Ilha de Baffin. (Créditos da imagem: Jennifer Latuperisa-Andresen/Unsplash).

Cientistas descobriram um remanescente de uma crosta continental da Terra de milhões de anos atrás, incorporado no deserto isolado do norte do Canadá.

A Ilha Baffin, localizada entre o continente canadense e a Groenlândia, é uma vasta extensão do Ártico, cobrindo mais de 500 mil quilômetros quadrados, tornando-a a quinta maior ilha do mundo.

Embora a ilha compreenda parte do mais novo território reconhecido no Canadá — Nunavut, formalmente estabelecido em 1999 — uma nova descoberta mostra que essa antiga massa terrestre não apenas tem laços discretos com um passado distante, como também realmente emana de um éon geológico longínquo.

Ao analisar amostras de rochas ígneas recuperadas da perfuração de exploração de diamantes na província de Chidliak Kimberlite, nos trechos ao sul da ilha de Baffin, os pesquisadores identificaram uma assinatura mineral na rocha que nunca esperavam encontrar.

“Os quimberlitos são como foguetes subterrâneos que embarcam passageiros a caminho da superfície”, explica a geóloga Maya Kopylova, da Universidade da Colúmbia Britânica. “Tais passageiros são pedaços sólidos de paredes rochosas que carregam uma riqueza de detalhes em condições muito abaixo da superfície do planeta ao longo do tempo”.

Nesse caso, esses passageiros haviam completado uma jornada muito longa. A equipe diz que rochas de kimberlita como essa, formadas em profundidades abaixo de 150 quilômetros, são levadas à superfície por forças geológicas e químicas.

Em termos de componente geológico, seu surgimento sob a moderna Baffin Island representa o fim de uma dispersão colossal que ocorreu há aproximadamente 150 milhões de anos, durante a fenda da placa continental do cráton do Atlântico Norte (NAC, na sigla em inglês).

Este NAC refere-se a pedaços de rochas litosféricas que datam bilhões de anos atrás ao Archean Eon, representando algumas das melhores exposições da primeira crosta continental da Terra.

Dividida em fragmentos há milhões de anos, o NAC foi exposto na Escócia, Labrador e Groenlândia, mas os pesquisadores não esperavam encontrá-la na Península Hall de Baffin Island.

“A composição mineral de outras porções do Cráton do Atlântico Norte é tão única que não houve dúvida”, afirmou Kopylova. “Foi fácil amarrar as peças. Crátons antigos adjacentes no norte do Canadá – no norte do Quebec, no norte de Ontário e em Nunavut – têm mineralogias completamente diferentes”, completou.

Para alcançar suas descobertas, a equipe usou várias técnicas analíticas 3 incluindo petrografia, mineralogia e termobarometria — para estudar 120 amostras de rochas, chamadas xenólitos, retiradas da província de Kimberlita.

Os resultados mostraram que o manto de Chidliak “lembra muito” as rochas NAC do oeste da Groenlândia em termos de composição a granel e química mineral, enquanto mostra inúmeros contrastes com marcadores de outras crateras.

“Concluímos que o manto de Chidliak demonstra uma afinidade com apenas um bloco adjacente de manto cratônico, o cráton do Atlântico Norte. Interpretamos essa semelhança como indicando a antiga coerência estrutural da litosfera cratônica do bloco da Península de Hall e o cráton do Atlântico Norte antes da divisão subsequente em fragmentos continentais separados”, explicam os autores em seu artigo.

As novas descobertas significam que descobrimos cerca de 10% a mais da extensão conhecida do NAC — um pedaço bastante considerável dessa crosta incrivelmente antiga. E, graças às novas técnicas de modelagem de mantos, também podemos imaginar o formato de algumas das primeiras formações rochosas conhecidas da Terra em profundidades muito maiores.

“Com essas amostras, podemos reconstruir as formas dos continentes antigos com base em rochas mais profundas do manto”, disse Kopylova. “Agora podemos entender e mapear não apenas a camada mais fina da Terra que compõe um por cento do volume do planeta, pois agora nosso conhecimento é literal e simbolicamente mais profundo”, concluiu.

Os resultados foram publicados no Journal of Petrology. [ScienceAlert].