(Créditos da imagem: Getty Imagens).

Apesar de ser perigosamente questionada sem embasamento por muitas pessoas, incluindo influentes políticos, é um consenso na comunidade científica e geral que há mudanças climáticas causadas pelo ser humano.

Nesta segunda (6), em Paris, a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), órgão fundado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, apresentou para políticos um relatório com péssimas notícias. Segundo o estudo, 1 milhão de espécies — que corresponde por cerca de 25% das espécies conhecidas do planeta —,  correm perigo imediato de extinção. O ritmo de extinção de espécies atual, é de dezenas a centenas de vezes maior do que nos últimos dez milhões de anos.

Além da perda de espécies, outro grande problema é a diminuição na variedade delas. A variabilidade genética é uma excelente adaptação dos seres de reprodução sexuada, pois com populações com algumas diferenças, mesmo que sutis, o grupo está um tanto protegido de eventos inesperados. A perda dessa variedade os deixa mais expostos à uma potencial extinção. Ademais, a perda de diversidade nos ecossistemas também os tornam menos resilientes.

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Somos extremamentes dependentes da natureza, mesmo assim não aplicamos um desenvolvimento sustentável. Segundo o relatório, a degradação dos solos nos últimos anos causou uma queda de produtividade em 23% da área terrestre do planeta. 75% da superfície da Terra foi significativamente alterada. Metade da cobertura de coral nos recifes foi perdida desde os anos 1870.

Desde 1900, o nível médio do mar subiu de 16 a 21 centímetros, o que já obrigou diversos países, como a Holanda, a tomar medidas para evitar a inundação de enormes áreas, o que afetaria o ecossistema e a população local.

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A temperatura global está subindo, em média, 0,2° C por década. Pode parecer pouco, mas sutis mudanças podem causar grandes estragos, como para as algas marinhas, responsáveis pela maior parte da produção de oxigênio — muito mais que das árvores. Os mares e oceanos produzem cerca de 90% do oxigênio do planeta. Além de afetadas pela poluição atmosférica, a vida marinha e terrestre também são muito afetadas pela poluição dos oceanos, com destaque para o plástico. Um relatório de 2017 alerta que até 2050 haverá mais plástico do que peixes nos oceanos.

Nos últimos 50 anos, a população mundial duplicou, a economia global cresceu quatro vezes e o comércio global, dez. Isso causa um aumento na demanda energética, territorial e de matéria prima. No entanto, nosso descaso com a natureza torna isso ainda mais grave. Um clássico e recente exemplo, um tanto extremo, que temos no Brasil é o rompimento da barragem de Brumadinho — da empresa Vale, uma das maiores mineradoras do mundo — e o rompimento da barragem de Mariana, em 2015, pertencente à Samarco — uma subsidiária da Vale. Nesses acidentes — que poderiam ter sido evitados com simples medidas — e nas faltas de punições, vemos nitidamente o descaso com o meio ambiente, tanto por parte das empresas, quanto por parte dos órgãos reguladores e fiscalizadores.

Medidas drásticas precisam ser tomadas

O relatório aponta que, no rumo atual, as metas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, da ONU,  e as Metas de Aichi, para a conservação da biodiversidade, não serão atingidas. É fato que precisamos melhorar, no entanto, vemos muitos grandes representantes na contramão, como quando Donald Trump tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, firmado em 2015 por 195 países para a redução da emissão de gases de efeito estufa.

Também são destacadas possíveis medidas para serem tomadas, como a utilização de infraestrutura verde nas áreas urbanas — hortas nos telhados e mais espaços verdes espalhados pelas cidades, por exemplo; a redução no consumo excessivo, como o famoso American Way of Life; a redução na desigualdade exacerbada; a atuação de líderes para a busca de um desenvolvimento mais sustentável, etc. O relatório aborda também a questão de povos indígenas.

O Relatório é extremamente abrangente e apresenta aos políticos, empresários e à população, não só os problemas, mas também diversos meios que podem ser tomados. Baseado na Avaliação Ecossistêmica do Milênio de 2005, é o primeiro relatório intergovernamental do tipo.

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Feito durante os últimos três anos, o estudo, que utilizou 15 mil materiais como fonte, contou com a participação de 145 especialistas de países e com o apoio de outros 310 autores. Em Paris, foi apresentado apenas um resumo, de cerca de 40 páginas; o relatório completo possui cerca de 1.800 páginas.

Para Robert Watson, presidente do IPBES, “não é tarde demais para fazer a diferença, mas apenas se começarmos agora em todos os níveis, do local ao global”.

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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pelo jornalismo científico. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente faço o ensino médio em uma ETEC e escrevo para o Ciencianautas.

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