Companhia privada pode estar minerando a Lua até 2020. (Créditos da imagem: Moon Express).

A empresa Moon Express, com sede na Flórida, arrecadou mais de US$45 milhões em patrocínio para três expedições que culminarão com uma missão para explorar rochas da Lua e trazê-las à Terra.

Como as leis que regem o uso dos recursos no espaço sideral são vagas, uma missão orientada para angariar lucros com esse tipo de atividade poderá causar uma controvérsia internacional. “É algo que está sendo discutido internacionalmente agora, mas não há uma resposta concreta e não tenho certeza de que haverá”, disse Henry Hertzfeld, na George Washington University Space Policy Institute, em Washington, DC.

A Moon Express foi fundada em 2010 com o objetivo de ganhar o Google Lunar XPRIZE, um prêmio de US$20 milhões para o primeiro veículo com financiamento privado a pousar na Lua, fazê-lo avançar por no mínimo 500 metros de distância e transmitir imagens de alta definição e vídeo. O prazo de lançamento vai até o final de 2017, portanto, a Moon Express espera lançar o Lunar Scout, sua primeira expedição planejada, este ano.

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A primeira das três missões — nomeadas respectivamente Lunar Scout, Lunar Outpost e Harvest Moon — está programada para ser lançada no final deste ano, no qual a nave espacial MX-1 será lançada a bordo do veículo de lançamento Electron, da Rocket Lab. Missões subsequentes estão previstas para 2019 e 2020, quando a empresa espera começar a enviar amostras lunares à Terra.

Os motores para os módulos da empresa foram construídos e estão sendo testados, mas outras peças ainda estão sendo desenvolvidas e fabricadas. O foguete Electron, criado pela empresa privada de voo espacial Rocket Lab, está previsto para transportar o Lunar Scout, mas até agora não chegou a entrar em órbita da Lua.

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“Temos muito o que fazer em um período de tempo muito curto, e a Rocket Lab tem muito a fazer em um período de tempo muito curto”, disse o presidente-executivo da Moon Express, Bob Richards, em entrevista coletiva no dia 12 de julho, conforme a revista New Scientist.

Não importa o prêmio

Mesmo que o lançamento não aconteça até o final do ano, Richards disse que a missão vai continuar — o dinheiro do prêmio não é um requisito absoluto.

Esta missão de estreia Lunar Scout levará um pequeno telescópio e um sistema a laser para a superfície da Lua. Em 2019, a empresa planeja pousar uma segunda nave no polo sul da Lua, onde pode prospectar água e quaisquer minerais potencialmente úteis.

A terceira expedição, apropriadamente chamada Harvest Moon (“safra lunar”, em tradução livre), iniciaria a operação de mineração da Moon Express. Se tudo acontecer como o planejado, esta primeira missão comercial para retornar com rochas da Lua para a Terra será lançada em 2020. O “lander” (o módulo ou aterrissador) necessariamente deve ter a capacidade de enviar uma cápsula cheia de amostras de volta à Terra (ilustração abaixo) enquanto permanece na Lua para continuar a mineração.

O dinheiro privado está planejando voos à Lua. (Créditos da imagem: Moon Express).

Essas amostras lunares seriam as primeiras a retornar aos Estados Unidos desde 1972. Algumas delas serão usadas para pesquisas científicas, mas outras poderão ser vendidas para colecionadores ou outras empresas privadas. “Estamos ansiosos para abrir a oportunidade para qualquer um ter rochas lunares”, disse Richards.

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As amostras de rochas lunares de todas as missões anteriores pertencem ao governo dos Estados Unidos. A Lei de Competitividade e Empreendedorismo Aeroespacial Privado (Spurring Private Aerospace Competitiveness and Entrepreneurship – SPACE) de 2015 incentiva a exploração comercial de recursos no espaço, desde que não estejam vivos. Isso significa que se a Moon Express encontrar extraterrestres, não pode ficar com eles, mas podem ficar com os minerais e a água.

A maioria das outras nações não possui leis tão claras. Elas confiam no Tratado do Espaço Exterior (Outer Space Treaty), de 1967, que afirma vagamente que a exploração do espaço exterior e dos corpos celestes devem ser benéfica para todos. Muitas pessoas interpretam o tratado como significando que o espaço, incluindo a Lua, é uma herança comum que deve permanecer intocado pelos interesses comerciais.

“O que se virá a ser um contratempo é o lucro que poderá ser feito por uma empresa privada”, diz Hertzfeld. “Internacionalmente, nem todos estarão felizes com isso. Mas eles podem fazer alguma coisa sobre isso? Provavelmente não”.

A missão e os veículos

Embora a Moon Express diz que tem uma chance externa de ainda levar o prêmio Google Lunar XPRIZE, suas ambições comerciais agora ultrapassam muito um único e simples pouso lunar.

No centro de projeto da empresa está a nave espacial MX-1 de fase única que pode levar até 30 quilogramas para a superfície lunar. Esse veículo é similar à forma do droid R2-D2 de Star Wars, mas um pouco maior, disse Richards, segundo a revista ArsTechinca. Lançado dentro de uma carenagem de carga útil convencional, a MX-1 é impulsionada por um único motor de foguete PECO.

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O equipamento proposto inaugura um conjunto de missões na superfície lunar, sendo que para três dessas a Moon Express diz ter o financiamento. A missão inicial da empresa é a “Lunar Scout”, que busca tornar-se a primeira viagem comercial para a Lua. Ela irá transportar várias cargas úteis, incluindo o Observatório Lunar Internacional, “MoonLight” dos laboratórios do Instituto Nacional de Física Nuclear de Frascati, Itália, e da Universidade de Maryland, College Park, Maryand, Estados Unidos e a Celestis Memorial Spaceflights. Esta missão é a que tentará ganhar o XPRIZE Lunar.

O segundo voo proposto pela empresa, a expedição Lunar Outpost, buscará estabelecer um posto avançado de pesquisa lunar no polo sul da Lua. A NASA e outros estão muito interessados na possibilidade de transformar o gelo de água das sombrias crateras lunares em propelente de foguete. Essa “lander” procurará por água e minerais úteis, disse Richards.

O terceiro voo, a expedição Harvest Moon, ocorreria até 2020 e tentaria retornar com alguns quilogramas de material da superfície da Lua. Nesse cenário, uma única nave espacial MX serviria como um veículo de subida partindo da superfície lunar, e reentrar na atmosfera terrestre para pousar no oceano ou em terra. “A missão de retorno da amostra é justificável para fins comerciais, esperamos financiar isso”, disse Richards, segundo a revista ArsTechnica.

Veja a animação da expedição Harvest Moon no vídeo abaixo.

Rochas lunares valiosas

Qual o valor que justifica a busca pelas rochas lunares? Bastante!

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A NASA nunca vendeu nenhum dos 842 quilos de material mineral que retornou da Lua nas seis missões Apollo. No entanto, em 1970, a União Soviética lançou a missão robótica Luna 16, que conseguiu retornar 101 gramas de material da superfície da Lua. Uma fração desse material chegou ao mercado aberto.

Em 1993, a casa de leilões Sotheby’s leiloou 0,2 grama dessas rochas soviéticas para três compradores (cada uma com uma lupa para ver as manchas da poeira lunar). Esse leilão levantou US$442.500 no total, e é a única fonte de informações que temos do valor do material retornado diretamente à Terra a partir da Lua, disse Robert Pearlman, editor do site sobre o espaço CollectSpace.com.

“Não acho que a Moon Express tenha problemas para encontrar um mercado”, disse Pearlman.

O cofundador da Moon Express e o CEO da companhia, Naveen Jain, felizmente, deixou sua imaginação fornecer uma outra perspectiva às possíveis aplicações da Lua quando ele foi contactado por Nathan Mattise, repórter da revista consultada.

“A Lua tem sido um símbolo de amor para centenas de gerações”, disse Jain. “Todos damos a alguém um diamante, se você ama alguém o suficiente, você lhe dá a Lua”.

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Uma demonstração bem-sucedida de missões na superfície lunar poderia ainda se pagar de outra forma para o Moon Express. Provavelmente, a NASA emitirá um “pedido de propostas” de empresas para ajudá-la com seus esforços de determinar o quão acessível é a água nos polos lunares e se poderia ser facilmente transformada em propelente de foguete. Se o caso tiver aval afirmativo, isso continua sendo um grande, se a Moon Express possui uma arquitetura de trabalho até o final deste ano ou no início de 2018, algo que nenhuma outra empresa ou país tem, poderia se transformar em um grande contrato governamental.

Referências:

  1. BERGER, Eric. “Private company plans to bring Moon rocks back to Earth in three years”; Ars Technica. Acesso em: 15 ago. 2017.
  2. New Scientist. “Robotic landers could start mining the moon as early as 2020”. Acesso em: 15 ago. 2017.
  3. PAOLETTA, Rae. “Rocket Lab’s adorable rocket just blasted into space for the first time”; Gizmodo. Acesso em: 15 ago. 2017.
  4. New Scientist. “Hubble Space Telescope maps minerals on the moon”. Acesso em: 15 ago. 2017.
  5. New Scientist. “New Zealand joins the space race with Electron rocket launch”. Acesso em: 15 ago. 2017.
  6. BERGER, Eric. “Why we’re going back to the Moon — with or without NASA”; Ars Technica. Acesso em: 15 ago. 2017.
  7. BERGER, Eric. “Inside the vault: a rare glimpse of NASA’s otherworldly treasures”; Ars Technica. Acesso em: 15 ago. 2017.
  8. MATTISE, Nathan. “Moon Express chairman believes his team’s ‘ready to go for the end of this year’”; Ars Technica. Acesso em: 15 ago. 2017.
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Mestrando em Estudos Ambientais pela UCES, Buenos Aires. Graduado em Engenharia Civil e pós-graduado em Gestão Pública e Controladoria Governamental. Com interesse por ciência, tecnologia, filosofia, desenvolvimento sustentável e diversas outras áreas do conhecimento humano.

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