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Nosso sistema cognitivo, por motivos evolutivos funciona com o mínimo de energia e tempo possível otimizando seu desempenho. Os atalhos cognitivos são, dessa forma, fundamentais para nossa sobrevivência no ambiente. Muitas vezes fazemos generalizações a partir de poucas informações, o que nos permite ter maior sucesso nas mais diversas atividades diárias, mas, em alguns momentos estas mesmas generalizações nos conduzem a erros. Para resolver problemas e tomar decisões (muitas vezes em poucos segundos) nós recorremos a “atalhos” cognitivos chamados de heurísticas e algoritmos. Esta é uma área bastante estudada pela Psicologia Cognitiva e Social.

O algoritmo consiste em uma regra que se executada de maneira correta nos leva a uma solução, como por exemplo, uma fórmula matemática. Digamos que você tem uma reunião numa cidade vizinha em que a distância é de 50km. Você pretende dirigir a uma velocidade média de 100km/h e precisa saber qual o tempo aproximado de viagem para chegar ao seu compromisso sem atraso. Você pode dispor da fórmula “Velocidade Média (Vm) = Distância (S) / Tempo (t)” para chegar a uma resposta:

Vm = S/r
100 = 50/t
t = 50/100
t = 0,5 hora ou 30 minutos

Você não precisa saber as raízes matemáticas e físicas para se utilizar da fórmula, mesmo assim consegue obter uma resposta efetiva para o seu problema em questão. Entretanto, não existem algoritmos para todos os problemas que precisamos resolver, então podemos utilizar de heurísticas que nos ajudem na solução. Heurística é uma estratégia de pensamento que pode nos levar a solução de um problema. Porém, as heurísticas, diferentemente dos algoritmos, podem nos levar a erros. O uso de algoritmos garante uma solução, enquanto que as heurísticas “podem” nos levar a uma solução.

Existem diversas heurísticas, no entanto, vamos explorar apenas algumas das principais presentes no nosso cotidiano e ver alguns exemplos que facilitam nossa compreensão desse fenômeno:

Heurística de Representatividade

Regra que é aplicada quando se julga uma pessoa ou coisa pelo grau em que elas representam certos grupos, pessoas ou categorias. Estes grupos, pessoas e categorias correspondem as nossas representações mentais e nem sempre à realidade.

Consideremos a seguinte situação: Linda, tem 31 anos, solteira, sincera e muito inteligente. Se especializou em filosofia na faculdade. Durante o curso se mostrou uma estudante profundamente interessada em discriminação e outras questões sociais, também participou em manifestações contra a energia nuclear. Com base nessa descrição, você diria que é mais provável que:

a. Linda é caixa de banco
b. Linda é caixa de banco e atua no movimento feminista

A maioria das pessoas responde a que a alternativa mais provável é a letra b, pois Linda representa melhor a imagem que essas pessoas tem de uma feminista (Mellers et al., 2001). Mas agora vamos refletir um pouco mais. A probabilidade de Linda ser caixa de banco e além disso ser feminista é maior que a de ser apenas caixa de banco? Não, pois a conjunção de dois fatos não pode ser mais provável que um dos fatos sozinhos.

Heurística de Disponibilidade

Consiste no julgamento da probabilidade de um evento com base na facilidade de se recuperar tal evento na memória. Geralmente utilizamos a memória mais vívida e facilmente disponível para julgar a probabilidade de que algo ocorra ou sua importância. Julgamos que eventos que nos lembramos sejam mais prováveis de acontecer no futuro do que os que são de difícil recordação.

É comum vermos pessoas com medo de voar de avião e com maior preferência por se transportar de carro quando isso é possível. Esse fato acontece apesar de as estatísticas demonstrarem que há muito mais chances de se sofrer um acidente de carro do que de avião. O que acontece é que alguns eventos são mais dramáticos e quando acontecem despertam grande atenção da mídia e do público. Quedas de avião, terremotos, ataques terroristas geralmente ficam mais disponíveis em nossa memória pela exposição e drama emocional envolvidos nessa situação. 

Ficamos então preocupados com que esses eventos se repitam. Existem doenças que matam anualmente uma quantidade de pessoas bem maior do que ataques terrorista e deixamos de nos alarmar com a prevenção de tais doenças, pois estamos preocupados com coisas bem menos prováveis, como o terrorismo. Em algumas ocasiões essas heurísticas podem ser positivas quando alertam para um perigo maior que pode estar se desenvolvendo e não está tão óbvio a curto prazo. Como é o caso de grandes tempestades, furacões e outros eventos dramáticos que sinalizam as mudanças climáticas acontecendo a nível global.

Heurística de Familiaridade

Envolve o julgamento de algo familiar como sendo superior a algo desconhecido. Uma ilustração muito tangível dessa heurística é a nossa ida ao supermercado para fazer compras. Digamos que você escolha sempre a mesma marca de café ao ir ao supermercado há muitos anos. Provavelmente as características dessa marca te agradam e mesmo que você não tenha experimentado todas as outras disponíveis você conclui suas compras e economiza tempo. Imagina se toda vez você tivesse que passar um bom tempo escolhendo qual marca levar? Bem, essa parece ser uma característica producente dessa heurística no nosso dia-a-dia.

Entretanto, há contextos em que essa heurística pode trazer mais prejuízos do que benefícios. Imagine um médico psiquiatra que é acostumado a prescrever um mesmo medicamento para inúmeros casos de sintomas depressivos que chegam ao seu consultório. Em algum momento o psiquiatra pode se deixar influenciar pela familiaridade com tal medicamento e seu histórico de sucesso nos casos anteriores que atendeu, deixando de lado características importantíssimas dos dados clínicos e diagnóstico do paciente. Dessa forma a heurística de familiaridade poderia diminuir as chances de um tratamento medicamentoso mais preciso e eficaz para o caso em questão.

Heurística de Ancoragem ou Efeito de Ancoragem

Consiste em considerar um valor particular para uma quantidade desconhecida antes de estimar essa quantidade. A estimativa final fica mais próxima do valor inicial que foi considerado, por isso é utilizada a referência de uma “âncora”. O efeito de ancoragem tem resultados robustos na Psicologia Experimental e talvez, quem sabe, seja um dos vieses de pensamento de maior impacto concreto em decisões. Se você ainda não entendeu muito bem vamos elaborar de maneira mais clara e exemplificar.

Se alguém te perguntasse se a população de Lisboa, capital de Portugal, é maior ou menor que 5 milhões de habitantes e depois pedisse que você estimasse qual a população, você daria uma estimativa muito mais alta do que se a pergunta de ancoragem fosse: se a população de Lisboa é maior ou menor que 1 milhão de habitantes? Quando você pondera quanto pagaria pela compra de um apartamento, estará sendo influenciado pelo preço lançado inicialmente pelo vendedor. O apartamento sempre parecerá mais valoroso se o preço inicial for elevado. 

No cotidiano, podemos tentar afastar a influência desses valores na nossa decisão final, o que pode ou não funcionar. A tentativa de se afastar da âncora é chamada de ajustamento, que pode funcionar em certa medida ou não dependendo da situação. Há sempre um grau de incerteza quando há um ajustamento, que se torna trabalhoso em algumas situações e quase impossível de se afastar. Existem infinitas situações em que o efeito de ancoragem pode influenciar nossas decisões. Muitas vezes essas estratégias são utilizadas pelo mercado para influenciar no comportamento do consumidor e outras esferas das nossas vidas.

A relevância positiva e negativa das heurísticas

A conclusão à qual chegamos é de que a economia do uso informações e tempo é bastante adaptativa para o ser humano, chegando a resultados satisfatórios gastando menos recursos, energia e tempo. Nossa sobrevivência muitas vezes depende da capacidade do cérebro de sentir, perceber e reagir ao ambiente com rapidez. Estudiosos e desenvolvedores de Inteligência Artificial hoje se baseiam nas características do pensamento humano para tornar computadores mais eficientes na resolução de problemas. Entretanto, isso não pode nos fazer acreditar que a economia no uso de informações disponíveis para uma tomada de decisão sempre irá nos direcionar a soluções precisas e acuradas à realidade. Nosso cérebro tem um jeito próprio de fazer “cálculos estatísticos” com dados disponíveis em nossa vida. “Emoção e razão”, como são conhecidos popularmente, andam lado a lado, sendo faces diferentes da mesma moeda que nos afetam inseparavelmente em nossa percepção da realidade. 

Dessa forma, com tantos vieses e limitações, decisões relevantes podem trazer prejuízos a si e a outrem.  É de fundamental importância ter acesso a informações científicas de qualidade quando se trata de decisões com grande impacto social, econômico e pessoal a si e a outra pessoa. O método científico tenta a todo momento afastar o máximo possível seu objeto de estudo dos vieses de pensamento, capturando o máximo da realidade, bem além da pura percepção humana. Temas como aquecimento global, pandemias, políticas públicas etc. devem ser tratados com muito rigor, não apenas com perspectivas superficiais e pessoais, mas sim com amplas visões e métodos rígidos e confiáveis que possam nos dar a maior probabilidade de sucesso em nossas decisões.

Indicação de leitura: 

Rápido e Devagar. Duas formas de pensar de Daniel Kahneman.

Referências:

  1. FELDMAN, Robert S. Introdução à psicologia. AMGH Editora, 2015. p. 243-245
  2. KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Objetiva, 2012. p. 130-139
  3. MELLERS, Barbara; HERTWIG, Ralph; KAHNEMAN, Daniel. Do frequency representations eliminate conjunction effects? An exercise in adversarial collaboration. Psychological Science, v. 12, n. 4, p. 269-275, 2001.
  4. MYERS, David G. Psicologia Social-10. AMGH Editora, 2014. p. 93-95