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As polêmicas medidas defendidas por alguns empresários e a população bolsonarista, que vão contra recomendações da OMS e de outros órgãos internacionais, tem como justificativa o discurso de que a economia não pode parar, e que a crise que essa interrupção pode causar é muito maior do que o número de mortos. Tal medida, no entanto, foi abandonada pela Itália, por exemplo, quando o problema saiu do controle.

É fato que o isolamento vertical – isolamento de apenas os grupos de risco – não funciona na contenção do vírus, como mostrou a Itália, porque a dinâmica da sociedade é muito complexa. Mas aí entra outra dúvida: do ponto de vista científico, a parada da economia não pode matar muito mais gente?

Três economistas, Sergio Correa, do Banco Central americano, Stephan Luck, do Banco Central de Nova York, e Emil Verner, do MIT, desenvolveram um complexo estudo onde compararam 43 cidades dos Estados Unidos pós pandemia do H1N1, a Gripe Espanhola, ocorrida em 1918. Dessas cidades, uma parte tomou medidas radicais, como isolamento social quase total, proibição de aglomerações e medidas de higienização de locais públicos, muito semelhante às medidas tomadas contra o Covid-19; outra parte tomou medidas mais tímidas.

A indústria estava, é claro, a todo vapor, voltada a produzir armamento para a guerra, que durou de 1914 até 1918. No entanto, a pandemia levou a uma enorme redução do fluxo industrial. A taxa de mortalidade já representou em 1918, em relação a 1917, uma queda de 23% nos empregos industriais e de 18% na produção. Houve também uma redução de 4% nos ativos bancários.

Se pensarmos bem, a economia em 1918 e a hoje são muito diferentes. No entanto, não podemos descartar os resultados que o estudo nos apresenta, já que em vários pontos há diversas semelhanças. Foi constatado que em locais onde houve o combate da doença, também houve uma recuperação mais rápida da sociedade e, consequentemente, mais preparada para o crescimento da economia. Não é à toa que países como a Coreia do Sul e Alemanha — esta última conseguiu até reduzir a taxa média de mortes – estão tomando tantas medidas medidas de mitigação, com valores de dinheiro altíssimos.

A China, que no início errou, quando o prefeito de Wuhan tentou esconder e ignorar o problema, após o estouro também agiu de forma bastante agressiva, parando sua economia, que hoje sofre. Agora, já vencendo o vírus, se prepara para um possível segunda onda, ao invés de tentar recuperar rapidamente sua economia.

Devemos aprender com os erros, e aproveitar de análises científicas, para sermos guiados por medidas técnicas. O prefeito de Milão, por exemplo, admitiu seu erro ao apoiar a campanha “Milão não para”. No Brasil, vemos um movimento bastante perigoso, o “O Brasil não pode parar”, que é inclusive defendido pelo presidente, e é, por isso bastante criticado, por fazer recomendações irresponsáveis que vão contra ao consenso mundial.

Se você pode, e não precisa trabalhar, fique em casa. A crise, no caso do Brasil, está apenas começando, e é só com a compreensão da população que podemos enfrentá-la sem sofrer tanto quanto a Itália. Não podemos olhar para esse momento como um movimento político.

Referências:

  1. CORREIA, Sérgio et al. Pandemics Depress the Economy, Public Health Interventions Do Not: Evidence from the 1918 Flu. Acesso em: 30 mar. 2020.
  2. LINDE, Pablo. Espanha e Coreia do Sul, exemplos opostos de controle epidemiológico do coronavírus; El País. Acesso em: 30 mar. 2020