Representação artística do LSD ligado a um receptor de serotonina. A forma como o LSD fica preso dentro do receptor pode explicar o porquê dos efeitos alucinógenos da droga duram tanto tempo.

Os efeitos alucinógenos do LSD (Lysergsäurediethylamid, em alemão) duram uma quantidade de tempo excepcionalmente longa: de 12 a 18 horas. Isso não é surpresa para os cientistas — ou para qualquer pessoa que tenha usado a droga. Essa duração — que é mais longa do que qualquer outro alucinógeno — deixou os cientistas intrigados desde que começaram a pesquisar intensamente a droga nos anos 60 e 70.

Em um novo estudo, os cientistas reivindicam ter encontrado o mecanismo chave atrás deste poder de permanência: uma vez ingerido, o LSD viaja nos receptores do cérebro onde fica preso em um bolso lateral. Esta nova compreensão, dizem eles, pode ajudá-los a desenvolverem medicamentos mais duradouros para tratar uma variedade de distúrbios psicológicos.

Quando os pesquisadores começaram a estudar o LSD, algo “tropeçou”: a meia-vida (a quantidade de tempo que uma droga pode ser encontrada no sangue de alguém) do LSD é de meia hora a uma hora. Mas os efeitos alucinógenos da droga continuam frequentemente por metade de um dia, e às vezes por muito mais tempo. Mesmo muito tempo depois que a droga pode ser detectada no corpo de uma pessoa, eles ainda eram capazes de sentir seus efeitos.

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Para descobrir isso, os cientistas usaram fotografias especiais — chamadas imagens de cristalografia — que mostram como os átomos estão dispostos dentro de uma molécula. Eles se concentraram em imagens de uma molécula de LSD dentro de um receptor de serotonina (estes receptores são encontrados em todo o cérebro e corpo, e criam efeitos alucinógenos quando se ligam ao LSD). As fotos mostraram que quando o LSD se liga à serotonina, ele fica preso dentro de um bolso interno dentro do receptor em um ângulo tão forte que, basicamente, não pode sair. Em seguida, a estrutura da proteína do receptor de serotonina dobra-se sobre a molécula de LSD, prensando-o ainda mais.

Isso explica alguns dos dados sobre o quão potente é a droga, diz Bryan Roth, um dos autores do estudo e professor de farmacologia na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

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Roth diz que a técnica de ligação é provavelmente única para o LSD, pois outros alucinógenos como a psilocibina e dimetiltriptamina (DMT) têm efeitos muito mais curtos sobre o corpo.

Roth e sua equipe planejam usar este novo conhecimento para potencialmente criar novos medicamentos para tratar a depressão, esquizofrenia e outros distúrbios psiquiátricos. Os fármacos utilizados para tratar estes distúrbios também funcionam interagindo com os receptores de serotonina. A ideia seria formular um fármaco que fica preso dentro de receptores de forma semelhante sem causar os mesmos efeitos alucinógenos.

Este efeito de ligação também poderia ser comum a outros receptores, abrindo a possibilidade de drogas que visam outras coisas além da serotonina. Além disso, “pode ​​até ser uma maneira de administrar drogas em doses muito baixas”, diz Roth. “Se as moléculas permanecem no receptor e não saem, então você pode precisar de muito menos deles para criar o efeito desejado”.

Roth diz que essa nova compreensão do LSD também pode ajudar a explicar as “aparentes maravilhas da micro-dose do LSD” — onde as pessoas afirmam que mesmo diminutos, quantidades indetectáveis ​​da droga proporciona um efeito tangível, impulsiona a criatividade e alivia a depressão (ainda não existem estudos baseados em evidências comprovando isso). Quando Roth e sua equipe expuseram as células em uma placa de Petri para pequenas quantidades de LSD, a sinalização dos receptores de serotonina foi alterada, significando que alguma mudança estava ocorrendo. Os pesquisadores planejam continuar a estudar esse efeito e o que ele significa.

Roth e sua equipe estão alvejando receptores múltiplos para tentar desenvolver medicamentos com esse novo conhecimento, mas estão focalizando primeiramente na esquizofrenia. Eles dizem que essas novas terapias poderiam começar a passar por testes iniciais no próximo ano.

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Adaptado de Claire Maldarelli para o Popular Science.

Referência:

  1. WACKER, Daniel et al. “Crystal structure of an LSD-bound human serotonin receptor”; Cell Press. Acesso em: 24 fev. 2017.
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Giovane Almeida
Sou baiano, tenho 18 anos e sou fascinado pelo Cosmos. Atualmente trabalho com a divulgação científica na internet — principalmente no Ciencianautas, projeto em que eu mesmo fundei aos 15 anos de idade —, com ênfase na astronomia e biologia.

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