(Créditos da imagem: Bruno Kelly/Reuters).

Em agosto de 2019, o Brasil recebia com raiva pelo descaso, a demissão do respeitado físico Ricardo Galvão. Ele era, até então, o diretor do Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e alertava para o crescente desmatamento e focos de queimadas na Amazônia. Galvão foi eleito pela revista Nature o defensor da ciência do ano.

Mesmo sendo tão respeitado, e mesmo com a grande repercussão internacionalmente negativa, a demissão foi concebida. O governo federal foi extremamente criticado pela falta de ação e negacionismo quando os níveis de queimadas batiam recordes. Mesmo já não fazendo parte do Inpe, Galvão continua alertando para os riscos que corre a Amazônia, conforme disse há alguns dias em uma entrevista à Revista Pesquisa Fapesp:

“A Política Nacional sobre Mudança do Clima, instituída por uma lei de 2009, estabeleceu que em 2020 o desmatamento no país deveria ser menor do que 4 mil km². Certamente o governo não vai cumprir essa lei. Um relatório técnico recente do Inpe mostra que, de agosto de 2019 até maio deste ano, nós já desmatamos na Amazônia 89% do que havíamos feito em todo o ano passado”.

2019 foi extremamente polêmico, não só pelas queimadas e pelo crescente desmatamento, mas também pelo descaso do governo, mas esse problema possui ainda uma tendência de piora, conforme alerta Galvão na mesma entrevista: “Se o descontrole continuar, tenho quase certeza de que a taxa anual do desmatamento vai passar dos 12 mil km². Há também o problema das queimadas, que ocorrem principalmente depois do desmatamento, quando o clima está mais seco.”

Os principais problemas do desmatamento na Amazônia são derivados do desmatamento e das queimadas ilegais. Apenas de frágeis, há algumas regras federais que tentam, em certa medida, proteger a floresta de um desmatamento exagerado em demasia. As regras e o bravo trabalho do Ibama, entretanto, pouco conseguem impedir.

É claro que os problemas da floresta não são exclusivos do governo Bolsonaro. No início de 2018, Carlos Nobre, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, Thomas Lovejoy, professor da universidade americana de George Mason, publicaram um artigo na Science, onde argumentam que, com o histórico de secas e inundações estranhas das últimas duas décadas, indicam que o ciclo hidrológico da floresta amazônica está bastante bagunçada.

A Amazônia não é, de fato, o pulmão do mundo – esse papel é conduzido com maestria pelas algas marinhas. Entretanto, a Amazônia possui um papel ambiental importantíssimo. Além de abrigar 10% das espécies animais conhecidas, a floresta exerce um auxílio hidrológico, com os seus rios voadores alimentando o sudeste brasileiro, e ajudando na precipitação e alimentação de rios até mesmo os países mais ao sul, como Argentina, Paraguai e Uruguai.

O Inpe sabe dessa importância, e por isso trabalha para tentar monitorar ao máximo o desmatamento e as queimadas ilegais não só na Amazônia, mas em todas os biomas brasileiros. Vale lembrar que a Mata Atlântica, bioma da costa leste brasileira, é totalmente desmatada – e a taxa continua a crescer. Hoje ela já possui uma configuração muito diferente do passado, principalmente por ser a região mais populosa do Brasil.

E o Ricardo Galvão conta, animado, sobre os projetos de monitoramento do Inpe: “Durante minha gestão, não por mérito meu, mas dos pesquisadores que trabalham nessa área, o Inpe começou a se estruturar para monitorar o desmatamento em todos os biomas brasileiros, não apenas na Amazônia”.

E foi no contexto de defender a sua missão, e uma das principais funções à quais são atribuídas ao Inpe, que Ricardo Galvão foi demitido. “Defendi o trabalho do Inpe. Sabia que seria certamente demitido. Mas foi uma estratégia feliz. O Inpe se tornou tão exposto na mídia que ficou em uma posição quase inatacável”, disse à Revista Pesquisa Fapesp.

Obviamente, Galvão não era o único no instituto com vontade de combater o desmatamento ilegal, e alertar para estes problemas. Hoje, 13 de julho de 2020, menos de um ano após a exoneração de Galvão, o governo federal publica no Diário Oficial a Exoneração de Lubia Vinhas, coordenadora-geral de Observação da Terra, do Inpe. Ela comandava os trabalhos com o sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), um sistema por meio do qual o Inpe pode monitorar a Amazônia em tempo real.

Por ser concursada, ela não abandonará o instituto, mas será alocada para outro cargo: “Chefe da Divisão de Projeto Estratégico, que tratará implementação da nova Base de Informações Georreferenciadas (“BIG”) do INPE, uma demanda do Ministro Pontes”, segundo nota do Inpe.

Entretanto, o ponto que gera a polêmica, é um alerta emitido pelo instituto alguns dias atrás. O primeiro semestre de 2020 obteve mais de três mil metros quadrados de área desmatada na Amazônia brasileira, um aumento de 25% em relação ao primeiro semestre de 2019, ano em que a situação já chamou atenção da mídia internacional, e falta de ação com relação a isso já começa a ser repercutida de forma negativa entre os gringos.

O governo federal está preocupado com a crescente perda de investidores internacionais, dada a tendência no mercado financeiro de uma espécie de “investimento consciente”. O governo está mobilizando o exército e deve anunciar uma proibição de 120 dia de queimadas, embora isso aparentemente não se deva à preocupações ambientais, mas meramente econômicas. Se a pressão econômica foi o suficiente para uma melhoria nas políticas ambientais, entretanto, pode ser uma boa notícia.

“Sabemos que temos de reduzir os efeitos sobre o meio ambiente. Queremos apoio e compreensão para fazer isso melhor. O Brasil sabe da importância do desenvolvimento sustentável, não apenas do ponto de vista fiscal como do ponto de vista ambiental”, disse o ministro Paulo Guedes em uma reunião da OCDE.

A Amazônia pode estar caminhando para um nível de desmatamento irreversível, e o percentual da área desmatada precisa se manter abaixo dos 20% da área total da floresta, conforme Nobre e Lovejoy. Ainda há tempo de mudança, e ela só pode ser feita com a pressão popular, econômica e de agência ligadas à área.

Referências:

  1. Estadão. “Guedes pede ajuda internacional para preservar Amazônia e diz que País não vai tolerar desmatamento”. Acesso em: 13 jul. 2020.
  2. G1. “Após alerta de desmatamento recorde na Amazônia, governo exonera coordenadora do Inpe”. Acesso em: 13 jul. 2020.
  3. Inpe. “Nota sobre a Exoneração da Coordenadora-geral de Observação da Terra do INPE”. Acesso em: 13 jul. 2020.
  4. LOVEJOY, Thomas E; NOBRE, Carlos. “Amazon Tipping Point”; Science. Acesso em: 13 jul. 2020.
  5. PIVETTA, Marcos; Pesquisa Fapesp. “Ricardo Magnus Osório Galvão: O físico que não se dobra”. Acesso em: 13 jul. 2020.
  6. Reuters. “Brazil Amazon deforestation up in June, set for worst year in over a decade”. Acesso em: 13 jul. 2020.