Pesquisador examina crânio encontrado no sítio da Lapa do Santo, em Lagoa Santa, Minas Gerais. (Créditos da imagem: Andre Strauss).

Lagoa Santa é o município de Minas Gerais onde se encontra a Lapa do Santo, sítio arqueológico onde foram encontrado dezenas de esqueletos humanos datas em até 12.000 anos. É na região de Lagoa Santa que foi encontrada a famosa Luzia, o registro fóssil mais antigo das Américas com idade entre 12.500 e 13.000 anos descoberto na década de 70. Foram encontrados no total 37 sepultamentos humanos no sítio arqueológico, mas tem um que chamou muito a atenção dos pesquisadores que trabalham nas escavações: o sepultamento 26, descoberto em julho de 2007.

No sepultamento 26 foram encontrados 3 grupos de ossos articulados 55 cm abaixo da superfície do solo; o primeiro composto por crânio, mandíbula e vértebras de C1 a C6, o segundo dos ossos da mão esquerda e o terceiro pelos ossos da mão direita e a extremidade distal do rádio direito (Fígura 1). As mãos estavam sobre a face do crânio, ou seja, sobre a região frontal (Figura 2), e o indivíduo foi estimado como um homem adulto.

Esquema dos grupos de ossos articulados. No esquema é possível ver que a mão direita estava sobre o lado esquerdo do crânio com os dedos voltados para cima e a mão esquerda em posição oposta. Fonte: STRAUSS A., 2015.
Fotos do sepultamento. Na figura b é possível observar com mais clareza a posição das mãos sobre a face do indivíduo. Fonte: STRAUSS A., 2015.

A decapitação era muito comum em todo o mundo, incluindo o Brasil. Os Tupinambás, no litoral brasileiro, decapitavam em rituais, exocanibalismo e e coletavam partes de corpos dos inimigos como troféus. Os índios Araras, da região amazônica, o crânio dos inimigos eram expostos em mastro enquanto os índios Mundurucu decapitavam como símbolo de superioridade. Além das fronteiras do Brasil, os Incas decapitavam para reforçar seu status e poder. Os Uru-Uru, na Bolívia, usavam os crânios para rituais religiosos e os Chimus, no Peru, faziam sacrifícios humanos em liturgias.

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Nenhuma das tribos ou de vestígios encontrados nas Américas são mais antigos que o sepultamento 26 da Lapa do Santo. O esqueleto humano foi datado com 9127 – 9438 anos (intervalo de 95,4%), ou seja, ele pertenceu ao estágio mais antigo do do Holoceno (o Gronelandês).

O sepultamento 26 levantou vários questionamentos, mas o mais intrigante é: como caçadores-coletores de quase 10.000 anos, vivendo em uma simples sociedade e com poucas ferramentas, conseguiram decapitar o indivíduo? A antropóloga forense Sue Black, da Dundee University, tem uma teoria. Segundo ela, existe uma semelhança com um caso menos antigo de decapitação que sugere que a cabeça foi puxada e retorcida manualmente após ser parcialmente cortada.

Ficheiro:Lapa do Santo - Sepultamento 26 - Reconstrucao Wilkinson Fundo Branco 1.jpg
Reconstrução facial forense realizada pela Prof. Caroline Wilkinson por meio de modelo 3D obtido a partir de micro-tomografia.

Acredita-se que o sepultamento 26 não seja um caso de decapitação por status, poder ou troféu. Com a técnica de isótopos de estrôncio estimou-se que o indivíduo fazia parte do grupo que se encontrava no local na época. A teoria que os pesquisados de USP e do Instituto Max Planck é que a decapitação foi feita após a morte e que a decapitação poderia ser um ritual mortuário.

O conhecimento e as descobertas quanto ao contexto cultural dos indivíduos que habitavam a região é tão importante quanto a descoberta do caso de decapitação mais antigo das Américas. Então é difícil ainda determinar se a prática da decapitação era comum entre eles, pois o sepultamento 26 ainda é o único encontrado com tais características na região, porém ainda se tem muito o que explorar.

Atualmente o sepultamento 26 se encontra no Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP.

Com informações de STRAUSS A. et al., National Geographic, Discovery News e Estadão.