(Créditos da imagem: USAF 388th Range Sqd., Genesis Mission, NASA).

“Um disco voador do espaço sideral pousou no deserto de Utah após ser rastreado por radar e perseguido por helicópteros”, diz a legenda da NASA sobre a fotografia. “O ano era 2004, e nenhum alienígena estava envolvido”.

A imagem viralizou a partir de 2018, quando a NASA a publicou em sua famosa série de “foto do dia”. O disco voador é real, mas não há nada de alienígena nisso. Na verdade, é uma missão fracassada da agência, que por problemas técnicos, se chocou violentamente com o solo do deserto no estado de Utah, nos Estados Unidos. No entanto, o fracasso não foi tão grande assim não. Mesmo com a sonda acidentada, os cientistas conseguiram recuperar algumas amostras para as análises laboratoriais. Vamos entender a história.

Missão Genesis

Em 2001, a NASA lançou a espaçonave Genesis. A missão retornou para a Terra, então, em setembro de 2004. Não era a espaçonave inteira que voltaria para a Terra, mas apenas a cápsula que armazenava as amostras de ventos solares (partículas altamente carregadas liberadas pelo Sol) coletadas durante um determinado tempo. 

A sonda Genesis. (Créditos da imagem: NASA/JPL).

A missão era inédita, e todos estavam animados. Desde as missões Apollo, que se finalizaram em 1972, nunca ninguém havia trazido novas amostras do espaço para a Terra. 

Basicamente, o papel de Gênesis era coletar dados sobre o Sol e coletar amostras dos ventos solares através de coletores que utilizavam materiais como, alumínio, safira, silício e ouro nos estados mais puros possíveis. Essas amostras deveriam  revelar muito sobre a história do sistema solar. A missão se revela no próprio nome da sonda: Gênesis, do grego, significa origem. 

“O que é empolgante sobre o Genesis é que os dados que ele retorna serão importantes para entender como nossa nebulosa solar se desenvolveu em um sistema planetário”, disse a Dra. Amy Jurewicz, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em um comunicado da NASA publicado alguns dias antes do acidente. “Acredito que todos – NASA, o público em geral e até mesmo cientistas fora da comunidade científica planetária – ficarão maravilhados com o quanto essa missão nos ensinará”.

O acidente do disco voador

No entanto, para a surpresa de todos, o inesperado ocorreu no retorno da lendária missão: um paraquedas deveria se abrir após 127 segundos de reentrada, mas isso não ocorreu. Como resultado, a nave se espatifou no chão a mais de 300 km/h, quando deveria fazê-lo levemente, tocando o solo de forma muito mais suave, para não danificar o experimento. 

Mais tarde, os especialistas da NASA encontraram o problema. A investigação foi descrita em um documento de mais de 200 páginas, mas o princípio é simples. Os paraquedas disparariam quando os sensores de força G (uma força causada pela aceleração que se parece com uma gravidade muito forte) detectassem uma determinada aceleração. No entanto, durante a montagem, os sensores foram colocados ao contrário e, como resultado, não dispararam. 

A cápsula de reentrada da Genesis (Créditos da imagem: REUTERS/Reuters TV).

Resultados

Mas não foi tudo completamente perdido. Ao visualizar a cápsula acidentada, os helicópteros a levaram imediatamente para o laboratório responsável, para tentar recuperar o máximo possível. Para alguns, poderia parecer tudo perdido, mas a persistência de alguns cientistas foi bastante útil. 

“Inicialmente, esperávamos poder publicar uma série de artigos dentro de um ano”, disse em 2007 o pesquisador Roger Wiens, do Laboratório Nacional de Los Alamos em entrevista ao portal de notícias da Nature. No entanto, obviamente tudo levou um pouco mais de tempo. Em laboratório, os cientistas conseguiram recuperar amostras contaminadas pelo violento choque com o solo.

“No planejamento original da Missão Genesis, identificamos 19 objetivos específicos de medição priorizados […]. A falha da cápsula de retorno de amostra tornou o cumprimento desses objetivos muito mais difícil em termos de perda de materiais do coletor e devido à contaminação da superfície de partículas”, diz um estudo de 2011 que analisou a contaminação e os processos de descontaminação após o acidente. 

“O motivo para otimismo […] [existe porque] o vento solar está claramente separado da contaminação de partículas derivada do acidente, embora a quantidade de separação seja pequena em termos absolutos” diz BURNETT et al. na conclusão do estudo. “Com base nas tendências atuais, o único efeito da queda será o atraso no cumprimento dos objetivos científicos do Genesis”.

(Créditos da imagem: NASA).
Os ventos solares nos atingem a todo momento e explicam muito sobre o sistema solar. (Créditos da imagem: NASA).

Em 2006, o primeiro estudo preliminar foi publicado. Em 2007, então, os estudos com as amostras progrediram mais. Nesse ano, foram publicados outros cinco trabalhos, além de muitos outros nos anos que se seguiram. A missão, então, foi um sucesso.

O maior legado da missão, talvez, veio em 2011. Naquele ano, dois estudos publicados no periódico Science (McKeegan, K. D. et al.MARTY B. et al.) demonstraram que possivelmente duas nebulosas diferentes fabricaram o sistema solar. McKeegan et al revela diferenças nas composições de isótopos de hidrogênio entre o Sol, a Terra e os asteroides, enquanto MARTY et al. detalha as diferenças nos isótopos do nitrogênio, para os mesmos corpos. Dessa forma, os dois trabalhos se complementam.

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Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pela divulgação científica. Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente curso Física na UFScar e escrevo para o Ciencianautas.