Impressão artística do asteroide interestelar Oumuamua. (Créditos da imagem: ESO/M. Kornmesser).

O Oumuamua é um asteroide interestelar descoberto em 2017. Ou seja, ele não foi formado no Sistema Solar. Trata-se do primeiro asteroide interestelar descoberto pela humanidade. Seu formato diferente, além de algumas características peculiares, levantam uma série de debates. O ponto é: alguém propôs que ele poderia se tratar de uma nave alienígena, e não foi encontrada nenhuma evidência além do formato estanho, alta velocidade e rota peculiar.

A ciência é, desde as suas entranhas, baseadas em evidências, e um charuto de poeira espacial voando pelo Sistema Solar em alta velocidade não é prova de que há uma nave alienígena por ali. É claro que podemos sonhar e imaginar, mas afirmar com poucas evidências disponíveis que aquilo trata-se de uma nave espacial é uma ação muito precipitada. 

Um estudo publicado em junho de 2020 no The Astrophysical Journal Letters (disponível como preprint no arXiv), sugeria que o Oumuamua poderia ser um iceberg espacial de hidrogênio. O trabalho foi conduzido por Darryl Seligman e Gregory Laughlin, dois astrofísicos de Yale. Eles haviam conseguido responder algumas questões pendentes em relação ao objeto com essa hipótese.

Entretanto, no dia 17 de agosto, outra dupla de cientistas, Thiem Hoang e Abraham Loeb, argumentaram, também no periódico de breves argumentações The Astrophysical Journal Letters, que o objeto espacial não poderia ser composto por hidrogênio molecular, apresentando seus argumentos, além dos cálculos que refutam o trabalho de Seligman e Laughlin.

Por ser um objeto inédito, tanto pela sua origem extrasolar quanto por sua peculiaridade, há divergências no meio acadêmico, tanto nas hipóteses de formação, quando nas ideias de composição e as explicações quanto à sua alta velocidade. A ideia de ser uma nave alienígena é algo que surgiu de verdade, e uma ideia que foi defendida por alguns cientistas.

Loeb, co-autor do estudo que refuta a ideia de um iceberg de hidrogênio, astrofísico da universidade de Harvard, foi um dos cientistas que defenderam uma possibilidade considerável de estarmos nos deparando com uma nave alienígena, nos períodos próximos à descoberta. Entretanto, como um cientista, Loeb não se deixa contaminar com suas crenças. No artigo, em nenhum momento ele fala sobre ser uma nave alienígena, como dão a entender algumas notícias, não só pelo Brasil, como no exterior. O trabalho simplesmente, através de cálculos, mostra que não há como ser um iceberg de hidrogênio, através dos números, ou seja, tenta refutar Seligman e Laughlin, como de praxe na ciência – números e dados são diferenciados por cientistas de ideias hipotéticas de caráter pessoal. 

Claro que a ideia de uma nave alienígena é a mais excitante. Eu também adoraria que isso fosse verdade, e creio que qualquer cientista também. Como um divulgador científico, entretanto, preciso ser responsável e realista. É possível que seja uma nave? Sim, a possibilidade é pequena, mas existe. Há evidências suficientes para se afirmar isso? Não. Por mais que você goste de ideias malucas, mantenha o pé no chão. Você é livre para acreditar, mas separe suas crenças da ciência.

Referências: 

  1. HOANG, Thiem. LOEB, Abraham. “Destruction of Molecular Hydrogen Ice and Implications for 1I/2017 U1 (‘Oumuamua)”. The Astrophysical Journal Letters, Volume 896, Number 1 (2020). Acesso em: 24 ago. 2020.
  2. SELIGMAN, Darryl. LAUGHLIN, Gregory. “Evidence that 1I/2017 U1 (‘Oumuamua) was Composed of Molecular Hydrogen Ice”. The Astrophysical Journal Letters, Volume 899, Number 2 (2020). Acesso em: 24 ago. 2020.