(Créditos da imagem: EliasSch/Pixabay).

O mais famoso dos defensores da possibilidade de estarmos, nos últimos anos, sendo visitados por seres extraterrestres é, com certeza, o suíço Erich von Däniken, eternizado no livro “Eram os Deuses Astronautas?”. Giorgio Tsoukalos, personalidade do History Channel também ficou conhecido na internet com o meme “Aliens”.

Meme “aliens”. (Créditos da imagem: Reprodução).

É, de fato, bom sonhar com as possibilidades de seres tecnologicamente superiores habitando outros planetas e nos visitando constantemente às espreitas. Basta olhar para a ficção científica: Star Trek, Star Wars, Júlio Verne, O Guia do Mochileiro das Galáxias, Contato, ou aquelas versões de alienígenas malvados, que nos manipulam ou tentam invadir a Terra, como os clássicos They Live (Eles Vivem) e Independence Day.

No campo das notícias também é notável a influência do desejo pelos alienígenas, como os avistamentos de OVNIS, relatos de abdução, grandes desenhos em plantações, e até mesmo os que viraram piada, como o ET Bilu. É aí que entra a questão: por que os aliens, supostamente tão tecnologicamente superiores, viriam à Terra para “zoar”?

As evidências que possuímos da existência de visitas alienígenas ao planeta Terra são, em quase todos os casos, inconsistentes e apelam para teorias conspiratórias envolvendo grupos ocultos. Um pouco do apresenta a alegoria Um dragão em minha garagem, de Carl Sagan.

A possibilidade dos “deuses astronautas”

Segundo a teoria de von Däniken, os aliens teriam chegado à Terra, e atraído parte dos humanos selvagens. Os humanos, então, teriam sido treinados por ele, ensinados princípios de morais e, por fim, as mulheres teriam sido fertilizadas por eles, e esses filhos seriam uma “nova raça”, mais desenvolvida, o que possibilitou nosso estado atual de evolução.

Há uma tendência etnocêntrica, sempre que nos referimos a outra cultura ou civilização, seja no presente ou no passado, ou seja, tendemos a olhar para outros povos com o olhar calibrado para nossa sociedade; vemos então, as pessoas do passado como incapazes de muitos feitos a ele atribuídos, inferiores.

Um dos exemplos mais clássicos são as pirâmides do Antigo Egito. Como pode uma civilização de 4 mil anos fazer construções tão grandes e elaboradas? A resposta está na geometria: uma pirâmide é a forma mais estável de se fazer uma construção muito alta. Todo o processo de desenvolvimento e construção, incluindo a forma como se arrastavam aquelas pedras de toneladas já foi estudado pela ciência. Você pode ver isso nesse vídeo, do Nerdologia.

Outro grande mistério são as linhas de Nazca. Até hoje não conhecemos exatamente o seu propósito; são muitas as possibilidades. Mas uma coisa sabemos: não foram construídas por aliens. O pesquisador Joe Nickell, curioso pelas obras, parecidas com algumas também encontradas em alguns locais dos EUA, já as reproduziu, em 1982 (figura que que não sabe se é um pássaro, uma aranha, um peixe ou outra outra figura) com seu pai e mais alguns parentes, utilizando ferramentas rudimentares, sem auxílio aéreo.

Baalbek é uma cidade atualmente situada no Líbano. Com sinais de habitação desde a pré-história, a cidade foi bastante modificada pelos romanos. Uma gigante construção, conhecida como “Terraço de Baalbek”, atribuída pelos conspiracionistas como uma plataforma de pouso de naves, ela é,  na verdade, muito provavelmente uma construção de um tempo inacabado, como já mostrado em um estudo por Daniel Lohmann.

Os círculos nas plantações, denominados agroglifos, são outro mistério, que ufólogos dizem inexplicáveis, falando até mesmo em distorções no campo magnético terrestre causados pelas naves; nada muito científico. Na realidade, no entanto, dois amigos Doug Bower e Dave Chorley, já assumiram a autoria de vários desses desenhos, alguns muito planejados, feitos na madrugada, para que tais resultados fossem alcançados. É bastante provável, então, que os outros agroglifos pelo mundo foram outras pessoas que repetiram o mesmo processo dos dois amigos, como já explicado pelo próprio Carl Sagan, no conhecido livro “O mundo assombrado pelos demônios”.

Pautam-se também nessa teoria, o fato de que, na maioria das culturas, os deuses vêm dos céus. Isso entretanto, é também facilmente explicado pela veneração de astros como deuses, como o Sol, a Lua, e os planetas, que para um bom observador, destacam-se muito das estrelas no céu noturno, como Vênus e Júpiter. Algumas civilizações possuíam, inclusive, uma avançadíssima astronomia.

O imaginário popular é poderoso

Um dos momentos em que os extraterrestres mais se popularizaram foi ao final do século XIX e início do século XX, quando o astrônomo amador  Percival Lowell visualizou em Marte diversos canais, que só podiam ter sido feitos por vida inteligente. Surgiu, na época, a teoria de que os canais serviram para abastecer água para uma civilização já decadente, em um planeta que já estava secando. Apenas em 1971, com a sonda Mariner 9, constatou-se que os canais tratavam-se simplesmente de ilusões de ótica.

Os relatos de abduções e avistamentos se assemelham à crença da existência de demônios (não eram necessariamente criaturas malevolentes, havia outra interpretação do conceito de demônio). Durante a Idade Média, eram comuns os relatos de avistamentos de Íncubos e Súcubos, demônios sedutores.

São esses, o mesmo tipo de fenômeno, visto de formas diferentes. A imaginação é de natureza humana. Não é a toa que o auge de avistamento de objetos voadores se deu durante a Guerra Fria. Quando contextualizado, podemos entender tudo.

Então para os céticos não existem extraterrestres?

Acerca de 1670, em uma de suas obras, o famoso astrônomo Christian Huygens disse: “Que maravilhoso e surpreendente esquema temos aqui da magnífica imensidão do universo. Tantos sós, tantas Terras”. 

Com tantas estrelas e planetas pelo universo, é claro que deve existir vida em outros planetas. A equação de Drake, por exemplo, estima, através de determinadas variáveis, que só na nossa galáxia, devem existir entre mil e 100 milhões de civilizações inteligentes.

Se há tanta vida, por que não a conhecemos? É a essa pergunta que tenta responder o Paradoxo de Fermi. Ele propõe que para que a vida inteligente apareça, há algo que chamamos de “Grande Filtro” – algum fenômeno muito raro que só aconteceu pouquíssimas vezes e, por isso, há poucas civilizações no universo. Outra proposta, mais fantasiosa, seria algo como a primeira diretriz da Federação (de Star Trek), que civilizações mais avançadas não devem interferir em civilizações em estágios de desenvolvimento menor.

O fato é, se somos realmente visitados por alienígenas, apesar de epiódios estranhos, como a Noite dos Ovnis, não há evidências suficientemente convincentes, assim como o dragão na garagem. Entretanto, como já disse Carl Sagan: “Se não existe vida fora da Terra, então o universo é um grande desperdício de espaço”.

Referências: 

  1. DÄNIKEN, Erich von. Eram os Deuses Astronautas?. Editora Melhoramento, ed. 6, 2010.
  2. FRABETTI, Carlo. “O paradoxo de Fermi: por que nenhum extraterrestre entrou em contato conosco?”; El País. Acesso em: 02 abr. 2020.
  3. LOHMANN, Daniel. “Giant Strides towards Monumentality – The Architecture of the Jupiter Sanctuary in Baalbek / Heliopolis”. Acesso em: 02 abr. 2020.
  4. MENESES, Paulo. “Etnocentrismo e relativismo cultural: algumas reflexões”. Acesso em: 02 abr. 2020.
  5. NICKELL, Joe. “The Nazca Drawings Revisited: Creation Of Full-Sized Duplicate”. Acesso em: 02 abr. 2020.
  6. SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios. Companhia de Bolso; Ed. de Bolso, 2006.
  7. SÉRVULO, Felipe. “Equação de Drake: estimando as probabilidades de vida extraterrestre”; Ciencianautas. Acesso em: 02 abr. 2020.