O acelerador de partículas Sirius deveria começar os experimentos ainda este ano. (Créditos da imagem: Sebastiao Moreira/EPA-EFE/Shutterstock).

Os pesquisadores brasileiros estão em pé de guerra depois que o governo do presidente Jair Bolsonaro anunciou no final do mês passado que havia congelado 42% do orçamento para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) do país.

A decisão é especialmente dolorosa porque o MCTIC já estava lutando com um orçamento que estava entre os mais baixos em 14 anos. O congresso do Brasil aprovou 5,1 bilhões de reais para o MCTIC em 2019; o congelamento, anunciado em 29 de março, deixa o ministério com apenas 2,9 bilhões de reais pelo resto do ano.

A menos que os colaboradores do governo liberem alguns dos fundos congelados, as agências do MCTIC, como o CNPq — a principal agência brasileira de fomento à pesquisa — podem ficar sem dinheiro em julho. O governo tentou cortar o orçamento do MCTIC em 44% em 2017, mas restaurou parte do dinheiro no final daquele ano.

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O congelamento vai paralisar o desenvolvimento científico e tecnológico do país se o governo não reverter a decisão, disse a Academia Brasileira de Ciências em um comunicado. “Levará décadas para reconstruir a capacidade científica e de inovação do país.”

Ainda não está claro como o congelamento afetará cada uma das agências do MCTIC e seus 16 institutos federais de pesquisa. Entretanto, o governo anunciou um congelamento de quase 80% para os gastos do MCTIC em infraestrutura — incluindo o recém-inaugurado acelerador de partículas Sirius em Campinas, que os físicos almejam usar para estudar a estrutura da matéria. Os cientistas estão no limite, temendo projetos atrasados, esforços de pesquisa desperdiçados e perda de competitividade.

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Cortar até o osso

Os trabalhadores conseguiram concluir a construção do prédio principal do síncrotron Sirius e de dois dos seus três aceleradores no ano passado, e os pesquisadores planejavam iniciar experimentos ainda neste ano, disse Antonio Roque da Silva, diretor do projeto. Contudo, os pesquisadores receberam apenas metade dos 255 milhões de reais que precisam para administrar a instalação durante este ano.

O que mais preocupa Roque é perder cientistas. “Muito dos pesquisadores recebem constantes ofertas de emprego em laboratórios no exterior”, disse ele. “Perder-los é o maior risco para o projeto.”

Ronald Shellard, diretor do Centro Brasileiro de Pesquisa em Física (CBPF) no Rio de Janeiro, teme pela capacidade do Brasil de honrar os compromissos internacionais. O CBPF faz parte de 20 colaborações científicas internacionais, incluindo o Large Hadron Collider, próximo a Genebra, na Suíça — e o Observatório Pierre Auger, um observatório de raios cósmicos em Malargüe, na Argentina.

A principal agência brasileira de fomento à pesquisa já estava em apuros antes do último congelamento orçamentário. Entretanto, o Congresso reduziu o orçamento do CNPq para estudantes de graduação e pós-graduação de 959 milhões de reais em 2018 para 785 milhões de reais em 2019. O CNPq também iniciou o ano de 2019 com uma dívida de 300 milhões de reais. Se as coisas continuarem como estão, o dinheiro para bolsas de estudo durará apenas até setembro, disse o presidente da agência, João Filgueiras de Azevedo.

Mas mesmo que o CNPq possa cumprir seus compromissos com bolsas de estudos, “não há dinheiro para bolsas de pesquisa”, diz Luiz Davidovich, físico da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente da Academia Brasileira de Ciências.

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Fonte:Nature
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Giovane Almeida
Sou baiano, tenho 18 anos e sou fascinado pelo Cosmos. Atualmente trabalho com a divulgação científica na internet — principalmente no Ciencianautas, projeto em que eu mesmo fundei aos 15 anos de idade —, com ênfase na astronomia e biologia.

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