(Créditos da imagem: Freepik Premium).

2020 está sendo um ano recordista, e isso não é bom. Os cavaleiros do apocalipse da fome, das mudanças climáticas e das doenças estão chegando, muito antes do que prevíamos.

O fato se tornou um meme nas redes sociais mas não deixa de ser verdade que estamos presenciando o início do fim do mundo – ou apenas da espécie humana, já que possivelmente após a extinção do homem o planeta irá se recuperar, como nós que somos a causa desses problemas.

Sempre ouvimos falar que em cem anos as condições do planeta começarão a se alterar bruscamente se não mudarmos a nossa forma de explorar o planeta. Bom, aparentemente já estamos presenciando essas mudanças bruscas, muito antes do previsto.

Nem preciso abordar a pandemia, já que estamos todos cansados de ouvir falar sobre, e já abordamos em outro artigo aqui no Ciencianautas, além dos riscos que corremos de ter uma nova pandemia caso não agirmos, neste artigo. Vamos então, para alguns outros pontos:

1. Extinção das abelhas

Já existem criadores de abelhas voltados ao aluguel de abelhas para polinizar plantações. (Créditos da imagem: Freepik Premium).

As mortes em massa das abelhas em 2018 e 2019, no Brasil principalmente no Rio Grande do Sul, continua preocupando agricultores em 2020.

Diversos insetos são capazes de polinizar, entre mosquitos, vespas, borboletas e até mesmo pássaros como o beija flor. Entretanto, não é atoa que ano passado as abelhas foram declaradas os seres vivos mais importantes no planeta.

Cerca de 70% da produção de insumos para a alimentação humana depende diretamente da polinização das abelhas. Tradução: se as abelhas desaparecem, grande parte da humanidade morreria de fome.

Não só as abelhas estão em perigo: um estudo publicado em abril de 2019 no periódico Biological Conservation diz que mais de 40% de todas as espécies de insetos do mundo estão correndo risco de extinção e as causas são principalmente a perda de habitat e os agrotóxicos, ambos causados pela agricultura.

É bastante irônico que o principal afetado pelo sumiço das abelhas, o agronegócio, também seja o principal causador. Se aplicados de forma exagerada – o que ocorre -, os agrotóxicos são extremamente prejudiciais para os insetos, além de contaminar a água e os próprio seres humanos.

Isso não quer dizer, entretanto, que não se deve utilizar agrotóxicos. A produção de alimentos orgânicos em larga escala é impossível; o que devemos, é conciliar o máximo possível a utilização dos agrotóxicos com a preservação do meio ambiente. Isso é sim possível.

2. Furacões e outras implicações do aquecimento do oceano

Tempestade Tropical Cristobal vista por satélite no dia 3 de junho de 2020. (Créditos da imagem: NASA).

A água dos oceanos está se aquecendo muito além do comum, e umas das principais implicações imediatas desse fato é o aumento no número e na força de novos furacões.

Para um furacão se formar, a água precisa evaporar. Logo, se o oceano está mais quente, essa evaporação é maior. Quando a água evapora, ela perde a densidade e sobe pelo ar até determinada altitude.

Na atmosfera rarefeita, a temperatura é mais baixa, e por isso o vapor fica mais denso e desce novamente. Esse ciclo vai se repetindo, formando tempestades e ventos, que mais tarde, conforme ganham cada vez mais força, podem vir a se tornar furacões.

Em 2020, a temporada de furacões do Atlântico Norte se iniciou em 1 de junho, e no dia 3 de junho já havia três tempestades – potenciais furacões – relevantes o suficiente para receberem nomes.

Ademais, o aquecimento anormal dos oceanos pode matar as algas marinhas e fitoplânctons, maiores produtores de oxigênio do planeta, além de derreter geleiras e expor o permafrost, solo congelado carregado de gás carbônico, que pode ir para a atmosfera e piorar ainda mais o aquecimento global.

3. 40 graus celsius no Ártico

Os verões siberianos não costumam passar da faixa dos 20 graus Celsius. (Créditos da imagem: Freepik Premium).

Os alemães perderam a guerra para os soviéticos por causa do inverno de Moscou, que nem é tão frio, se comparado à Sibéria. Agora imagine a Sibéria, região mais fria da Rússia, que é até mesmo parte do Ártico, com uma temperatura de um verão de um país tropical.

A cidade de Verkhoyansk, no extremo norte da Sibéria, Rússia, registrou no último sábado (20) uma temperatura de 38 graus celsius, 18 graus acima da média para junho, onde é verão.

Anteriormente, a temperatura mais alta já registrada no Ártico foi em 1915 na cidade de Yukon, no Alasca. Na época, a temperatura atingida foi próxima: cerca de 37,7 graus celsius.

O tweet acima é do cientista Martin Stendel, do Instituto Meteorológico Dinamarquês. Entre o texto, ele diz: “Observe que o desvio de 5σ no noroeste da Sibéria seria um evento de 1 em 100.000 anos para uma distribuição normal de anomalias sem mudanças climáticas”.

Ou seja, provavelmente não é algo natural, que ocorreu ao acaso, por apenas um momento. É um fator muito provavelmente causado pelas mudanças climáticas, pois ocorreu muito antes do esperado, e possivelmente verificaremos mais casos assim futuramente.

Em um comunicado do Serviço de Mudança Climática do Copernicus, Freja Vamborg, cientista sênior do órgão, diz: “O que precisa ser considerado é que, embora o planeta como um todo esteja esquentando, isso não está acontecendo igualmente”.

Ela completa citando a maior sensibilidade da Sibéria: “A Sibéria Ocidental se destaca como uma região que mostra mais uma tendência de aquecimento com maiores variações de temperatura”.

4. Nuvem de gafanhotos na África

Nuvem de gafanhotos na África no início de 2020, semelhante ao caso da América Latina em junho. (Créditos da imagem: Reuters).

A nuvem de gafanhotos aqui na América Latina pode, de fato ter a ver com algo relacionado às mudanças climáticas. Entretanto, o foco do tópico é outro: há alguns meses, ocorreu outra nuvem na África há alguns meses, com a causa diretamente ligada às mudanças climáticas.

Quando a população de uma aldeia do Quênia avistou aquela nuvem cinza, no início de 2020, parecia uma simples nuvem de chuva. Após alguns instantes eles perceberam que era na verdade, um enxame formado por bilhões e bilhões de gafanhotos.

Tanto na nuvem latina quanto a africana, esses gafanhotos são extremamente destrutivos para a agricultura. Diariamente eles podem comer alimentos suficiente para alimentar 35 mil pessoas.

No caso da África, o enxame se formou graças a um período de chuva anormal. O Oceano Índico, que banha a costa oriental da África, estava anormalmente quente no fim de 2019.

Esse calor gerou maior evaporação da água, causando tempestades e ciclones que carregaram uma enorme quantidade de umidade para o continente, o que acabou gerando um ambiente mais propício para eles.

Esses gafanhotos são comumente solitários. Entretanto, quando as condições parecem boas, eles podem sofrer uma metamorfose, andando em grupo e se desenvolvendo mais rapidamente, se alimentando de tudo o que for possível, por isso destroem as plantações pelo caminho.

No caso da América do Sul, a nuvem se originou no Paraguai, que não possui litoral. Eles também andam em enxame em condições mais úmidas e quentes, mas aparentemente a causa de sua formação não está muito clara

Portanto, apesar de fazer sentido que se aponte para as mudanças climáticas como culpadas, no dia desta publicação ainda não é possível afirmar, mas em qualquer nova notícia, atualizaremos aqui. Vale lembrar que a aplicação de monocultura em larga escala também é um fato; a agricultura precisa ser repensada urgentemente.

Referências:

  1. AccuWeather. “Record-breaking Cristobal could approach US Gulf Coast as a hurricane”. Acesso em: 25 jun. 2020.
  2. Agência Pública. “Apicultores brasileiros encontram meio bilhão de abelhas mortas em três meses”. Acesso em: 25 jun. 2020.
  3. BAYO, Francisco Sanchez et al. “Worldwide decline of the entomofauna: A review of its drivers”; Biological Conservation. Acesso em: 25 jun. 2020.
  4. Copernicus Climate Change Service. “Copernicus comments on unusual temperatures in Siberia”. Acesso em: 25 jun. 2020.
  5. Folha de São Paulo. “Monocultura e mudanças climáticas favorecem formação de nuvem de gafanhotos”. Acesso em: 25 jun 2020.
  6. IFL Science. “It Was 38 Degrees Celsius In The Arctic Circle This Weekend”. Acesso em: 25 jun. 2020.
  7. National Geographic. “Algas Marinhas Podem Ajudar a Combater Alterações Climáticas”. Acesso em: 25 jun. 2020.
  8. Rádio Piauí; A Terra é Redonda Podcast. “O fim da picada”. Acesso em: 25 jun. 2020.
  9. The New York Times. “‘Like an Umbrella Had Covered the Sky’: Locust Swarms Despoil Kenya”. Acesso em: 25 jun. 2020.
  10. WOLOWSKI, Marina et al. “Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimento no Brasil”; BPBES. Acesso em: 25 jun. 2020.