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Cada vez mais pessoas têm preferido se chamar de “espirituais, mas não religiosas”, e a popularidade da espiritualidade vem se expressando até mesmo no aumento de publicações científicas sobre esse tema nos últimos anos (Oman, 2013). A propósito, de duas décadas pra cá, a Psicologia da Religião foi rebatizada como Psicologia da Religião e Espiritualidade (cf. Paloutzian & Park, 2013). Por outro lado, ainda não há um consenso sobre o que esse termo significa – tanto entre os leigos quanto entre nós, pesquisadores desse campo.

Pra você ter uma ideia dessa pluralidade de definições, Pargament (1999) vem defendendo que a espiritualidade se refere à busca pelo sagrado – o qual abarca tudo aquilo que é digno de reverência e, portanto, distinto do “mundo profano” (e.g., Deus, a transcendência e/ou uma Realidade Última). King e Koenig (2009), por sua vez, sugerem que isso diz respeito a crenças, práticas e experiências relativas a um (suposto) mundo espiritual. E há também definições naturalistas, seculares, ou totalmente despojadas de suposições dualistas. Harris (2015), por exemplo, – que é um ateu roxo inspirado pelo budismo –, argumenta que a vida espiritual envolve técnicas meditativas que nos fazem experimentar a dissolução do “eu” – o qual seria uma ilusão criada pelo cérebro. Deu pra entender a diversidade da coisa, né?

E essa selva de definições pode acabar prejudicando as investigações científicas. Digamos que dois pesquisadores queiram descobrir se pessoas mais espiritualizadas tendem a apresentar mais sentido de vida. Caso eles partam de entendimentos diferentes do que é espiritualidade, seus resultados podem ser perfeitamente opostos. Isso poderia causar não só confusão entre os leigos, mas também dificuldades entre os pesquisadores que queiram fazer um balanço geral das pesquisas sobre esse tema.

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Esse problema é agravado pelo fato de que alguns cientistas adotam definições de espiritualidade que se misturam com outros conceitos psicológicos já bem estabelecidos. Esse é o caso de um questionário desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde, o qual sugere que a presença de sentido na vida faz parte do que seriam as crenças e/ou experiências espirituais (cf. Moreira-Almeida & Koenig, 2009). Ora, instrumentos psicométricos que não diferenciam “joio” de “trigo” não são cientificamente úteis para a investigação sobre a relação entre “joio” e “trigo”! Por exemplo, Moreira-Almeida e Koenig comentam que concordam “fortemente com a importância de se incluir esperança, sentido de vida, otimismo, perdão e senso de admiração e maravilhamento em um instrumento de bem-estar ou qualidade de vida”, mas acham que “chamar esses constructos de ‘espiritualidade’ apenas acrescenta confusão”. Eles continuam afirmando que “qualidades como sentido de vida […] já têm nomes que descrevem esses constructos”, e “há pouca razão para incluí-los sob uma nova categoria, espiritualidade” (p. 844).

Enquanto cientistas, precisamos definir bem o que é “espiritualidade” – e isso significa, entre outras coisas, diferenciá-la de tantos outros conceitos psicológicos. Com isso em vista, Lindeman, Blomqvist e Takada (2012) conduziram uma pesquisa a fim de testar a hipótese geral de que a “espiritualidade seria melhor definida como a crença de que espíritos sobrenaturais são reais” (p.  167). Pra fazer isso, eles solicitaram que centenas de finlandeses e estadunidenses avaliassem afirmações e respondessem a perguntas sobre diversos temas, entre os quais:

  • Espiritualidade (p. ex., “Em que medida você se considera uma pessoa espiritual?”);
  • Religiosidade (p. ex., “Em que medida você se considera uma pessoa religiosa?”);
  • Crenças paranormais (p. ex., “Algumas pessoas têm a habilidade de prever o futuro”);
  • Valores pessoais (p. ex., benevolência, segurança e realização);
  • Saúdes física e mental (p. ex., “Nos últimos 30 dias, por quantos dias sua saúde mental não estava boa?”);
  • Conexões positivas com outras pessoas (i.e., se achavam as pessoas confiáveis, prestativas e justas);
  • Harmonia interna (p. ex., se sentiam uma paz profunda);
  • Sentido de vida (i.e., se a vida teria algum propósito e se a achavam excitante); e
  • Crença em espíritos sobrenaturais (p. ex., “É possível se comunicar com os mortos”).

Pra que a hipótese dos pesquisadores fosse corroborada, o nível de crença em espíritos sobrenaturais dos participantes deveria predizer (ou se associar com) o seu nível autodeclarado de espiritualidade.[1] Mais do que isso, essa autoavaliação espiritual não poderia se relacionar de forma marcante com as demais variáveis em jogo. A ideia que eles queriam testar, então, era a de que a espiritualidade se resume em crer em coisas como a comunicação com os mortos, a possibilidade de o nosso espírito fazer um passeio enquanto dormimos e a nossa capacidade de pensar, desejar e amar sem um cérebro.

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Em linha com as expectativas de Lindeman, Blomqvist e Takada, os participantes mais espiritualizados tendiam a ser mais convictos de que espíritos sobrenaturais existem. Além disso, muitas daquelas outras variáveis não se associaram com o nível de espiritualidade deles (p. ex., a maioria de seus valores pessoais, sua saúde e suas conexões positivas com outras pessoas). Embora outras relações estatisticamente significativas tenham sido identificadas (p. ex., entre espiritualidade e sentido de vida, paz interna e crenças paranormais), a maioria delas era de força fraca, e nenhuma foi tão forte quanto a que envolveu a crença em espíritos sobrenaturais.[2] Portanto, isso reforça a ideia de que a essência da vida espiritual é a crença em seres espirituais.

Fim de papo, então? Eu não seria tão otimista. Muitos pesquisadores seguem adotando definições alternativas de espiritualidade, e alguns deles são evidentemente avessos à ideia de reduzi-la a um ou outro tipo de crença (cf. Paloutzian & Park, 2013). Ultimamente, eu mesmo tenho preferido concebê-la como o conjunto de experiências e comportamentos derivados da crença em seres espirituais (Gontijo, 2019). Ainda que eu tenha sido inspirado por alguns trabalhos liderados pela Lindeman, trata-se de uma definição um pouco mais “inclusiva”, né? Agora, se se refere a um conceito cientificamente mais útil e preciso, só a realização de testes empíricos rigorosos irá nos dizer.

Mas eu não sei se essa “batalha conceitual” será um dia apaziguada pelo consenso científico – e é importante apontar que esse é só um dos pepinos diários com que os cientistas da minha área precisam lidar. Outro deles, e só pra te dar um exemplo próximo, diz respeito à diferenciação entre espiritualidade e religiosidade. Se cada vez mais pessoas têm se chamado de “espirituais, mas não religiosas”, o que exatamente há na religiosidade que não pertence à espiritualidade? Essa é a questão que eu abordei no meu vídeo abaixo, e esse é um dos tópicos que eu vou explorar com mais detalhes em dois eventos que ocorrerão em breve: um minicurso sobre espiritualidade e sentido de vida e um grupo de estudos em Psicologia da Espiritualidade. Caso você queira se aprofundar nesses temas, clique nos links aí pra se inscrever e/ou obter mais informações. Não é preciso ser pesquisador nem psicólogo pra participar, ok?

Este texto foi originalmente publicado por Universo RacionalistaLeia o original aqui.

Notas

[1] Normalmente, itens de instrumentos psicométricos possuem opções de resposta como “Discordo totalmente”, “Discordo”, “Nem discordo, nem concordo”, “Concordo” e “Concordo totalmente”. A cada uma dessas opções é atribuído um valor numérico (p. ex., “Discordo totalmente” = 1 e “Concordo totalmente” = 5), e isso permite que análises estatísticas sejam realizadas a fim de se testar se as variáveis de interesse estão significativamente relacionadas. Quanto à espiritualidade dos participantes, uma de suas medidas envolveu a questão “Em que medida você se considera uma pessoa espiritual?”, e suas opções de resposta foram “1 = Muito espiritual”, “2 = Moderadamente espiritual”, “3 = Levemente espiritual” e “4 = Nada espiritual”.

[2] Por exemplo, enquanto a crença em espíritos sobrenaturais predisse a variância de espiritualidade em 66%, o poder preditivo de sentido de vida foi de mais ou menos 5%. A segunda variável mais robustamente associada com espiritualidade foi paz interna, a qual predisse sua variância em 35%. Contudo, esse valor foi identificado a partir de uma técnica estatisticamente menos rigorosa (com menos covariáveis que poderiam “amortecer” essa relação, digamos).

Referências

  1. Gontijo, D. F. (2019). Espiritualidade e saúde mental: Exploração de relações curvilineares a partir de uma nova escala de crenças espirituais. (Tese de doutorado.) Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/32684/1/Daniel%20Foschetti%20Gontijo%20_Esperitualidade%20e%20saude%20mental.pdf
  2. Harris, S. (2015). Despertar: Um guia para a espiritualidade sem religião. São Paulo: Companhia das Letras.
  3. King, M. B., & Koenig, H. G. (2009). Conceptualising spirituality for medical research and health service provision. BMC Health Services Research9(1), 1–7.
  4. Lindeman, M., Blomqvist, S., & Takada, M. (2012). Distinguishing spirituality from other constructs: Not a matter of well-being but of belief in supernatural spirits. Journal of Nervous and Mental Disease200(2), 167–173.
  5. Moreira-Almeida, A., & Koenig, H. G. (2006). Retaining the meaning of the words religiousness and spirituality: A commentary on the WHOQOL SRPB group’s “A cross-cultural study of spirituality, religion, and personal beliefs as components of quality of life” (62: 6, 2005, 1486–1497). Social Science & Medicine63(4), 843–845.
  6. Oman, D. (2013). Defining religion and spirituality. In Paloutzian, R. F., & Park, C. L., Handbook of the psychology of religion and spirituality (2ª ed., pp. 23–47). New York, NY: The Guilford Press.
  7. Paloutzian, R. F., & Park, C. L. (2013). Handbook of the psychology of religion and spirituality (2ª ed.). New York, NY: The Guilford Press.
  8. Pargament, K. I. (1999). The Psychology of Religion and Spirituality? Yes and no. International Journal for the Psychology of Religion9(1), 3–16.