.

O poder das fake news pela interpretação tendenciosa

Um estudo do MIT mostrou que as notícias falsas possuem 70% a mais de probabilidade de serem compartilhadas do que notícias verdadeiras. Isso se deve a diversos fatores diferentes.

(Créditos da imagem: Picpedia.org)

Brock e Baullon abordam em uma pesquisa com estudantes, utilizando áudios de ligação ou contestação de ligações do tabagismo ao câncer de pulmão, a tendência das pessoas de observar melhor e acatar discursos que comprovem suas convicções prévias, um fenômeno que pode ser atribuído ao viés de confirmação, que envolve também uma interpretação tendenciosa dos dados apresentados, como demonstrado por Lord, Ross e Lepper, de Stanford em um estudo em que eram apresentados a voluntários descrições de estudos fictícios sobre a pena de morte. Havia uma tendência, por parte dos voluntários de se valorizar mais as descrições iguais às próprias opiniões e a presença de ceticismo apenas nos enunciados contrários.

O massacre de Sabra e Chatila foi alvo de um estudo, ainda na época do ocorrido. Vallone, Ross e Lepper apresentam o chamado Efeito da Mídia Hostil. O estudo demonstrou que cada povo, hebreu, palestino, ou terceiros possuía uma opinião diferente sobre as notícias. As mesmas notícias eram vistas como perseguição e pró-árabe pelos hebreus, neutras para outros povos, ou pró-israel pelos palestinos.

Scott Plous demonstra em seu livro “The Psychology of Judgment And Decision Making” que contexto exerce uma grande influência na resposta das pessoas quando deparadas com questionamentos (PLOUS, 1993, McGraw-Hill, Inc. P. 38-40). Essa influência é ainda mais notável quando a pessoa é leiga no assunto, e consegue construir apenas uma pseudo-opinião (SMITH, 1984). No entanto, essa crença não é rígida; é, na verdade, bastante plástica.

A abordagem ideal

Não, a ida à Lua não foi filmada em Hollywood por Kubrick. Parece um set porque é – Buzz Aldrin e Neil Armstrong praticando a coleta de rochas na Lua ainda na Terra, em 1969. (Créditos da imagem: NASA).

É por essa plasticidade que se faz necessária e possível uma nova proposta de abordagem dos movimentos antivacina. A abordagem atual é feita em um tom de desprezo, transformando-os em piada. Sabendo que viés confirmatório também implica na rejeição e efúgio de informações contraditórias, é fato que uma reforma é inevitável.

De certo modo, a mídia digital é a principal causadora do fortalecimento desses grupos, porém não é a única responsável. Tanto a mídia tradicional quanto o meio acadêmico tem suas parcelas de culpa, pela arrogância e elitismo empregados. Ademais, tratam do tema dos grupos antivacinação como grupos de pessoas “loucas” ou “burras”, muitas vezes com matérias sensacionalistas.

O Efeito da Mídia Hostil, identificado nas notícias massacre de Sabra e Chatila , por exemplo, mostra que uma abordagem minimamente agressiva por parte da mídia pode causar aos grupos uma sensação de perseguição. Para Barkun (2003, p. 3), “uma crença conspiratória é a crença de que uma organização composta de indivíduos ou grupos estava ou está agindo secretamente para atingir um fim malévolo”, o que apesar de parecer banal, pode fazer muito sentido em determinados contextos.

O documentário “A terra é plana” foi bastante elogiado por compreender os terraplanistas. Segundo Daniel J. Clark, diretor do filme, em entrevista à revista norte-americana Entertainment Weekly, “o primeiro passo é não ser condescendente e não depreciar nem menosprezar as pessoas cujas crenças, aos olhos da maioria das pessoas, estão erradas”.

Como abordado por Manuel Castells no livro “Redes de Indignação e Esperança: Movimentos Sociais na Era da Internet”, o movimento sócio-político Occupy, ocorrido entre os anos de 2011 e 2012, foi bastante criticado pela mídia tradicional e reprimido por forças policiais. Essa repressão passou a conferi-los maior empatia por parte da sociedade; ademais a falta de espaço dentro da mídia tradicional não os atrapalhou, já que puderam utilizar a internet para a comunicação de duas reivindicações (CASTELLS, 2012, p. 117 – 124).

Apesar do movimento não possuir caráter conspiracionista, pode-se traçar um paralelo entre o Occupy Movement e os movimentos antivacina. O chacote com os anti vaxx, além de ofendê-los, pode ser experienciado como uma perseguição, e acarretar em maior adesão ao movimento, promovendo-o maior força.

Há um famoso fenômeno conhecido como “Efeito Dr. Fox”; o efeito originou-se através de um experimento feito na Universidade do Sul da Califórnia. Um ator leigo no assunto abordado, conduziu uma palestra com o tema “Teoria Matemática dos Jogos Aplicada à Educação Médica”, utilizando de jargões técnicos e bom humor. Sua simpatia conseguiu convencer e envolver o público – formado por especialistas – de suas teses. Dessa circunstância podemos notar que que: I) estamos todos a mercê de crenças e discursos que não necessariamente façam sentido; II) uma abordagem não elitista e descontraída é bastante poderosa em gerar engajamento.

Os grupos antivacinação não se baseiam em dados ou pesquisas científicas. Pelo contrário, sustentam suas ideias a partir de teorias da conspiração. Consequentemente, os grupos se diferenciam muito e variam de acordo com alterações na retórica conspiracionista. Essa retórica é boa o suficiente para gerar o engajamento necessário.

O modo como a academia trabalha para demonstrar o seus resultados e seus projetos à sociedade é hoje ineficiente, visto que para a maior parte da população brasileira as universidades e institutos são realidades distantes e boa parte não entende o verdadeiro valor dessas instituições. Como consequência, grupos mais conservadores e radicais religiosos atacam as universidades e institutos federais, com discursos políticos polarizados, Ignorando completamente os reais valores das instituições de pesquisas para o mundo.

Referências:

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