Um asteroide não é apenas uma simples rocha espacial. Nem apenas uma potencial ameaça à Terra. Esses objetos também são importantes para o estudo do nosso Sistema Solar. De fato, há certos corpos e fenômenos do Universo que ganham facilmente a atenção do público leigo. Buracos negros, estrelas de nêutrons, supernovas e pulsares estão sempre nos fascinando mais e mais. Têm presença constante nas manchetes por suas caraterísticas. Além de, claro, o estranhamento que nos causam. Mas outros objetos menos peculiares também merecem igual atenção. Entre eles, os próprios asteroides. E acredite, eles podem ser mais intrigantes do que imaginamos.

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O que são asteroides?

A ficção científica retrata com frequência asteroides como desafios para pilotos de naves espaciais. Principalmente, quando entram em cinturões de asteroides. São grandes regiões circulares do espaço em que esses objetos se aglomeram. Eles, porém, não são criação de livros, filmes e séries sobre o Universo. Na verdade, os cientistas os conhecem há muito tempo. Séculos atrás, o gigante da astronomia Johannes Kepler investigava a distância entre Marte e Júpiter. Ele considerava a área grande demais para não haver nada lá. Tempos depois, outros cientistas, entre eles, William Herschel, que descobriu Urano, se debruçavam sobre a questão. Eles observaram novos corpos na mesma região. Para os telescópios da época, não eram muito diferentes de estrelas. Contudo, se moviam rapidamente pelo céu. Por isso, por certo tempo, sua classificação foi a mesma dos planetas. Afinal, no grego, o significado de planeta é “viajante”.

Depois dos quatro primeiros asteroides, Ceres, Pallas, Juno e Vesta, os cientistas encontraram milhares de novos corpos pelo cinturão. Houve ainda mais tarde necessidade de novos rótulos para, por exemplo, os asteroides próximos à Terra (NEAs, do inglês Near Earth Asteroids) e asteroides troianos, que coorbitam o Sol com planetas. À exceção de corpos como cometas, a classificação, até hoje, pode ser um pouco confusa. Isso porque ela depende do tamanho, massa e da região em que se localizam os objetos. Entende-se coletivamente esse corpos, contudo, como corpos pequenos do Sistema Solar. O termo foi introduzido na mesma reunião da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês) que criou a classificação de planeta anão. Aliás, junto a Plutão, que na época, foi rebaixado a esse novo rótulo, está o asteroide Ceres. Isso porque, devido à sua massa, consegue ter forma de elipse, diferentemente de seus colegas de cinturão.

Asteroide à vista

Um artigo de maio e um de agosto ilustram bem como os formatos desses corpos podem ser diferentes. Publicados na revista Astronomy and Astrophysics, eles contêm novas observações feitas no Very Large Telescope (VLT) no Chile. As imagens mostram com detalhes o fascinante asteroide Kleopatra, a 200 millhões de quilômetros da Terra. Permitiram à equipe de cientistas, assim, conhecer melhor a massa e tamanho do objeto. Sua largura, por exemplo, é próxima de 270 km. Forneceram também informações para a reconstrução do aspecto mais peculiar do objeto. Isto é, seu formato parecido com um “osso de cachorro”. As imagens já foram divulgadas pelos astrônomos do European Southern Observatory (ESO).

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O Kleopatra, na verdade, é conhecido desde o século XIX. Foi avistado já naquela época no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Conforme os equipamentos melhoravam com o tempo, ganhávamos novas informações. Em 2008, por exemplo, foram observadas suas duas luas conhecidas, AlexHelios e CleoSelene. Seus nomes são uma homenagem a dois filhos da rainha do Antigo Egito que dá nome ao asteroide. Agora, foram vistas por um equipamento moderno, que foi construído para detecção de exoplanetas ao redor de estrelas brilhantes. Ou seja, é um bom candidato para a captura de imagens de alta resolução. E isso mesmo considerando distorções causadas por nossa atmosfera.

Um objeto peculiar

Os detalhes a mais permitiram aos astrônomos aprimorar modelos da forma do asteroide. E ainda, das órbitas de suas luas. Isso se deu porque a atração gravitacional entre os três corpos (e suas órbitas) é importante para determinar a massa do asteroide. Corrigir os modelos, portanto, implicava em uma massa diferente. Os novos dados colocam a massa de Kleopatra como 35% menor do que o valor anterior. Além disso, é menos denso do que se pensava, apesar de provavelmente ser metálico. Os cientistas, então, sugerem que a sua superfície deve ser semelhante a uma “pilha de entulhos”. Outros asteroides assim já chamaram a atenção de cientistas nos últimos tempos. São exemplos os objetos Ryugu e Bennu.

Pensa-se que asteroides desse tipo devem ter se formado dos destroços de uma colisão. Analisando a rotação do objeto, concluíram também que as duas luas devem ter surgido do próprio asteroide. E ainda há possibilidade de outras luas não-observadas. Para detectá-las, porém, teremos que esperar pelo Extremely Large Telescope (ELT). Será um telescópio ainda mais poderoso que o VLT. E iniciará suas observações em breve. De qualquer forma, casos como esse mostram o quanto a ciência pode avançar com a evolução da tecnologia e da instrumentação.

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Com informações do ESO.
Publicado originalmente por SoCientíficaLeia o original aqui.