O desmatamento e a conversão do uso solo para agricultura e pecuária aumentam a diversidade e a abundância dos genes de resistência a antibióticos (ARGs, em inglês). Esse resultado é parte do doutorado de Lucas William Mendes, realizado no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP. Mendes é o último autor do artigo, publicado como short communication em dezembro de 2020 na revista Soil Biology and Biochemistry.

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Para chegar a esses resultados, os cientistas coletaram 48 amostras de florestas nativas e secundárias, áreas desmatadas e de agricultura e pastagem, localizadas a 10 centímetros (cm) de profundidade — local onde se concentra maior atividade microbiana —, nas regiões oriental e ocidental da floresta amazônica. Depois, o DNA desse material foi extraído e enviado para análise metagenômica — análise genômica da comunidade de microrganismos de um determinado ambiente por meio da extração de DNA, que permite o acesso a genes de inúmeras bactérias incultiváveis em laboratório.

Os resultados revelaram que os genes de resistência a antibióticos são comuns tanto na floresta nativa quanto nas áreas alteradas. Por outro lado, o enriquecimento de ARGs está correlacionado ao aumento da diversidade microbiana em resposta ao desmatamento, juntamente com mudanças nas propriedades químicas do solo, com pH e alumínio.

Diferentes estudos já avaliaram os impactos do desmatamento na Amazônia nas mudanças climáticas, espécies de animais e vegetais e o microbioma do solo. Em trabalhos anteriores, o grupo de pesquisa de Mendes utilizou sequenciamento metagenômico e mostrou os efeitos do desmatamento na Amazônia na composição e nas funções da comunidade microbiana do solo, revelando impactos negativos sobre a biodiversidade. Mas, até então, os efeitos do desmatamento na estrutura, diversidade e na abundância do resistoma eram desconhecidos.

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Na região amazônica, grande parte das áreas desmatadas foi convertida em pastagens, onde o uso de antibióticos é comum em animais. Diversos tipos de ARGs vêm sendo identificados em resíduos pecuários.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência aos antibióticos é atualmente uma das maiores ameaças globais à saúde, à segurança dos alimentos e ao desenvolvimento. Ela ocorre naturalmente, mas o mau uso desses medicamentos em humanos e animais está acelerando o processo.

Bioinformática

As 48 amostras coletadas pelos pesquisadores entre 2014 e 2019 geraram, aproximadamente, 800 milhões de sequências de DNA. Os dados foram comparados com ARGs já descritos em bancos de dados internacionais.

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“Muitos genes estão presentes também na floresta e nas áreas alteradas, porém, nas áreas alteradas eles são muito mais abundantes”, relata Mendes.

A grande preocupação é que, com o aumento dos ARGs, exista a possibilidade de eles serem transferidos, via cadeia alimentar, para os humanos, por meio do consumo de carne, vegetais e outras fontes alimentares. “Se isso acontecer, poderemos não ter antibiótico que combata certos tipos de patologias, porque elas já vão ser resistentes a esses medicamentos”, conclui o pesquisador. A tese teve orientação da professora Tsai Siu Mui e co-orientação de Eiko Eurya Kuramae.

Publicado originalmente por Jornal da USPLeia o original aqui.

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