Fotos de radar do Apophis em 2012. (Créditos da imagem: NASA / JPL-CalTech).

É comum ler notícias de que algum asteroide irá passar “raspando” pelo nosso planeta. Contudo, é importante saber que apenas um pequeno punhado de objetos oferece alguma ameaça séria ao nosso planeta. Mas o pouco que existe, de fato, pode causar danos significativos, e o gigantesco asteroide 99942 Apophis está entre eles.

O asteroide é chamado de Apophis em homenagem ao Deus do Caos e da destruição (segundo a mitologia egípcia) devido à sua probabilidade de colisão com a Terra. Em 2004, logo após a descoberta deste asteroide, as observações iniciais indicaram uma pequena probabilidade (de até 2,7%) de que ele poderia atingir a Terra em 2029. Porém, observações adicionais permitiram conhecer melhor a sua órbita e eliminaram a possibilidade de impacto em 2029 e, também, em 2036. Apophis tem cerca de 370 metros de diâmetro e tem uma distância mínima de intersecção com a órbita da Terra de 0,00032 UA, sendo, por isso, classificado como um asteroide potencialmente perigoso.

A animação demonstra a trajetória de Apophis, em comparação com a trajetória da Terra nos próximos anos. (Créditos da imagem: Tomruen / Wikimedia Commons).

Durante a reunião da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Astronômica Americana, que ocorreu entre 25 a 30 de outubro, astrônomos do instituto de Astronomia da universidade do Havaí apontaram que o asteroide Apophis ainda tem potencial para nos atingir daqui a 48 anos, em 2068. As observações feitas em janeiro e março deste ano com o telescópio Subaru, no Havaí, forneceram dados valiosos que indicam que o efeito Yarkovsky está influenciando a trajetória orbital do asteroide Apophis. Este efeito provoca pequenos impulsos térmicos devido à radiação reemitida pelo asteroide à medida que ele rotaciona. Isso faz com que a órbita do asteroide seja alterada ligeiramente de seu percurso original traçado pela gravidade. Segundo o novo estudo, as novas observações mostraram que o asteroide está se afastando de uma órbita puramente gravitacional em cerca de 170 metros por ano, o que é suficiente para manter o pequeno risco de impacto.

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Apophis fará uma nova aproximação com a Terra no dia 13 de abril de 2029. Nesta data, o asteroide de 370 m de diâmetro efetivo estará visível a olho nu ao passar dentro do anel de satélites de comunicação que orbitam nosso planeta, numa distância saudável de 31 mil quilômetros da Terra. Sendo assim, será um momento extremamente valioso para obter novos dados do asteroide Apophis, que serão essenciais para avaliar a trajetória e saber se o asteroide atingirá a Terra.

O deus egípcio Apophis é, muitas vezes, ilustrado como uma cobra. Na foto, Apophis é morto pelo “Grande Gato”, de Heliopólis. Tumba de Inherkau no. 359. Segunda câmara, parede sul. (Créditos da imagem: kairoinfo4u).

O Apophis possui atualmente o título de terceira maior ameaça na Tabela de Risco Sentinela da Nasa. A estimativa da Escala de Perigo de Impacto Técnico de Palermo, cuja função é medir o impacto de um objeto próximo à Terra, sugere que há uma chance de 1 em 150.000, ou 0,00067%, do corpo celeste atingir o planeta em 12 de abril de 2068. Portanto, por enquanto não há razão para pânico, visto que a chance de colisão é muito pequena. Contudo, daqui a 9 anos, poderemos ter uma ideia melhor se o fim, ao menos esse, está próximo.

No pior dos cenários, as consequências de um impacto podem variar bastante dependendo da composição do asteroide, ângulo do impacto e da localização do ponto de impacto. Como Apophis tem cerca de 370 metros e uma composição de silicatos, ferro e níquel, o impacto seria extremamente devastador a uma área de milhares de quilômetros quadrados. Simulações de impacto indicam que a colisão com a superfície liberaria o equivalente a cerca de 1151 megatons de energia. Eventos desse nível podem ocorrer na Terra uma vez a cada 80.000 anos. Para efeitos de comparação, a bomba nuclear jogada sobre Hiroshima liberou cerca de 13 quilotons de energia. No entanto, Apophis não tem a capacidade de causar efeitos globais duradouros, como o início de um inverno nuclear (cenário em que a poeira levantada pelo impacto de um asteroide causaria um bloqueio da luz solar por vários anos, eliminando boa parte da vida na Terra).

Curiosidade

Os dois objetos próximos à Terra com classificações de risco mais altas do que Apophis na Escala de Perigo de Impacto Técnico de Palermo são o asteroide 29075 (1950 DA) e o asteroide Bennu. O 1950 DA tem 1 chance em 8.300 (0,012%) de atingir a Terra em 2880, e Bennu, que está sendo estudado pela sonda OSIRIS-REx da NASA, tem 1 chance em 2700 (0,037%) de um impacto na Terra entre os anos de 2175 e 2199. Esses objetos também estão sendo continuamente monitorados para melhorar as predições de suas órbitas e para avaliar suas futuras passagens próximas da Terra.

Nota:

  1. Para saber mais sobre como o efeito Yarkovsky está agindo sobre o asteroide Bennu, a NASA enviou a sonda OSIRIS-REx para fazer observações detalhadas da forma, do brilho e das características da superfície desse objeto. Essas informações são essenciais para saber como o efeito Yarkovsky age sobre o asteroide.

Referência:

  1. Tholen, D; Farnocchia, D. “Detection of Yarkovsky Acceleration of (99942) Apophis”. Division of Planetary Science meeting #52, id. 214.06. Bulletin of the American Astronomical Society, Vol. 52.
Filipe Monteiro
Filipe Monteiro possui graduação em Licenciatura plena em Física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (2014), mestrado em Astronomia pelo Observatório Nacional (2016) e doutorado em Astronomia pelo Observatório Nacional (2020). Atualmente é bolsista de pós-doutorado em Astronomia do Programa de Capacitação Institucional (PCI) no Observatório Nacional. Tem experiência na área de Ciências Planetárias, atuando principalmente na caracterização física de pequenos corpos do Sistema Solar.