(Créditos da imagem; Freepik Premium).

Será que vivemos em um multiverso? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. A literatura e ficção científica vivem imaginando essa realidade, e é um grande sonho de muitos cientistas, como o falecido Stephen Hawking. Até o momento, no entanto, não há evidências confiáveis da existência de outros universos — isso, no entanto, pode estar mudando.

A ANITA (Antarctic Impulsive Transient Antenna) é um experimento da NASA montado em um balão, que analisa e coleta sinais de raios cósmicos (partículas extremamente energéticas vindas do Universo) na Antártica, local onde o ar frio e seco trás pouca interferência nos sensores, melhorando a confiabilidade dos dados.

Mas há um problema. Há alguns anos, a ANITA identificou algo muito estranho: essas partículas de alta energia possuem uma forte interação com a matéria, então não conseguiriam atravessar um corpo tão maciço quanto o planeta Terra; por isso só as encontramos vindo do espaço, onde predomina o vácuo, e nunca da Terra. No entanto, os dados apresentaram a detecção de partículas carregadas vindo da Terra. 

Essas partículas se parecem com neutrinos de alta energia. Neutrinos “comuns”, de baixa energia, podem atravessar a Terra sem problemas, então é comum que eles saiam da Terra em direção ao espaço. Os neutrinos de alta energia, no entanto, se comportam como as outras partículas carregadas, e seria impossível que atravessassem o planeta. O primeiro artigo sobre o acontecimento foi publicado em 2016 pela equipe liderada por Peter Gorham, onde eles relatavam partículas semelhantes aos raios cósmicos, só que em rota ascendente. Desde então, diversos outros casos semelhantes foram publicados. Em 2018, outra equipe, liderada por Derek Fox, também se debruçou sobre.

Diversas hipóteses foram elaboradas para explicar esses fenômenos que não se adequam ao Modelo Padrão (modelo que descreve as forças e partículas fundamentais do Universo), fazendo com que pareça que a física quebrou. Uma ideia proposta em 2018 foi uma transformação; um tipo de neutrino de alta energia, chamado neutrino do tau, eventualmente pode se transformar em um lépton — outra partícula subatômica — ainda se chamando tau. É possível que o neutrino tau tenha sobrevivido à travessia da Terra se transformando em um lépton tau, e depois voltando a ser um neutrino. A ideia, no entanto, não foi muito bem aceita. Essa recepção foi ainda pior quando outro evento desse tipo foi detectado. Essa transformação é tão improvável de acontecer no Universo que várias detecções num curto período de tempo não seriam possíveis.

Muitas hipóteses propostas em algum momento esbarravam em uma barreira absoluta: a simetria. Nada nunca quebra os três pilares da simetria do Universo, a simetria CPT (Carga, Paridade e Tempo). O teorema diz que para a inversão desses três elementos, o sistema e as leis do Universo são invariantes, ou seja, mesmo que tudo seja espelhado, as leis da física continuam a valer.

Conforme disse o físico teórico Neil Turok à edição de abril da revista New Scientist, “a física de partículas deixou de ser a teoria preditiva mais econômica que conhecemos, e um número incrível de pessoas aceitou isso. Bom, eu não”. Ele se refere às hipóteses complexas criadas para explicar algo desconhecido, ao invés de simplesmente tentar com o que já conhecemos da física.

Apesar de a simetria CPT se tornar uma barreira, uma ideia conseguiu escalá-la e enxergar algo. Grosso modo, se para tudo há um “espelho”, o Big Bang não deve ter criado um único Universo, mas dois: um é o que vivemos, e o outro, onde o tempo corre para trás. Em um combo, isso ainda responderia outra questão. Matéria e antimatéria se aniquilam, formando energia. Para a simetria CPT valer, elas deveriam ter surgido na mesma relação. Entretanto, se elas estivessem na mesma quantidade no Universo, não estaríamos aqui, pois não haveria matéria. Nunca entendemos em que momento houve mais matéria do que antimatéria, e isso quebra a simetria. Dois Universos explicariam isso muito bem: um Universo recebeu predominantemente matéria, e no outro predomina a antimatéria, logo, a aniquilação não foi total, pois a “sobra” que equilibra estaria e, outro Universo; somando os dois, o valor seria igual, preservando a simetria.

Voltando ao assunto, o outro Universo, seria exatamente igual ao nosso, só que totalmente oposto: tudo seria feito de antimatéria, as cargas são invertidas e o tempo corre para trás, e, nesse cenário, de alguma forma esse neutrino de alta energia veio de lá, e está fazendo o caminho que faria com o tempo invertido.

Uma crítica que deve ser ressaltada é o fato de que diversos veículos de comunicação, nacionais e estrangeiros, acabaram se precipitando e dando a entender de que outro Universo foi de fato descoberto, e que isso é um consenso entre cientistas. Essa, entretanto, é uma hipótese que visa explicar um fenômeno até o momento inexplicável. Propor e descartar hipóteses é algo de praxe, e essencial para a ciência. A qualquer momento, uma ideia legal pode ser descartada por alguma solução não tão bonita. Portanto, não há motivo para euforia.

Referências:

  1. LETZTER, Rafi. Bizarre Particles Keep Flying Out of Antarctica’s Ice, and They Might Shatter Modern Physics, LiveScience. Acesso em: 19 mai. 2020.
  2. LETZTER, Rafi. Mysterious particles spewing from Antarctica defy physics, LiveScience. Acesso em: 10 mai. 2020.
  3. New Scientist. Londres: Ed. 3277/11-17 abr. 2020.
Avatar
Mais um insignificante humano habitando um pálido ponto azul no vasto oceano cósmico circundante. Com minha ilusória auto-importância, característica humana, me aventuro pela divulgação científica Apaixonado pela ciência desde criança, sou uma das poucas pessoas que como diz Carl Sagan, “passam pelo sistema com sua admiração e entusiasmo intactos”. Atualmente curso Física na UFScar e escrevo para o Ciencianautas.