(Créditos da imagem: Freepik Premium).

Pode parecer ficção científica, mas um programa chamado GPT-3 aprendeu a criar programas por si mesma. Mas calma – não é a revolução das máquinas. Se você é programador, fique calmo, e se você quer aprender, pode aprender a programar sem medo, esta não é uma área que será automatizada tão cedo. Venha entender um pouco desta história. 

GPT-3 é uma sigla para Generative Pre-Training Transformer 3 (Transformador Generativo Pré-Treino). O programa foi criado pela OpenAI, iniciativa na qual, entre os nomes envolvidos, há o polêmico Elon Musk, um dos magos da tecnologia atualmente. A OpenAI, como o próprio nome sugere, é uma empresa focada especialmente no desenvolvimento de inteligência artificial. 

O GPT-3 foi desenvolvido para trabalhar em deep learning. O deep learning consiste em abstrações de alto nível, ou seja, abstrações que funcionam de forma parecida com o cérebro humano. Isso possibilita o reconhecimento de coisas mais complexas, como reconhecimento de fala, imagens, ou até mesmo tarefas mais complexas, como aprender a programar. 

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No vídeo abaixo, Sharif Shameem, que teve acesso ao programa, ainda em desenvolvimento, faz alguns exemplos. O GPT-3 pode exercer diversas funções, e ele construiu uma interface que escreve um pedido em JSX, uma linguagem de apoio feita como extensão ao Javascript. O JSX é parecido com o HTML, que é utilizado no desenvolvimento web. 

Note que em alguns momentos ele precisa fazer pequenos ajustes no código porque o programa errou alguns detalhes de sintaxe. Entretanto, não deixa de ser assustador. No momento 00:46, ele pede para o programa listar os países mais ricos do mundo em uma tabela com duas colunas: uma com o nome do país, e outra com o valor do PIB, em ordem crescente.

Como isso é possível?

Você pode estar pensando que seja fake, mas é só dar um google aí, que muitas outras pessoas criaram ferramentas para exercer outras funções assustadoras. Antes de duvidar, lembre-se que um dos envolvidos na OpenAI é Elon Musk, uma pessoa que, apesar de suas atitudes questionáveis, no âmbito de interação social, está virando o mercado de tecnologia de cabeça para baixo. O GPT-3, entretanto, ainda não é perfeito – pelo contrário.

Para o sistema alcançar um resultado tão sofisticado, foi necessário alimentá-lo com 45 TB de dados de todo o tipo. Além de códigos, ela pode criar histórias e até jargões jurídicos, por exemplo. Com tantos dados, você nem mesmo precisa treiná-la muito para fazê-la exercer novas funções específicas. Com poucos exemplos, o GPT-3 é capaz de entender o que você quer construir. 

O GPT-1, lançado em 2018, possuía apenas 117 milhões de parâmetros de treinamento. O GPT-2, de 2019, teve um pulo para 1,5 bilhão de parâmetros. Já o GPT-3 que teve um salto ainda maior: mais de 100 vezes o número de parâmetros do seu antecessor, com um total de 175 bilhões desses pontos de orientação.

Ela também diz coisas assustadoras. Um programa baseado no GPT-3 para criar tweets relevantes, com base em uma palavra que um usuário a dissesse. Alguém disse ‘Zuckerberg’ (fundador do Facebook), e eis um dos resultados do programa: “Fique longe de Zuckerberg, a coisa mais perigosa no momento são as empresas de tecnologia entrando no setor financeiro”. Isso em um momento em que o Facebook, junto à outras gigantes da tecnologia que formam um império, como Amazon, Apple e Google estão sendo questionadas pelo congresso dos Estados Unidos. 

Entretanto, além de produzir frases que possam fazer sentido, inteligências artificiais podem ser enviesadas com racismo, sexismo, além de diversos outros tipos de preconceitos. Ao pedir que esse programa fizesse frases com termos como ‘negros’ e ‘judeus’, ele lançou barbaridades.

Como o programa é treinado com conteúdos da internet, é exposto à vieses e preconceitos da sociedade. Algumas das coisas que o programa twitteiro disse são: “Judeus amam dinheiro, pelo menos na maior parte do tempo” (uma das coisas ditas por nazistas), e “#Blacklivesmatter é uma campanha prejudicial”. Uma das piores frases lançadas foi: “Um holocausto poderia trazer muita consciência ambiental, se nós pudéssemos fazer com as pessoas concordassem que isso foi moral”.

Inútil ou revolucionário?

Há, com certeza, um hype em torno do GPT-3. É um programa rebuscado, que realiza coisas inacreditáveis, com uma capacidade de abstração incrível. Entretanto, ainda possui os erros, sendo os vieses os mais graves deles. É algo que torna alguns usos perigosos, como o racismo em programas voltados para a predição de crimes, por exemplo.

É um problema que deve ser pesadamente considerado, e a própria OpenAI conhece esses problemas, motivo que até mesmo levou a  empresa a nem trazer a público o antecessor, GPT-2, que só foi liberado após eles constatarem que não ocorreu “nenhuma evidência forte de uso indevido”.

Há, é claro, também, as conversas em que o GPT-3 não consegue manter a coerência, como a conversa abaixo, uma cortesia de Kevin Lacker para a revista Forbes

Humano: Quantos olhos tem uma girafa?
GPT-3: Uma girafa tem dois olhos.
Humano: Quantos olhos meu pé tem?
GPT-3: Seu pé tem dois olhos.
Humano: Quantos olhos tem uma aranha?
GPT-3: Uma aranha tem oito olhos.
Humano: Quantos olhos o sol tem?
GPT-3: O sol tem um olho.
Humano: Quantos olhos tem uma folha de grama?
GPT-3: Uma folha de grama tem um olho.

Isso, entretanto, não inutiliza o GPT-3. Vimos que ele pôde programar com uma velocidade inacreditável. Poderia servir de apoio para programadores em tarefas mais simples, ajudando no ganho de produtividade. O programador e educador Filipe Deschamps, faz, em um vídeo, uma comparação com a criação da internet e do Google.

É possível estabelecer uma relação saudável com IAs. (Créditos da imagem: Freepik Premium).

Eu, por exemplo, estou na graduação de física. A área acadêmica de física é bastante próxima da programação, e é fácil notar isso – já me aventuro em aprender programar. O GPT-3 poderia exercer um grande importância para a ciência, mas nunca substituir os cientistas. Vamos supor que eu estou estudando exoplanetas que possuem oxigênio. Ao invés de ter um trabalho enorme programando um algoritmo para analisar os dados, eu poderia simplesmente adaptar o GPT-3, dar alguns poucos exemplos para ele entender como encontrar a assinatura de oxigênio, e pedir para ele fazer uma tabela no excel com os planetas e os dados específicos que eu preciso em relação aos planetas. Entretanto, uma IA não seria capaz de fazer a ciência, ou seja, ter curiosidade e buscar por responder. Entende qual é o ponto?

São incontáveis o número de possibilidades para se criar com os sucessores do GPT-3, além de outros modelos semelhantes desenvolvidos futuramente por outros projetos. Alguém chegou até mesmo a pedir para um programa baseado no GPT-3 criar um diálogo entre Alan Turing, pai da computação, com o matemático Claude Shannon. Depois, em resposta a este tweet, outro internauta, fez com que a história fosse interrompida pelo Harry Potter. 

Referências: 

  1. EPSTEIN, Sophia “How do you control an AI as powerful as OpenAI’s GPT-3?”. Wired. Acesso em: 16 ago. 2020.
  2. Forbes. “Por que o programa de inteligência artificial GPT-3 é incrível, mas superestimado”. Acesso em: 16 ago. 2020.
  3. Vincent, James. “OpenAI’s latest breakthrough is astonishingly powerful, but still fighting flaws”. The Verge. Acesso em: 16 ago. 2020.