FAST, o maior radiotelescópio single dish do mundo. (Créditos da Imagem: Xinhua).

Os mais famosos “caçadores” de alienígenas hoje, são os cientistas que formam o SETI – sigla para Search for Extraterrestrial Intelligence, ou  Busca por Inteligência Extraterrestre, em tradução para o português -, uma séria instituição de pesquisa, sediada na Califórnia, que reúne equipamentos, pesquisadores e parcerias por todo o mundo, e desde a década de 1980 busca por pistas da existência de vida alienígena. Agora, o maior radiotelescópio de prato único do mundo, FAST, localizado na China, teve sua construção finalizada no final de 2019 e agora entrou oficialmente na missão de encontrar vida inteligente fora da Terra.

É um grande sonho de muitos cientistas encontrar a vida alienígena, seja inteligente, seja microbiana. Por exemplo, há alguns anos ficou famosa a aparente mega estrutura alienígena em torno da estrela de Tabby. Há um conceito chamado Esfera de Dyson, que se trata de uma estrutura que fica em torno de uma estrela captando sua energia, para as necessidades de uma vida inteligente em um estágio muito avançado de desenvolvimento. Tabby sofria um bloqueio de até 20% de sua luz, coisa extremamente anormal, causadas por algo no caminho; foi quando cientistas ficaram animados com a ideia de uma mega estrutura alienígena.

Uma pesquisa, alguns anos mais tarde, no entanto, descartou essa ideia. A luz era bloqueada em intensidades diferentes, o que descartou a possibilidade de uma estrutura opaca. Provavelmente se trata de uma nuvem de poeira estelar, por exemplo.

O asteroide interestelar Oumuamua, detectado em 2017, levantou questionamentos até mesmo de cientistas sérios, quanto a possibilidade de ser uma nave ou sonda alienígena, por diversas características peculiares, como o “formato de charuto”, a velocidade e sua rota, outra hipótese que foi descartada, em 2017, por um estudo na Nature Astronomy.

A busca continua

Apesar de uma certa relevância de alguns episódios, como o caso da estrela Tabby e o Oumuamua, cientistas do SETI reclamaram, recentemente, que no geral as busca pela vida alienígena não é muito levada a sério no campo científico. O SETI sobrevive à duras custas. Até 1993, a NASA investia relativamente bastante dinheiro na busca por extraterrestres. Na época, um senador norte-americano, no entanto, conseguiu retirar esse investimento, defendendo que era um desperdício de dinheiro. Conforme disse à BBC o diretor do Observatório Nacional de Radioastronomia dos EUA, Dr. Anthony Beasley, é “hora do SETI sair do frio e ser adequadamente integrado a todas as outras áreas da astronomia”.

Agora, alguém grande entrou na jogada. O maior radiotelescópio do mundo, FAST, localizado na China, iniciou oficialmente as buscas pela vida extraterrestre, com seu meio quilômetro de diâmetro. Em meio à xenofobia dos ocidentais em relação ao Chineses, amplificada pela covid-19, guerra comercial entre EUA e China e a ascensão da China como protagonista global, uma matéria da Space.com nos leva a entender que muitos americanos veem o FAST como concorrência, e que em breve haverá uma “corrida” pela busca de alienígenas. No entanto, Douglas Vakoch, presidente do METI International, disse à Space que “no SETI, a cooperação internacional vence a concorrência”. Ele ainda acrescenta: “Astrônomos de qualquer país teriam um orgulho especial em serem os primeiros cientistas a detectar alienígenas inteligentes, mas os astrônomos que insistem em fazer isso sem o apoio de colegas de outros países correm o risco de perder a confirmação de sua descoberta”.

O FAST tem, de fato, uma capacidade de detecção, processamento e análise enorme, mas a ciência se faz com desconfiança. A melhor forma de validar uma detecção é se ela for feita por dois observatórios independentes. Por isso a colaboração internacional é tão importante e as rixas nos campos políticos, econômicos e militares, devem ser deixadas de lado, no campo científico. Um lado necessita do outro.

Um radiotelescópio dessa escala ter entrado nessa missão é tão importante porque a atmosfera da Terra oferece pouca interferência para ondas de rádio, sendo um ótimo caminho para buscar pistas pelo espaço.

O FAST se enquadra em uma categoria que chamamos de single dish, ou telescópio de prato único. O mais comuns para grandes tamanhos, é o telescope array, algo como matriz de telescópios. Esse último se trata de um grupo de telescópios não muito grandes, mas que virtualmente funcionam como um telescópio gigante. Calcula-se que o FAST poderá coletar até 38 GB de dados por segundo. Se isso fosse uma velocidade de internet, seria um pacote de 304 mil mega (megabits). É um fluxo tão grande, que para o armazenamento ser plausível, uma análise de dados preliminar deve ser feita em tempo real utilizando machine learning (uma “sub-inteligência artificial”), para filtrar e selecionar os dados que serão armazenados, conforme disseram cientistas chineses do SETI em relação ao FAST 

Nos últimos 60 anos, a sensibilidade da tecnologia de captação de sinais de rádio dobrou a cada 3,6 anos, e continua melhorando. Ainda assim, só conhecemos o rádio há 100 anos e somos uma espécie que remonta a algumas centenas de milhares de anos. Somos muito novos na tecnologia geral e a busca por vida alienígena é algo que está apenas no início. O nosso pior medo é que o grande filtro seja um fato, mas dado o nosso baixo estágio de evolução como civilização, pode ser que apenas não enxergamos um universo rico em vida, como propõe a equação de Drake.

Referências:

  1. BBC. “Astronomers want public funds for intelligent life search”. Acesso em: 25 mai. 2020.
  2. Futurism. “Sorry, but ‘Oumuamua the Asteroid Wasn’t Sent by Aliens, Say Scientists for Some Reason Dignifying This Yet Again”. Acesso em: 25 mai. 2020.
  3. Revista Galileu. “Estrela de Tabby não abriga megaestrutura alienígena, conclui pesquisa”. Acesso em: 25 mai. 2020.
  4. Space. “Ready, SETI, go: Is there a race to contact E.T.?”. Acesso em: 25 mai. 2020. 
  5. ZHANG, Zhi-Song et al. “First SETI Observations with China’s Five-hundred-meter Aperture Spherical radio Telescope (FAST)”; The Astrophysical Journal; AirXiv. Acesso em: 25 mai. 2020.